Vimos, então, que a criação, para Tomás, envolve o estabelecimento da matéria fundamental, o processo de organização das coisas em si, pela sua estruturação (ou o estabelecimento das “formas”), a criação do lugar da glória, ou seja, daquele estado de bem-aventurança que constitui a Igreja Triunfante, na qual estão os Santos Anjos e as almas dos falecidos que alcançaram a salvação e aguardam o juízo final, que os antigos teólogos chamavam de céu empíreo, e finalmente chegamos à espinhosa e tormentosa questão do tempo.

Para alguns dos paradigmas científicos considerados modernos, o tempo é uma dimensão uniforme e contínua, que de certa forma é extrínseco e se sobrepõe, de modo absoluto, a todas as coisas. É uma espécie de variável constante e eterna que passa sempre uniformemente e independentemente das coisas. Ele seria a medida da duração, pela qual medimos todas as outras coisas. Esta é a visão, por exemplo, de Newton, em suas leis físicas. A visão contemporânea, porém, mais recentemente, voltou a aproximar-se da que Tomás adota: o tempo é intrinsecamente ligado à mudança material, ao deslocamento das coisas corporais, e ele existe conjuntamente com estas coisas, sendo intrínseco a elas. Não é independente delas, nem é uma medida absoluta e externa. É mais uma dimensão da própria matéria, ao lado das dimensões espaciais.

A questão debatida, aqui, é simplesmente se ele teve um início. E se este início coincide com o próprio início da criação. Note-se que para Tomás, assim como para a cosmologia contemporânea, o início apresenta-se informe e, de certo modo, não-geográfico, isto é, o próprio espaço, o lugar da existência, organiza-se progressivamente, na criação. De certa forma, portanto, tanto para Tomás quanto para nossos cientistas mais atuais, o tempo precede o espaço, pelo menos em termos lógicos – desde o primeiro momento há uma medida temporal, mas a medida espacial estabelece-se paulatinamente. Para Tomás, o início é informe, e a obra dos seis dias é a progressiva organização da matéria. Para os cientistas mais atuais, o início é uma expansão súbita que cria o tempo e o próprio espaço; o tempo, desde o primeiro momento; e o espaço, progressivamente, com a expansão.

De acordo com o modelo cosmológico atual, o tempo, de fato, começou com o universo, assim como o espaço; mas o espaço inflacionou-se, de tal modo que tudo o que, no instante inicial, era não mais do que uma partícula sem dimensões transformou-se no universo incontavelmente grande que temos hoje. De um certo modo, podemos dizer que o tempo estava lá desde o princípio, mas os lugares, não.

Em todo caso, a hipótese controvertida, aqui, é a de que o tempo não surgiu simultaneamente com o próprio início informe do universo material. São cinco, aqui, os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que afirmou que há duas coisas que, segundo ele observa, não estão sujeitas ao tempo: a matéria-prima das coisas corporais e a natureza angélica. Ora, diz o argumento, se a matéria-prima é a matéria fundamental da criação, e se ela não está submetida ao tempo, e se a criação se inicia com a matéria informe, então o tempo não teve seu início simultaneamente com a criação, conclui.

O segundo argumento diz que é próprio do tempo a alternância em dia e noite. Ora, diz o argumento, no princípio da criação não havia dia e noite; somente no decorrer do primeiro dia da criação é que Deus separou o dia da noite, como se vê no relato bíblico, no capítulo 1, versículo 4 do Gênesis. Ora, se a alternância do dia e da noite somente teve início no decorrer do primeiro dia da criação, isto significa, diz o argumento, que o tempo não começou simultaneamente com o próprio surgir da matéria informe como primeiro fato da criação.

O terceiro argumento tem uma natureza mais cósmica. De fato, diz o argumento, o tempo é a medida do movimento dos corpos pelo universo, define ele. Ora, o próprio espaço sideral, que a Bíblia cama de “firmamento”, só foi criado, segundo este relato, no segundo dia da criação. Logo, conclui o argumento, o tempo não existe desde os primeiros eventos da criação.

O quarto argumento afirma que, uma vez que o tempo é definido como o movimento da matéria, é claro que o movimento teria que existir antes que o tempo, para que este exista. Assim, o argumento conclui que o tempo não existe desde o princípio, mas só existiu depois que houve algum tipo de movimento.

Por fim, o quinto argumento relembra a noção de que o tempo é uma medida extrínseca, isto é, não é uma característica intrínseca à própria realidade material. Assim como a ideia de lugar como coordenada de localização espacial: é uma medida extrínseca às coisas, também, e intimamente relacionada à medida do tempo. Assim, não há sentido, diz o argumento, em imaginar que o tempo precede a localização espacial, como critério de medida. Mas a localização espacial não existe desde o princípio, porque a matéria informe não se organiza espacialmente de um modo mensurável geograficamente. Não faz sentido, assim, imaginar que o tempo exista desde o início da criação, conclui o argumento.

Por fim, o argumento sed contra cita mais uma vez Santo Agostinho, que afirma cabalmente que as criaturas espirituais, isto é, os anjos, e as criaturas corporais, foram criadas no princípio do tempo. Ora, se os anjos foram o primeiro gesto de criação de Deus, isto significa que o tempo existe desde o princípio, conclui o argumento.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás e as suas respostas aos argumentos objetores iniciais.