A física dos antigos deparou-se com os mesmos problemas que nos interpelam hoje: no escuro as coisas não são visíveis, mas, havendo luz, tudo se torna reconhecível, inteligível, visível em ato. Mas a própria atmosfera não se torna visível; assim, deduziu-se que o ar é portador da luz, do mesmo modo pelo qual (como sabemos hoje) é portador do som. Ou seja, a luz torna o ar capaz de clarear as cores das coisas, pensavam.

Assim, em sua resposta sintetizadora, Tomás partirá desta ideia, de que a própria atmosfera enche-se de luz por efeito do sol e. por isto, torna visíveis em ato as cores das coisas. Para descobrir como explicar este fenômeno, Tomás raciocina por exclusão.

A primeira hipótese que ele examina é a de que a atmosfera teria a capacidade de reter formas intencionalmente, como a nossa mente retém as formas das coisas que conhece. Era assim, que os antigos acreditavam que funcionava a relação da atmosfera com as cores de todas as coisas: era como se o ar estivesse em potência para todas as cores, ou seja, quando alguma coisa fosse iluminada, a atmosfera pudesse transportar aquela cor até os nossos olhos, adquirindo-a em ato, mas apenas de modo a indicá-la, a torná-la conhecida a nós, de tal modo que a pudéssemos ver. Considerando isto, alguns sugeriram que a atmosfera também pudesse estar em potência para a luminosidade, de tal modo que, recebendo a luz, ela ficaria em ato para clarear as coisas; mas Tomás não aceita esta explicação. A relação da atmosfera com a luz, diz ele, é diferente da relação com as cores das coisas. A luz torna a atmosfera iluminada de verdade, diz Tomás. Ela permeia o ar e está realmente presente, quando a fonte de luz está presente. Mas a cor não torna a atmosfera colorida em ato. Ela apenas transporta a cor, ou seja, aponta intencionalmente para ela, mas não se torna ele mesmo colorido. Além disso, diz Tomás, a fonte de luz é capaz de aquecer a atmosfera, mostrando que há, ali, uma presença real da luz, enquanto a fonte de cor não gera nenhum efeito nela. Assim, Tomás rejeita a explicação de que a presença da luz no ar possa ser explicada do mesmo modo que explicamos o fato de que as cores são visíveis através dela. Precisamos sempre lembrar, aqui, que Tomás não conhece a física que conhecemos hoje.

A segunda teoria é a que afirma que a luz é a própria forma substancial do sol. O sol seria luz de uma maneira equivalente àquela pela qual os gatos são gatos, ou os cães são cães, ou as pedras são pedras, diz esta hipótese. Ou seja, a luz seria o próprio sol.

Mas Tomás também não aceita esta resposta. Nós não enxergamos a essência das coisas com os nossos olhos, ou seja, as essências não se dão aos nossos sentidos. Quando olho, por exemplo, para a minha cadelinha Pipoca, não vejo sua essência canina, mas a cor do seu pelo, os limites do seu formato, o brilho dos seus olhos. Vejo os acidentes de Pipoca, ou seja, suas qualidades sensíveis, mas não sua quididade, quer dizer, aquilo que ela é essencialmente. Aquilo que Pipoca é, ou seja, o fato de que ela é um cão, não é objeto para os meus sentidos, mas apenas para a minha inteligência. Ora, a luz é objeto para os meus sentidos. Portanto, ela não pode ser a própria essência do sol.

Além disso, diz Tomás, aquilo que é forma substancial sempre identifica uma substância. A essência canina da cadelinha Pipoca apresenta-se nela e em cada cão. Não há uma essência canina que seja a própria forma substancial da cadelinha Pipoca e, ao mesmo tempo, uma forma acidental de outro bicho. Mas a luz do sol atinge nossa atmosfera e ilumina nosso planeta, e nem por isto nosso planeta vira o sol. Se a luz do sol fosse a forma substancial do sol, tudo aquilo em que ela se apresentasse se tornaria sol, e a escuridão seria a destruição da substância solar, como a forma do cão se destrói quando o cão morre. Assim, Tomás conclui que a luz não é a forma substancial do sol.

O que resta? Afirmar que a luz é uma característica do fogo, algo que ele gera como acidente pelo fato mesmo de existir. O fogo existe para aquecer, queimar e iluminar. Mas sabemos (e Tomás sabia) que há situações em que o fogo existe e queima, mas não produz luz; assim, esta qualidade, a qualidade de iluminar, é acidental ao fogo. Ademais, além de ser uma qualidade própria do fogo, a luz modifica outras coisas, tornando-as visíveis. Portanto, é uma qualidade ativa, quer dizer, capaz de produzir efeitos além da sua própria fonte.

E assim Tomás vê a luz: uma qualidade ativa do fogo que tem por propriedade tornar as coisas visíveis. Vale lembrar que a física do tempo de Tomás descrevia o próprio fogo como uma substância, ou até mais do que isto, como um dos elementos estruturais do próprio universo. Portanto, diz Tomás, a luz é qualidade dos corpos substancialmente formados de fogo, como o sol e as estrelas e qualquer outro que seja capaz de emiti-la por si mesmo.

Havendo colocado os fundamentos de sua resposta, ele revisita agora as objeções iniciais.

A primeira objeção compara a luz com o calor. Ela diz que o calor é uma qualidade, e que, uma vez retirada a fonte de calor, esta qualidade permanece no corpo que a recebe. Por isto a água fica aquecida, mesmo quando se retira a fonte de calor da sua proximidade. Mas a visibilidade some quando a fonte de luz se retira. Assim, a luz não pode ser uma qualidade, conclui o argumento.

Tomás dará uma explicação metafísica, que envolve compreender o fogo como uma coisa, uma forma substancial. Quando o fogo aquece alguma coisa, diz Tomás, ela na verdade transmite a esta coisa sua própria forma substancial, de tal maneira que, se a coisa recebe a forma substancial do fogo de forma completa, ela se incendeia (pensemos num galho de madeira que encosta numa tocha). Neste caso, passa a ser, ele mesmo, fonte de calor. Assim, a água aquece porque ela recebe a forma substancial do fogo de um modo incompleto, parcial, e não se transforma em fogo, apenas aquece. Mas volta gradativamente à forma de água quando a fonte de fogo se afasta; por isto, esfria. No caso da claridade da luz, diz Tomás, não há alteração da matéria, porque não há a transmissão de forma, mas apenas a participação numa qualidade da luz, que é a iluminação. É por isto, diz Tomás, que, afastada a fonte de luz, a coisa volta a escurecer imediatamente. Mais uma vez, aqui, vemos o respeito de Tomás à ciência do seu tempo.

O segundo argumento objetor alega que toda qualidade sensível tem um contrário: amargo-doce, liso-áspero, quente-frio, etc. Mas a luminosidade não tem um contrário, porque a escuridão não é o contrário da claridade, mas a privação da luz. Assim, a luz não é uma qualidade sensível, diz o argumento.

Também aqui se vê o peso da física do tempo de Tomás em sua resposta. Ele responderá simplesmente que o sol é o primeiro dos seres corporais a provocar alterações no universo físico (e assim se acreditava, dada a clara influência do sol na vida da terra). Assim, diz ele, o que é primeiro não tem contrário. Ou existe e se manifesta, ou não existe. E assim, pensa ele, é que se explica a claridade e a escuridão.

O terceiro argumento diz que uma causa não pode ser menos do que o seu efeito. Assim, uma forma simplesmente acidental não tem força para fazer surgir efeitos que são, eles mesmos, formas substanciais. Mas é graças à luz do sol que as plantas germinam e os seres vivos formam-se. Além disso, é graças à luz que as cores adquirem suas formas inteligíveis, isto é, tornam-se reais para os seres que as enxergam. Disto, o argumento conclui que a luz não é apenas uma qualidade dos corpos luminosos.

Mas Tomás vai dizer que a luz não é a causa formal das formas substanciais que surgem na sua presença, como as plantas e os animais que dependem dela para serem gerados. O calor, diz Tomás, é uma qualidade do fogo, mas ele é como a causa instrumental de que o fogo surja em outros lugares. Assim, a luz, ao participar do processo de geração dos seres e de iluminação das cores, é como que uma causa instrumental de que estas coisas surjam, mas não é a causa formal, substancial, delas. Sendo a qualidade do primeiro corpo sensível (que, para a ciência do tempo de Tomás, era o sol), a luz seria, portanto, a causa instrumental de que as coisas sejam geradas e as cores sejam visíveis, ou seja, ela, de certa forma, é um instrumento que, como um dominó, desencadeia os processos derivados da presença do sol.