Entraremos, agora, no estudo da criação quanto à chamada “obra dos seis dias”. Trata-se, aqui na Suma, de um estudo que não envolve, simplesmente, a crítica a um texto, nem um concordismo fácil que pretenda harmonizar à força os dados científicos com os dados bíblicos. Tomás não é um “criacionista” no sentido que o termo tem hoje em dia, nem é um estudioso da Bíblia como um documento mítico a ser criticado. Ele recebe a Bíblia como palavra de Deus, a ser respeitada e levada a sério, mas sabe que sua interpretação não é fácil, e deve levar em conta aquilo que o livro da natureza (que é, também, uma maneira de revelação divina) mostra à razão humana.

Nesta questão, Tomás quer examinar, sob este enfoque teológico, a criação da luz. Não estamos num livro de ciências, nem sob um pregador fundamentalista. Precisamos aprender, com Tomás, a maneira adequada de trabalhar com a fé e a razão. Esta é a lição maior que ele nos deixa aqui.

A primeira questão é delimitar exatamente a linguagem, e neste ponto Tomás é cuidadosamente analítico. Ele vai estudar a criação da luz, tal como se apresenta no relato bíblico. Mas do que estamos tratando, aqui? Em que sentido falamos da luz? É preciso deixar claro, primeiramente, qual o sentido da descrição bíblica sobre a criação da luz. A hipótese controvertida vai propor, aqui, que o relato bíblico, ao mencionar “luz”, aplica esta noção, em sentido literal, à luz espiritual, à iluminação dos espíritos pelo amor de Deus. O sentido propriamente físico da menção à luz seria, portanto, metafórico, enquanto o sentido espiritual seria o sentido próprio, denotativo, da palavra, aqui. Ou seja, a hipótese inicial diz que, neste relato bíblico da criação, a “luz” se atribui, propriamente, aos seres espirituais, e apenas metaforicamente às realidades materiais. Ou seja, trata-se de estabelecer, como critério de interpretação, que a Bíblia relata diretamente a criação da “luz espiritual”, e apenas metaforicamente a criação da luz no sentido material, físico mesmo. É, portanto, um debate sobre qual o sentido literal de Gênesis 1, 3.

São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento resgata uma passagem em que Santo Agostinho afirma que, quanto às realidades espirituais, fala-se em luz num sentido melhor e mais correto. Agostinho chega mesmo a afirmar que, quando se diz que “Cristo é a luz”, esta afirmação tem um sentido literal, diferente, por exemplo, do sentido figurativo que existe quando se diz que ele é a rocha. Assim, o argumento conclui que o sentido literal da luz, na Bíblia, é o espiritual, não o físico.

O segundo argumento diz que o Pseudo-Dionísio elenca a palavra “luz” como uma das palavras que podem ser usadas como nomes adequados para Deus. Ora, prossegue o argumento, todas as palavras que podem designar Deus são predicadas, propriamente, das realidades espirituais. Assim, o argumento conclui que o sentido próprio da palavra “luz” é o espiritual, antes do físico.

O terceiro argumento faz uma citação da Carta aos Efésios, 5, 14, em que São Paulo diz: “tudo o que se manifesta é luz”. Ora, manifestar-se, isto é, tornar-se evidente quando anteriormente não se era, é algo que se diz mais propriamente do que é espiritual do que daquilo que é corporal. Dizemos que as coisas espirituais se manifestam, quando se tornam evidentes; mas as coisas materiais já são evidentes pela própria corporeidade. Portanto, se o próprio São Paulo diz que manifestar-se é ser luz, conclui o argumento, então a noção de luz é mais adequada às coisas espirituais do que às materiais.

O argumento contrário cita Santo Ambrósio, que diz expressamente, na obra “De Fide”, que a expressão “esplendor” é uma daquelas que se aplicam a Deus metaforicamente. Portanto, conclui o argumento sed contra, o sentido literal de “luz”, que é sinônima de esplendor, é o físico, mesmo.

Na sua resposta sintetizadora, Tomás dá uma aula de gramática. Todo nome, diz ele, pode ser considerado sob dois pontos de vista:

1. A chamada “primeira imposição”.

2. O seu uso corrente.

Tomemos como exemplo o substantivo “visão”. Sua primeira imposição, ou seja, seu sentido fundamental, é a de nomear o ato de enxergar, através dos olhos, concreta e materialmente.

Mas, prossegue Tomás, o fato de que o sentido da vista é poderoso em nos dar um conhecimento certo e amplo sobre aquilo que enxergamos, o sentido original marcado pela imposição primeira foi logo estendido, pelo uso corrente, a todo conhecimento obtido com certeza e amplitude por qualquer órgão dos sentidos. Assim, dizemos, no uso cotidiano: veja como isto tem um sabor agradável, ou então veja como isto cheira bem!

Mas o uso estendeu-se ainda mais, diz Tomás, e incluiu até mesmo o conhecimento espiritual de alguma realidade não submetida aos sentidos, como na passagem de Mt 5, 8: felizes os de coração puro, porque verão a Deus.

Algo semelhante ocorreu com o nome “luz”. Sua primeira imposição, que define seu sentido fundamental, diz respeito àquela energia física que permite às coisas serem enxergadas pelos nossos olhos. Mas o uso foi sendo estendido para denominar tudo o que causa a manifestação de qualquer objeto de conhecimento, não somente no sentido físico, mas também no sentido espiritual.

Assim, conclui Tomás, se considerarmos o vocábulo “luz” em sua primeira imposição, então Santo Ambrósio tem razão, e o nome é atribuído no sentido próprio, literal, às realidades físicas, e apenas metaforicamente às realidades espirituais.

Mas se considerarmos o uso corrente, com a extensão do sentido, então o nome “luz” também aplica-se literalmente às manifestações de conhecimento para as realidades espirituais. Vale dizer, é preciso muito discernimento para a leitura deste trecho do Gênesis: as duas leituras podem ser defendidas como próprias e mesmo como literais.

Após estabelecer com tanto cuidado sua resposta, Tomás considera dispensável voltar às objeções iniciais, uma vez que, a rigor, podem ser relidas adequadamente, com estes parâmetros.