Não estamos acostumados a pensar no lugar da glória, lá onde estão os santos anjos e os falecidos que chegaram à salvação, como uma dimensão da obra da criação, vale dizer, como algo criado. Imaginamos sempre a glória dos anjos mais como um estado, uma interpenetração com Deus, do qual eles podem gozar a bondade infinita. Ocorre que, de acordo com a fé cristã reta, as criaturas espirituais, mesmo quando atingem a glória, não se dissolvem na divindade, como creem certas culturas orientais. Permanecem com sua natureza criatural, mas, diferentemente dos que estão aqui, podem gozar da glória de Deus sem perder sua individualidade. Trata-se, pois, de uma dimensão diferente, repleta do fogo do amor de Deus, mas, ainda assim, uma dimensão criada.

É o que se quer discutir neste artigo. Importantíssimo, porque não estamos acostumados a pensar nisto como uma dimensão da criação e, portanto, algo relacionado à nossa natureza, em comunhão conosco, como parece indicar o Credo da Igreja, quando trata da “comunhão dos santos”. De certa forma, já vivemos um pouco desta dimensão quando experimentamos, por exemplo, a graça dos sacramentos e o gostinho do seu efeito santificador. Mas o certo é que não se trata de uma extensão geográfica do nosso universo, como alguns acreditavam – e ainda acreditam. De fato, recentemente, alguém mencionou que há pessoas calculando em que ponto do espaço sideral encontra-se Jesus, agora, depois de sua “ascensão aos céus”; como se esta ascensão fosse similar à de um foguete em viagem à lua. Não é, pois, desnecessário nem menos importante debater este assunto na Suma. Não era no tempo de Tomás, como não é hoje.

No entanto, não se pode negar o risco de pensar na dimensão da glória dos santos como um “lugar” físico na criação, quase à moda da “geografia” da divina Comédia de Dante. Neste artigo, parece que a posição de Tomás vai neste sentido, e ele, ainda que laconicamente, coloca a glória dos santos muito mais como um estado espiritual do que como um lugar geográfico Mas não deixará de respeitar a tradição, que encontrou, de pensar no “céu empíreo” como uma dimensão da criação também. E de certo modo ele é.

A questão, aqui, é que a única menção a isto, no primeiro relato da criação, é o primeiro versículo do capítulo 1, em que se diz que “No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Com isto, pode-se imaginar que, antes de criar esta realidade material, o céu foi criado, para a glória dos santos. A discussão, aqui, envolve a noção de antes e depois, que envolve, também, a necessidade de estabelecer uma hierarquia entre estas realidades. Por fim, não se pode deixar de verificar, aqui, uma certa influência platônica, no sentido de estabelecer mais importância à transcendência imaterial do que à realidade material, terrena. Portanto, a tendência a defender que, antes de criar as realidades materiais, talvez inferiores numa visão platonizante, Deus teria criado o céu da glória. Há, aqui, portanto, duas questões: este céu ígneo, glorioso, ou “empíreo”, como chamavam os antigos, é cronologicamente anterior e geograficamente superior à criação material? Em que sentido podemos falar de “tempo” e “lugar”, referindo-se a uma realidade assim?

A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que este “céu empíreo” não foi criado simultaneamente com a matéria fundamental, inicialmente informe, do universo corporal, mas o precedeu. São quatro, aqui, os argumentos objetores.

O primeiro argumento diz que, se este “céu empíreo” é parte da criação, e surgiu com a matéria informe, ele deveria ser mensurável, ou seja, ser de algum modo evidente para nós empiricamente, e capaz de relacionar-se e influir no restante da criação, modificado-a e sendo modificado. Mas nada deste tipo foi jamais observado, que pudesse ser classificado como um lugar de localização de anjos e almas de santos. Assim, conclui o argumento, não houve a criação de algum “céu empíreo” ou “paraíso espiritual” junto com a matéria informe.

No mesmo sentido vai o segundo argumento. Na ordem do universo, diz o argumento, os corpos superiores influem nos inferiores, e estes são regidos por aqueles, diz Agostinho. Mas, se houvesse alguma realidade criada que fosse suprema, lugar de glória dos seres santos, ela necessariamente regeria as esferas inferiores da criação. Mas para isto, ela precisaria ter alguma dinâmica, ser mutável, porque, para influir na dinâmica histórica das esferas materiais da criação, seria necessário que esta esfera também fosse mutável, isto é, também estivesse inserida na dinâmica das transformações históricas. Mas ela não seria um “céu”, isto é, um lugar paradisíaco destinado à glória dos santos, se ela ainda estivesse inserida na dinâmica das transformações históricas. Assim, não houve um “céu empíreo” criado junto com a matéria informe.

O terceiro argumento objetor prossegue, dizendo que, mesmo que imaginássemos que o céu empíreo seria uma dimensão puramente espiritual, destinada à contemplação e não à ação, ou seja, um lugar sem relação de causa e efeito com a realidade mundana. Isto contradiria o próprio Agostinho que, a respeito da contemplação, diz: “quando contemplamos as coisas eternas com a nossa mente, não estamos espiritualmente neste mundo”. Fica claro, pois, diz o argumento, que a contemplação não é algo de material, e portanto não seria razoável imaginar que pudesse existir um lugar criado simultaneamente com a matéria informe, no qual estivessem localizados os espíritos dos santos e dos mortos que alcançaram a glória, conclui o argumento.

Por fim, o quarto argumento parte da estrutura do espaço, tal como eles o concebiam naquele tempo. Acima da terra, diz o argumento, há o espaço sideral, em que há a escuridão e a luz. Em seguida, há, como se acreditava, uma esfera cristalina que é totalmente transparente, e que encerra em si a Terra e o espaço sideral. Se, acima destas esferas, houvesse um céu de glória, um paraíso de luz, como uma dimensão localizável no espaço, então este lugar seria plenamente luminoso, e tudo seria eternamente dia, em nosso mundo, o tempo todo. Assim, conclui o argumento, não há um céu da glória criado simultaneamente com a matéria informe que originou nosso universo.

O argumento sed contra cita Estrabão, que, comentando o Livro do Gênesis, diz que, quando se fala que “No princípio Deus criou o céu e a terra”, a referência não é ao céu visível, no qual voam os pássaros, mas ao céu empíreo, quer dizer, ao lugar de luz puríssima.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.