Apos estabelecer o debate, que parte fundamentalmente da tentativa de dissociar o início da obra da criação, por um lado, e o início do próprio tempo, por outro, Tomás passa a dar sua própria resposta.
O tempo é uma criatura. Para Deus não há tempo. A própria vida divina é a posse plena, simultânea e atual da eternidade. O tempo, portanto, é uma marca da criaturalidade, da nossa limitação na relação com aquilo que existe. Ele é como que uma janela, um ponto no qual a nossa realidade limitada toca com a realidade ilimitada da eternidade. Ou, como diz Agostinho numa passagem muito conhecida das suas Confissões, “se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei o que ele é; mas se alguém me pergunta, já não o sei”. Mas o nosso debate, aqui, não é sobre a própria natureza do tempo; este debate já foi feito, de forma mais direta, na questão 10. Tampouco debatemos, aqui, sobre a experiência subjetiva do tempo. Este é um debate próprio da nossa visão subjetivista de mundo, que não era uma preocupação acadêmica no tempo de Tomás. O debate, aqui, diz respeito diretamente à relação entre o tempo e a criação. É, portanto, um debate cosmológico, embora sob o enfoque teológico. Qual a relação entre o tempo e a nossa criaturalidade?
De acordo com a doutrina corrente em seu tempo, diz Tomás, dizia-se que a criação tem a seguinte sequência: 1) Deus criou os anjos e toda a riqueza espiritual deles. 2) Em seguida criou o céu empíreo, ou seja, aquele lugar da glória que não é geográfico, mas espiritual, sobre o qual já debatemos no artigo anterior. Em seguida, 3) criou a realidade material, que se inicia de modo informe (e vai se aperfeiçoando progressivamente) e, por fim, 4) criou o tempo.
Mas Agostinho rejeita ta ideia de que a criação deu-se nesta sequência, diz Tomás. Na descrição que faz da criação, comentando o relato bíblico, ele aponta como primeiras obras: 1) a criação dos anjos e 2) da matéria fundamental informe, sem mencionar o céu empíreo. Ora, os anjos são substâncias puramente espirituais, e a matéria fundamental, por definição, precede logicamente qualquer especificação formal. Logo, ambos, quer dizer, os anjos e a matéria-prima, são criados antes mesmo que se possa falar em tempo, no sentido estrito. Nem os anjos, nem a matéria-prima, existem como parte da realidade histórica do mundo material, portanto. Os primeiros, por estarem além dela, embora intimamente relacionados, dada a sua capacidade de influir na matéria e sua limitação intelectual, consistente em lidar com os eventos em sequência, e não simultaneamente, como somente Deus pode. O segundo, ou seja, a matéria-prima, somente existe historicamente como parte da estrutura de um ser corporal qualquer, isto é, não existe historicamente como um ente separado, porque, sendo por definição uma entidade inteiramente potencial, vale dizer, sem nenhum aspecto de organização, de inteligibilidade, que a limite quanto à sua capacidade de compor absolutamente qualquer coisa em qualquer tempo e lugar, só pode existir como componente de algum ente já formado ou como ente de razão, ou seja, concebido em alguma mente. Portanto, diz Agostinho, tanto anjos como a matéria-prima, sendo criaturas, precedem a própria história, e portanto sua criação precede o tempo e o espaço.
Mas há outros Padres da Igreja que endossam a visão tradicional, que ordena a criação em quatro estágios, acima mencionados, diz Tomás. Eles partem de uma noção de que a criação da matéria informe não equivale à criação atemporal da matéria-prima, como queria Agostinho, mas a uma fase da própria criação da realidade material, em que a matéria foi sendo organizada, desde formas mais simples e rudimentares até a complexidade que ela apresenta hoje. Neste caso, dizem eles, o tempo é conatural com a matéria informe, e foi criado junto com ela. A sequência, então, seria: 1) Criação dos anjos, 2) criação do céu empíreo, 3) criação da matéria informe no tempo. Esta visão, ao menos no seu terceiro momento, não está desconforme à noção da física de hoje, de que o tempo e o espaço são dimensões correlatas, na realidade material. Não se poderia conceber a própria existência de uma realidade material, ainda que constituída de uma matéria precariamente organizada, que não contivesse em si uma dimensão temporal. De fato, o tempo seria a medida da própria organização da matéria, e sem a existência do tempo não se poderia falar de uma processualidade na formação da criação como um todo.
Havendo colocado estes princípios, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor diz que, segundo Agostinho, Deus fez duas coisas que não se sujeitam ao tempo: os anjos e a matéria-prima. Assim, o argumento conclui que, uma vez que a criação se iniciou com o surgimento da matéria informe, isto não se deu simultaneamente com o surgimento do próprio tempo. Ou seja, o tempo não foi concriado com a matéria informe.
Tomás vai responder que os anjos de fato não se submetem ao tempo, porque são imateriais. Tampouco a matéria-prima, em sua noção própria, está submetida ao tempo, simplesmente porque ela não existe no mundo das coisas reais em sua acepção própria, estritamente potencial e sem nenhuma determinação formal.,Assim, Agostinho está dizendo que a matéria-prima (como ente de razão), por ser essencialmente indeterminada, não está submetida ao tempo. Mas a matéria informe, ou seja, aquela matéria simples e indiferenciada que surge logo no início da criação, não é matéria-prima no sentido estrito, porque já sofre determinação de tempo e espaço. Por isto o tempo é concriado, ou seja, já mede os eventos desde o princípio da criação da realidade material.
O segundo argumento objetor diz que o tempo se divide em diurno e noturno. Mas só houve dia e noite, segundo o relato bíblico, no decorrer do primeiro dia da criação. Logo, o tempo não começou a correr simultaneamente com o início da criação, mas somente quando Deus estabeleceu os dias e as noites, conclui o argumento.
Tomás responde que, uma vez que sabemos que a matéria iniciou sob uma estrutura mais simples e depois foi se especificando nas formas complexas e ricas que temos hoje, nada impede que o tempo também tenha iniciado sob uma forma mais simples, e depois foi se enriquecendo das sequências e aspectos que encontramos hoje, como ciclos, fases e períodos. Assim, o fato de que o relato bíblico narra a separação entre o dia e a noite como algo posterior ao início não significa que o próprio tempo tenha começado somente então.
O terceiro argumento define o tempo como o “padrão de medida do movimento cósmico”. Ou seja, o tempo existe para medir o deslocamento dos corpos celestes pelo firmamento. Mas, prossegue o argumento, o firmamento, o espaço cósmico, não foi formado senão no segundo dia da criação, segundo o relato bíblico. Logo, o tempo não existe desde o princípio, conclui o argumento.
Tomás vai responder simplesmente que, se o firmamento só foi criado no segundo dia, então o tempo que precedeu este evento não existia em razão dele, isto é, não era essencialmente a sua medida, mas media outros tipos de movimento materiais, antes da formação do firmamento. O tempo não é, essencialmente, medida do movimento dos corpos celestes; esta é apenas uma das funções do tempo, acidental a ele. Se, de fato, o movimento do cosmos como um todo é o movimento fundamental, diz Tomás, no sentido de ser a explicação de todos os outros movimentos, isto não significa que o tempo esteja fundamentado neste movimento, especificamente. Desde o princípio, desde o primeiro momento da criação, houve movimento, mesmo quando o próprio universo ainda não estava formado. O tempo é, pois, essencialmente, padrão de medida desta sucessão de eventos que marca a própria formação de tudo o que existe, já que o tempo, ensina Tomás, pode ser definido como a enumeração do movimento na sua sequência de antes e depois.
O quarto argumento parte da ideia de que o tempo existe para ser medida do movimento. Disto, o argumento deduz que o movimento é um aspecto mais fundamental do que o próprio tempo, porque é fundamento dele. Assim, o argumento deduz que primeiro, na criação, veio o movimento, e depois é que o tempo surgiu, para medi-lo.
De fato, diz Tomás, o tempo tem uma relação mais geral com a criação do que o próprio movimento. De fato, o tempo relaciona-se com a totalidade da criação como uma dimensão dela, já que mede a sua historicidade mesma; o movimento, no entanto, é o deslocamento de alguma coisa capaz de mover-se, e portanto é sempre concreto, relacionado com algo singular, especificamente. Assim, o tempo tem precedência sobre o movimento, como o geral, universal, tem prioridade sobre o concreto. Hoje, com as descobertas da cosmologia, poderíamos dizer mesmo que tempo e movimento são indissociáveis, e que o universo teve início com um grande ato que, de um só evento, criou o tempo e o movimento.
Por fim, o quinto argumento afirma que, assim como o tempo, também as coordenadas geográficas, isto é, o lugar, representam uma medida externa dos eventos, na criação. Assim, conclui o argumento, não há sentido em imaginar que o tempo precede o lugar, na criação.
A resposta de Tomás, aqui, é bem interessante. Ele não nega a conclusão do argumento, ou seja, a precedência da ideia de lugar sobre a ideia de tempo. De fato, ele chega a afirmar que, uma vez que se acredita que os anjos e o próprio céu empíreo precedem a criação do universo material, podemos admitir que o lugar, em sentido amplo, de fato precede o tempo, já que os anjos, como criaturas que são, e o próprio céu empíreo, como lugar da glória, são externos a Deus, como criaturas; portanto, estão localizados, vale dizer, são externos a Deus. Portanto, de certa forma, têm lugar; mas não estão submetidos ao tempo. Neste sentido, a noção de lugar, expressando a ideia de que há algo que, por ser criatura, é outro com relação a Deus, de fato precede à noção de tempo. Mas o lugar, diz Tomás, tem uma configuração diferente daquela do tempo: o lugar apresenta-se como permanente e simultâneo: todos os lugares existem sempre e simultaneamente. Mas o tempo não é assim: ele inicia simultaneamente com a criação do universo material e tem a característica de existir somente como um momento, ou seja, ele existe somente como hoje, como agora; o passado já não existe e o futuro é apenas potencial. Daí podemos concluir duas coisas: o espaço é extenso e pode ser percorrido em todas as direções. O tempo é pontual e transcorre numa direção só; assim, a rigor, não podemos dizer que há algo antes do tempo, porque, sem o tempo, a própria ideia de “antes” fica prejudicada. Neste sentido, não haveria como defender que o lugar, como medida de referência espacial, existiu “antes” do tempo.
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