Este é mais um artigo daqueles em que se vê o quanto aqueles assuntos que, na época de Tomás, eram do domínio da filosofia e mesmo da teologia, são hoje assunto estritamente científico. Hoje, discutimos em que medida a luz é uma onda de energia e em que medida ela é formada de partículas denominadas “fótons”. A visão mais corrente é a de que ela se comporta tanto como onda, quanto como partícula. Em todo caso, na modernidade, parece-nos anacrônico debater a luz como assunto teológico. Mas temos que lembrar que o interesse de Tomás é diferente daquele dos físicos de hoje. Aqui, ele quer entender a criação, e portanto trata-se de compreender a luz, tal como citada em Gênesis 1, 3. Não é uma descrição de física, mas de teologia: descobrir a criaturalidade daquilo que é chamado de “luz” pela Bíblia. É disto que se trata.

Note-se como o debate se estabelece: os argumentos são citações de escritores antigos, cheios de autoridade, mas a resposta sintetizadora de Tomás é empírica. Ele nos ensina, aqui, a não deduzir a realidade do conhecimento de outros, ainda que autoridades, mas procurar na experiência empírica o fundamento para a estrutura do real. É uma lição que muitos alegados “discípulos” de Tomás esquecerão, e tomarão o próprio Tomás e suas conclusões empíricas como fundamento para descrever a realidade. Mais do que ensinar se a luz é corpo ou energia, Tomás deve nos ensinar a não deduzir a realidade a partir da lógica pura, ou mesmo da autoridade de estudiosos, mas a experimentar empiricamente aquilo que buscamos conhecer.

No primeiro artigo desta questão, vimos que a menção, aqui, é, em primeiro lugar, à luz física, mesmo; mas não se pode excluir do sentido literal a significação espiritual do termo “luz”. Aqui, debateremos o que é esta “luz” em sentido físico. A hipótese controvertida é que a luz, que a Bíblia refere ali, é um corpo, isto e, é uma coisa material mesmo. São três os argumentos objetores.

O primeiro argumento cita Santo agostinho, que afirmou que a luz “ocupa o primeiro lugar entre os corpos”. Logo, conclui o argumento, a luz é uma coisa corporal.

O segundo argumento resgata uma citação de Aristóteles, na qual o Filósofo diz que a luz é “um tipo de fogo”; ora, prossegue o argumento, o fogo é um elemento material da natureza. Logo, a luz também o é, conclui o argumento.

O terceiro argumento lembra que a luz apresenta três propriedades que são características de seres materiais: ser transportada, ser cortada e ser refletida. Estas propriedades apresentam-se em coisas materiais, e apresentam-se também na luz, que, como sabemos, pode ter seus raios unificados ou divididos, como lembra o Pseudo-Dionísio, o que é, também, uma propriedade de seres corporais. Assim, o argumento conclui que a luz é algo corpóreo.

O argumento contrário lembra aquele princípio da física que estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Mas a luz, diz o argumento, atravessa a atmosfera sem perturbá-la, ou seja, ocupa o mesmo espaço que o ar. Logo, não é um corpo, conclui este argumento sed contra.

Antes de examinar a resposta sintetizadora de Tomás, é importante lembrar que mesmo a nossa física mais avançada ainda se debate com a natureza da luz. De fato, às vezes ela se comporta como onda, ou seja, como energia, às vezes ela se comporta como um feixe de partículas. Ou seja, os argumentos deste debate ainda não se resolvem.

Passemos, então, à resposta de Tomás. Ele toma partido no debate: considera que a luz não é corpórea. E apresenta, em defesa de sua posição, três argumentos tirados da física do seu tempo, que tinha uma orientação fortemente aristotélica. Mas seus argumentos têm também um forte conteúdo empírico, e demonstram grande poder de observação da natureza (considerando que não havia laboratórios nem equipamentos de precisão àquela época).

Os argumentos são:

1. O argumento do lugar, ou seja, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, diz Tomás. Mesmo no caso dos gases, quando injetamos gases num determinado ambiente que já é gasoso há, ao menos, um aumento da pressão dos gases, revelando que os gases são substâncias materiais e ocupam lugar no espaço. Mas quando acendemos a luz em algum ambiente, não se nota nenhum deslocamento físico mensurável, nenhum aumento de pressão atmosférica, nenhum deslocamento que um corpo produziria noutro corpo quando há o encontro de coisas materiais. Disto, Tomás conclui que a luz não é algo corpóreo.

2. O argumento da velocidade de deslocamento. Tudo aquilo que é corpóreo, diz Tomás, desloca-se com alguma velocidade, mais rápida ou mais lenta. Mas, de qualquer modo, há um percurso no tempo e no espaço, que percorre todos os espaços intermédios, quando há mudança de localização espacial num ser corpóreo. Mas a luz ilumina instantaneamente, diz Tomás. Não há nenhum atraso, nenhum tempo intermédio entre o momento em que a luz surge e o momento em que ela clareia todos os pontos do ambiente. É instantâneo. Nem se poderia dizer, prossegue Tomás, que a luz se desloca numa velocidade incrivelmente alta; neste caso, este deslocamento não seria perceptível em pequenos trajetos, mas teria que ser necessariamente perceptível em deslocamentos que envolvessem enormes distâncias. Mas o nascer do sol nos mostra que isto não acontece, nem sequer na distância que envolve todo o hemisfério da Terra. De fato, surgindo o sol, sua luz alcança todo o hemisfério instantaneamente, sem que o suposto deslocamento seja perceptível, nem sequer nessa enorme distância. Por fim, ainda neste argumento, Tomás aduz que, nos seres corpóreos, qualquer deslocamento tem sempre um padrão natural: reto, circular, espiral, etc. Mas, no caso da luz, ela parece operar simultaneamente em todas as direções, não apresentando nenhum padrão específico para deslocar-se, o que reforça a ideia de que ela não é algo corpóreo.

3) O argumento da geração e corrupção, ou seja, a ideia de que algo corpóreo deve ser gerado fisicamente na matéria e, uma vez destruído, deixa algum rastro material atrás de si. Ora, diz Tomás, se a luz fosse corpórea, ela seria gerada na matéria e, portanto, quando o ambiente voltasse a ficar escuro, ela deixaria atrás de si algum tipo de resíduo material, que restasse pela sua destruição, como o fogo na madeira faz restar as cinzas. Mas isto não se dá; uma vez que se apaga a fonte de luz, a luminosidade desaparece sem deixar rastros materiais. A menos que alguém possa defender que a escuridão também é corpórea, e que ela é alguma espécie de resíduo deixado pela luz que se apaga, o que seria absurdo de pensar, segundo Tomás. Por outro lado, para considerar que a luz é algo corpóreo, diz Tomás, teríamos que imaginar na imensa massa de matéria que a luz traria consigo ao iluminar, a cada dia, um hemisfério inteiro da Terra. Além disso, diz Tomás, se imaginássemos que o corpo da luz move-se junto com o sol, acompanhando-o em seu movimento, não teríamos como explicar que, ao interpor algum corpo opaco entre o sol e o chão, a sombra formada é retilínea com relação ao sol, dando a entender que os raios de luz movem-se de modo retilíneo e paralelo, e não num movimento circular junto com o sol. Além disso, diz Tomás, se ela fosse algo corpóreo, ela tenderia a se concentrar ao redor do corpo opaco que a bloqueia, de modo análogo àquele pelo qual a corrente de água é maior em torno a uma barreira. Mas isto não se dá, e não há mais luz em torno de um corpo opaco que forma uma sombra do que no restante do ambiente, a demonstrar que o fluxo luminoso, diferentemente, por exemplo, de um fluxo de água, não é corpóreo.

Estes três argumentos, diz Tomás, são suficientes para que a razão seja levada a concluir que a luz não é algo corpóreo. E esta é uma questão que, embora sob outros fundamentos e redobrado conhecimento da própria natureza do universo e da energia, do comportamento das partículas fundamentais da matéria e dos campos de energia, nossa contemporaneidade não conseguiu resolver satisfatoriamente.

Colocados estes elementos, Tomás vai reexaminar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento cita Agostinho, quando afirma que “a luz, entre as coisas corporais, tem o primeiro lugar”; da autoridade dele, o argumento conclui que a luz é corpórea.

Tomás vai responder que, nesta passagem, Agostinho não está se referindo à própria luz, mas àquilo que é fonte de luz; ora, para a ciência que Tomás e Agostinho conheceram, a única fonte de luz era o fogo, e o fogo era tido como um dos elementos corpóreos da natureza. Assim, conclui Tomás, Agostinho estava se referindo ao fogo, que produz a luz, como corpo mais nobre; não à própria luz.

O segundo argumento cita Aristóteles, que teria afirmado que a luz é uma espécie de fogo. Ora, aquilo que é da mesma espécie tem a mesma estrutura, diz o argumento. Logo, a luz é corpórea, conclui.

Tomás explica que Aristóteles, nesta passagem, refere-se à luz como fogo, porque a parte aérea do fogo, que é a chama, é que ilumina, enquanto a parte sólida é carvão e é opaca. Mas, Tomás vai lembrar, a referida passagem de Aristóteles está no seu tratado sobre a lógica, e não na sua Física ou na Metafísica. Assim, Aristóteles está apenas dando um exemplo linguístico com um conteúdo de opinião, para fins de estudo da lógica, não como uma noção científica sobre a luz.

Por fim, o terceiro argumento afirma que, uma vez que ser transportado, seccionado ou refletido são propriedades das coisas corpóreas, como também ser dividido ou unificado, e todos estes fenômenos ocorrem com a luz, a luz deve ser corpórea, conclui o argumento.

Mas Tomás diz que estas propriedades não são atribuídas à luz de modo próprio, mas apenas metaforicamente; de fato, diz ele, até ao calor, que é apenas uma qualidade dos corpos, nós podemos atribuir metaforicamente a ideia de que ele pode ser transportado, refletido ou dividido e somado. Na verdade, diz Tomás, uma vez que os fenômenos relacionados ao movimento de um lugar para o outro são os mais evidentes, os primeiros que chegam à nossa experiência, muitas vezes usamos os termos relacionados a este tipo de fenômeno para falar de fenômenos que envolvem alterações, mas não deslocamentos de lugar. De modo similar, muitas vezes falamos da distância, que é um conceito estritamente físico, para referir a oposição radical entre conceitos contrários, como, por exemplo, a distância que existe entre o sim e o não, embora aí não se trate de uma distância física. Assim, o uso de termos da física para descrever fenômenos da luz como se eles fossem corpóreos seria metafórico, diz Tomás.

Seria muito interessante fazer uma comparação entre as deduções de Tomás e as descobertas da física contemporânea. Acho que ele próprio gostaria muito de ver estes novos desenvolvimentos, e descobrir em que medida ele os previu ou errou nas suas previsões. Mas isto ultrapassa os limites da nossa proposta aqui.