Vimos, então, que, na sua curta apreciação pessoal, Tomás demonstra todo o respeito pelas especulações teológicas dos santos Padres, que ele tanto admira, mas brevemente reitera sua visão de que o lugar da glória, o céu em que estão os Santos Anjos e as almas dos bem-aventurados, não é exatamente geográfico, mas aquela dimensão em que a felicidade já é usufruída permanentemente, aquele corpo de santos que (ele não diz, mas podemos especular) coincide com a Igreja Triunfante no céu. Sem dúvida, trata-se de algo criado, mas não geograficamente localizável no nosso universo. Por outro lado, é um estado que precede a renovação geral da criação que, conforme Apocalipse 21, 1, ocorrerá no fim dos tempos.

Colocados, pois, estes princípios, Tomás passa a reexaminar os argumentos objetores iniciais, sempre com este tom conciliador e, ao mesmo tempo, muito ortodoxo.

O primeiro argumento lembra que, se o céu empírico é alguma coisa inserida no universo material, ele deve interagir com o restante do universo, deve estar na dinâmica da transformação histórica e ser empiricamente perceptível. Mas nunca houve nenhuma observação ou percepção de uma realidade assim no universo. Logo, não houve a criação de um “céu empíreo” simultaneamente com o universo material, conclui o argumento.

No nosso universo material, diz Tomás, a natureza dinâmica do fluxo da história determina que os seres corporais sejam essencialmente mutáveis, segam gerados e destruídos, estejam, portanto, ao alcance do exame empírico, e relacionem-se entre si causalmente, inclusive com o intercâmbio de matéria, que Tomás menciona como a “multiplicação dos elementos”. Na glória, o fim já está alcançado, e não há, portanto, mais nenhum dinamismo histórico nem causalidade recíproca com o universo material; trata-se de repousar no bem conquistado, que é o bem perfeito, a caridade plena e flamejante. Assim, é próprio do “estado de glória”, que os antigos chamavam de “céu empíreo”, não se dar ao exame empírico a partir daqui, porque já não há, ali, causalidade material recíproca com o nosso dinamismo histórico.

O segundo argumento parte da noção de “corpo”, aplicando-a ao chamado “céu empíreo”. No universo material, há a influência recíproca dos corpos, e os seres corporais superiores regem os inferiores, como se vê na harmonia universal, na gravitação, nas marés, na estrutura das galáxias e, mesmo entre os seres vivos, no domínio que os organismos superiores exercem sobre os inferiores. Ora, se o céu empíreo envolve a permanência humana, ele tem que ter algo de corpóreo, porque os humanos são corpóreos. Mas, se ele é algo de corpóreo, e é o lugar da glória, da bem-aventurança final, deve ser um corpo superior a tudo o que há de visível aqui, e portanto deve exercer algum domínio mensurável, algum dinamismo, sobre a nossa realidade inferior. Mas para que ele exercesse dinamismo, ele precisaria, antes de tudo, ser dinâmico, porque nada que é imóvel pode mover outra coisa. E o fato é que não há nenhuma influência mensurável deste tipo, em nossa realidade. Logo, conclui o argumento, um tal “céu empíreo” não foi criado simultaneamente com a matéria informe.

Este estado de felicidade final das almas santas e dos santos anjos é, em si mesmo, um estado permanente, imutável, pleno. De fato, não exerce, por si mesmo, nenhuma influência física sobre nosso universo, porque é de outra ordem. Não é geográfico, nem material, nem submetido à cronologia – embora envolva também a sucessão de eventos, como estudamos no Tratado dos Anjos. Assim, o universo material destina-se naturalmente a seus próprios fins, e não sofre influência de ordem empírica, direta, causal, dos seres que estão no estado final de glória que os antigos chamavam de “céu empíreo”. No entanto, como sabemos pela fé da Igreja, há uma comunhão dos santos, ou seja, um maravilhoso intercâmbio de santidade entre aqueles que estão na glória, vale dizer, já estão no céu, aqueles que padecem no purgatório e nós, ainda a caminho, aqui na Terra. Há, portanto, este maravilhoso comércio de coisas santas: rezamos por eles, eles intercedem por nós e, de modo similar àquele pelo qual os anjos mais elevados podem iluminar os menos elevados e estes podem influir sobre nós, também aqueles que, sendo santos, já chegaram à glória, podem interceder por nós e pelos que padecem no purgatório, e vice-versa. Neste sentido, a correlação entre a nossa realidade e o assim chamado “céu empíreo” não é da ordem das coisas empiricamente mensuráveis, mas daquelas que unem os filhos de Deus espiritualmente. Num só corpo, que é o corpo de Cristo que se chama Igreja, e que nos alimenta na Eucaristia. Mas estou indo muito adiante de Tomás aqui, peço perdão.

O terceiro argumento visa exatamente desconstruir esta ideia de que o “céu empíreo” seria uma realidade essencialmente espiritual. O argumento começa dizendo que há quem queira defender que o chamado “céu empíreo”, como realidade essencialmente destinada à contemplação de Deus, não estaria na ordem da causalidade material, porque a contemplação não envolve relação com a causalidade material. Mas, diz o argumento, sabemos que nós podemos elevar nossa mente à contemplação de Deus, sem que, com isto, deixemos de ser seres corpóreos e materiais. Portanto, pleitear uma realidade estritamente espiritual sob o fundamento da contemplação, diz o argumento, não faz sentido: nossa corporeidade não nos impede de contemplar, e, portanto, não é por estar relacionado à contemplação que existiria um espaço puramente espiritual que se pudesse chamar de “céu empíreo”. Assim, o argumento conclui que um lugar assim não foi criado simultaneamente com a realidade material.

Há uma corporeidade relacionada com a contemplação final de Deus, diz Tomás. Esta corporeidade poderia não existir, já que a contemplação pode envolver a pura espiritualidade, como vemos no caso dos anjos. Mas deus entendeu que era conveniente que nós, seres humanos, fôssemos envolvidos nesta corporeidade espiritual que é a glória final da bem-aventurança, na qual a luz externa, que é a própria glória de Deus, estará em perfeita sintonia com a luz espiritual dos santos. Mistérios da bem-aventurança final. Que, quase um milênio depois de Tomás de Aquino, o Papa São João Paulo II explorou sabiamente naquela série de catequeses que se denomina de “teologia do corpo”. Profunda relação, pois, entre isto que os antigos chamavam de “céu empíreo” e nós chamamos de corpo místico de Jesus triunfante na glória.

Por fim, o último argumento descreve o que eles entendiam, naquele tempo, que era a estrutura do universo (esferas concêntricas, das quais a central seria a esfera terrestre, e, sobre ela, o firmamento, as esferas relativas aos corpos celestes móveis, a esfera das estrelas fixas e uma esfera exterior plena de água). Ora, prossegue o argumento, se houvesse, acima destas, uma esfera de luz flamejante, ou seja, resplandescente da glória de Deus, esta luz invadiria as esferas inferiores, que são transparentes, e todo o universo viveria na luminosidade completa, sem que jamais houvesse a noite. Mas há a noite, diz o argumento. Logo, conclui, não há uma esfera luminosa que pudesse ser chamada de “céu empíreo”.

A resposta de Tomás vai resgatar uma explicação de São Basílio a respeito da escuridão de fundo que marca a noite. A explicação traz, é certo, a marca da ciência do seu tempo, e mostra o esforço dos teólogos para harmonizar os dados empíricos, da observação, com os dados teológicos. Neste sentido, continua sendo uma lição para nós (mas uma lição metodológica, não científica).

A resposta final de São Tomás, porém, é simples, direta e profundamente teológica, além de válida ainda pra nós. A luz da glória, na qual os santos são mergulhados quando entram no céu, é muito mais sutil do que a luz dos astros: é uma luz espiritual, que ilumina os espíritos e as inteligências, mas não a matéria e os órgãos dos sentidos. É a luz da glória, não é a luz física, natural.

Tomás escapa, assim, da armadilha de tentar encontrar um lugar geográfico para as almas santas e os santos anjos, na escatologia intermédia. Estaremos no corpo glorioso de Jesus, integrados e ele sem deixarmos de ser o que somos. Em suma, seremos a Igreja, no seu sentido mais puro: a Noiva, a Nova Jerusalém que desce do céu.

Isto deveria nos remeter, mais uma vez, ao Livro do Apocalipse, 21, 23, no qual se registra que a Jerusalém celeste, destino final da criação renovada, é uma cidade que “não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro”. Que resta dizer, senão “amém”?