É preciso lembrar, sempre, que o universo que Deus criou é este aqui. Não estamos aqui provisoriamente, à espera de morrer e passar para uma dimensão platônica definitiva, na qual viveremos num paraíso transcendente e perfeito. Mas por outro lado não se há de negar que a chamada “escatologia intermédia”, isto é, o fato de que as almas dos bem-aventurados contemplam desde já a glória de Deus, embora já não estejam entre nós, e ainda não tenham recebido a ressurreição corporal no juízo final. “A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência depois da morte de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o ‘eu humano’ subsista. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra ‘alma’, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição”, diz a “Carta sobre algumas questões respeitantes à escatologia”, de 07 de maio de 1979, da Congregação para a Doutrina da Fé. Esta existência espiritual, na glória, das almas dos mortos santos que aguardam a ressurreição corporal é, portanto, de fé católica, e traz similaridades com a existência dos Santos Anjos que acolheram a graça e foram salvos. Estão no estado de glória, que é invisível para nós mas é real. E este estado é criatural, porque a beatitude final, como sabemos, não implica uma “absorção em Deus”, mas a manutenção plena da individualidade criatural. Com tudo isto, podemos pensar num “céu” de natureza espiritual, não como um local geográfico, mas como um modo de ser. É isto que debatemos aqui.

No início de sua resposta sintetizadora,

Tomás, logo no início de sua resposta, identifica claramente que esta ideia de “céu empíreo”, ou de um lugar geograficamente determinado, no qual as almas e os santos anjos contemplam a Deus na glória, é ensinamento de Estrabão, São Beda e São Basílio. Estrabão, como sabemos, sequer era cristão, e viveu num período mais ou menos contemporâneo a Jesus, a quem nunca conheceu; assim, conheceu apenas o que chamamos de “antigo testamento”. São Beda e São Basílio são importantíssimos para o testemunho antigo da fé.

Estes três escritores pensam na existência de uma esfera, uma dimensão com localização física mesmo, na qual encontramos os Santos Anjos e as almas dos bem-aventurados que já morreram. Seria um lugar repleto da luz divina, ardente em caridade, que, portanto, mereceria ser chamado de “céu flamejante” ou “céu empíreo”.

Estes antigos escritores divergem, no entanto, sobre o fundamento bíblico para esta doutrina, diz Tomás. Estrabão e Beda imaginam que este “céu” está identificado com o próprio céu físico, o “firmamento dos céus” mencionado como “obra do segundo dia”, no versículo 8 do capítulo 1 do Gênesis.

São Basílio, no entanto, defende que este céu é mencionado logo no versículo 1 deste capítulo, quando se diz que “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Assim, Deus inaugura a criação com o estabelecimento deste lugar de luz. Tomás diz que Basílio teve a preocupação de reforçar a ideia de que o lugar da caridade, do amor e da bem-aventurança foi a primeira obra de Deus, de modo a negar a concepção maniqueísta que classificava o Deus do Antigo Testamento como um Deus das trevas, em oposição ao Deus de Jesus, que seria da luz. Basílio ressalta, pois, a prioridade da luz na criação. São Basílio, portanto, não confunde este “céu” de luz com o firmamento físico que recobre a Terra.

Nenhuma destas posições representa matéria de fé, diz Tomás. São especulações teológicas, que representam as posições destes estudiosos. Aliás, há outras posições teológicas, inclusive de Santo Agostinho e de outros Padres da Igreja, que apontam para outro tipo de pensamento. Agostinho, por exemplo, defendia que este relato do Gênesis traz uma narração que não é cronológica, mas hierárquica, no sentido lógico mesmo: aquilo que é fundamental, como a matéria´prima, vem antes daquilo que a determina, como a forma. Isto é, a existência de formas, que são a luz da inteligibilidade nas coisas, é logicamente posterior à existência da matéria que as faz existir no mundo concreto; e é disto, segundo Agostinho, que o Livro do Gênesis fala, quando narra a criação do “céu e da terra”, ou quando diz que o mundo era informe e ininteligível no início. Não se trata da criação de um lugar físico para as almas bem-aventuradas, para ele; apenas a descrição de que o fundamento concreto precede logicamente a inteligibilidade, na existência, e que a criação pode ser compreendida de um modo tal que pressuponha um processo desde a sua desorganização inicial até uma perfeição final, ou seja, o processo de criação pode envolver algum tipo de evolução, segundo Agostinho. Aquela doutrina do “céu empíreo”, defendida por Beda, Estrabão e Basílio, não é a única e pode não ser a melhor.

De fato, diz Tomás, podemos compreender melhor esta problemática se meditarmos sobre a própria questão da glória. De fato, diz Tomás, a glória tem duas dimensões; é, sem dúvida, um assunto espiritual, e a glória espiritual é algo que podemos esperar desde logo. Os anjos estão na glória espiritual, assim como as pessoas que faleceram na amizade com Deus, desde o momento do seu falecimento. Mas, após o juízo final, haverá uma glorificação corporal, em que a ressurreição dos corpos ocorrerá. Mas não somente a ressurreição corporal dos seres humanos coroará esta situação final. Haverá uma renovação completa da criação material, que o Livro do Apocalipse menciona como “novos céus e nova terra”, Apocalipse 21, 1.

Ora, diz Tomás, esta dimensão espiritual da glória está presente desde o princípio, primeiro com a bem-aventurança concedida aos anjos que escolheram Deus, e que foi prometida, desde o princípio, aos seres humanos que morrem em santidade. Ora, uma vez que os seres humanos são essencialmente corporais, seria muito conveniente que, mesmo mortos, ou seja, num estado de separação da matéria, eles fossem recebidos e integrados, na glória, a alguma dimensão corporal, mas imutável, permanente, totalmente transparente e luminosa, livre de toda mudança e transformação. E aqui São Tomás nos aponta, ainda que veladamente, para o mistério da identidade entre o corpo ressuscitado de Cristo e a Igreja, notadamente a Igreja triunfante. Este corpo eclesial triunfante, luminoso e definitivo, incorruptível e imutável, ardente de caridade, integra em si os santos que morrem na graça, para que gozem desde já a glória num corpo comum, o corpo da Igreja Triunfante, prelibando, de certa forma, aquele corpo glorioso, espiritual, que receberão no juízo final. Tomás recebe, pois, estas doutrinas, mas as purifica e as medita de modo maravilhoso, integrando no todo da criação a dimensão gloriosa do corpo místico da Igreja triunfante.

Tomás vai fazer um último comentário: na obra “Cidade de Deus”, Agostinho comenta a posição de Porfírio, para quem os anjos separam-se em demônios (que estão nos ares da nossa atmosfera ou nos infernos) e santos anjos (que estariam situados neste céu ígneo, flamejante, brilhante, que ele chama de “céu empíreo”), que se separaram geograficamente mesmo, em razão da diferença dos seus destinos. Mas isto decorreria do platonismo acentuado em Porfírio, que compreenderia a noção de “empíreo” como flamejante, ardente, e não como Aristóteles, que o entende, na obra “Do Céu”, como suave, desimpedido em sua dinâmica. Ora, esta observação de Agostinho evidencia que a sua compreensão do “céu empíreo” era muito mais rica, muito mais profunda do que entendem os escritores posteriores a ele. Tomás respeita muito Agostinho, mas tem a intuição de que a simplificação do pensamento de Agostinho pode levar a um reducionismo, a uma compreensão errônea daquilo que não pode ser simplificado. Em suma, Tomás está ciente de que o cristianismo não pode ser reduzido a um platonismo, a uma ideia de que há uma esfera “aqui de baixo” que é ruim e pecaminosa, e uma esfera totalmente transcendente que seria boa, perfeita e acolhedora para os “puros”. A criação é essencialmente boa, e é nela que vivemos desde já, e é nela que viveremos para sempre.

No próximo texto veremos a maneira pela qual Tomás enfrenta as objeções iniciais.