O debate realizado nos dois artigos anteriores estabelecem que o sentido primeiro do relato bíblico é tratar da luz como realidade material mesmo, já que o sentido espiritual seria um uso extensivo. Ou seja, trouxe-nos para a literalidade da criação do nosso universo, evitando uma leitura espiritualizada, meramente alegórica, até mesmo gnóstica, deste relato. No segundo artigo, estabelecemos que, embora tratando da luz que foi criada aqui em nosso universo físico, não estamos tratando de algo corpóreo em si mesmo. O que nos colocou diretamente dentro do debate atual a respeito da natureza da luz: hoje, a ciência tende a defender que a luz pode ser vista como partícula ou como onda.

Isto nos traz diretamente para este terceiro artigo. Aqui, ficará claro que Tomás não quer discutir a natureza da luz em si mesma, embora respeite o conhecimento científico do seu tempo. Aqui, veremos que o objetivo dele é teológico mesmo: trata-se de determinar exatamente o papel da luz, o significado dela no contexto da criação. Neste sentido, a luz é mesmo uma qualidade, ou seja, é aquilo que torna as coisas visíveis, e portanto torna-as capazes de serem alcançadas pelos órgãos da visão dos animais. É desta qualidade, ou seja, da capacidade de tornar visíveis as coisas, que estamos falando aqui. É menos importante para nós, portanto, a discussão, no âmbito da física das partículas, a respeito da natureza intrínseca da luz. Interessa-nos mais saber em que, exatamente, a criação da luz qualifica a própria obra da criação: ela torna a criação visível. Ou seja, ela seria um acidente dos entes, uma característica que, existindo neles, torna-os visíveis.

É claro que o artigo usa o termo “qualidade” como um termo técnico da filosofia. Qualidade, na filosofia clássica, é uma das dez categorias em que se classifica o ser.

Para entender melhor, vamos pensar num cão qualquer: a primeira categoria, que o define como ser, é a categoria de substância. Substancialmente, ele é um cão. Mas há uma série de características acidentais que ele apresenta, que podem variar sem que ele deixe de ser esta substância, ou seja, sem que ele deixe de ser um cão. As categorias acidentais são (exemplos entre parênteses, para esclarecer): qualidade (por exemplo, é um cão doméstico ou um cão de rua), quantidade (por exemplo, é um cão enorme ou um pequeno cãozinho de madame), relação (é o meu cão ou o cão do vizinho), tempo (é um cão velho ou jovem), lugar (está aqui ou lá), ação (é um cão ativo ou desanimado), estado (é um cão saudável ou doente), posição (está sobre os quatro pés ou deitado), e paixão (é o cão que recebe de mim alimento e carinho, ou apenas surras).

Mas voltemos ao debate do artigo. A hipótese controvertida, aqui, é: parece que a luz não é uma qualidade. Ou seja, a luz, como fator que clareia o mundo, não seria, segundo o argumento, um acidente de algum ente, na categoria das qualidades.

Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento lembra que uma qualidade sempre permanece no respectivo sujeito, mesmo depois que o agente desapareceu. Pensemos, por exemplo, numa parede que antes era branca e depois foi pintada de amarelo. A qualidade da parede, de ser amarela, permanece na parede mesmo depois que o pintor terminou o serviço e foi embora. Ou pensemos numa água que está na panela: mesmo quando desligo o fogo, o calor permanece na água, que continua sendo água quente. Mas, no caso da luz, quando apagamos o foco luminoso, toda a claridade que ilumina aquele ambiente desaparece. Assim, conclui o argumento, a luz não pode ser considerada uma qualidade.

O segundo argumento diz que as qualidades sensíveis são caracterizadas por terem sempre algum contrário: o frio e o quente, o doce e o amargo, o branco e o preto, e assim por diante. Mas, no caso da luz, não se pode dizer que as trevas são o contrário da luz, porque as trevas nada mais são do que a privação da luz. Assim, conclui o argumento, não se pode dizer que a luz seria uma qualidade sensível.

Por fim, o terceiro argumento diz que a causa sempre deve ser mais poderosa que o efeito. Mas ocorre que a luz dos astros, em especial a luz do sol, é causa da formação das coisas terrestres, como se vê no caso das sementes que brotam estimuladas pelo sol, além do fato de que a luz é a causa de que as cores passem a existir substancialmente como realidades visíveis, adquirindo a plenitude de sua existência, já que, na ausência de luz, as cores simplesmente não existem. Ora, se a luz fosse apenas um ser acidental, na categoria das qualidades, ela não poderia ser causa da geração de formas substanciais ou mesmo da própria geração do ser das cores, porque o menos (a forma acidental) não poderia causar o mais (a forma substancial). Logo, o argumento conclui que a luz não é uma simples qualidade.

O argumento sed contra afirma, simplesmente, que São João Damasceno atestou que a luz é uma qualidade. Há, pois, uma autoridade respeitável que sustenta esta posição, diz o argumento.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.