Como vimos no último texto Tomás conclui, muito corretamente, que, se existem coisas corporais perenes e não destrutíveis, elas têm que ser compostas por algum tipo de matéria fundamental diferente da matéria fundamental daquelas coisas destrutíveis. No entanto, como vimos também, a ciência, hoje em dia, estabeleceu, com um alto grau de certeza, que não há coisas materiais perenes e indestrutíveis no universo. Tudo que é material, portanto, tem a mesma matéria fundamental. Mas a conclusão de Tomás permanece logicamente válida, embora inaplicável na prática. Talvez, se ele não estivesse tentando harmonizar os dados científicos do seu tempo com os princípios da sua filosofia, nem fosse necessário pleitear uma solução destas; a realidade mostrou-se mais simples, mais uniforme e mais adequada aos princípios básicos da filosofia hilemorfista de raiz aristotélica.
Colocados, pois, os fundamentos da resposta, Tomás passará a avaliar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento lembra a passagem em que Agostinho, nas Confissões, afirma que Deus fez duas coisas, uma informe, outra formada”, e interpreta esta passagem como uma confirmação de que a matéria fundamental é uma só.
São Tomás responde simplesmente que Agostinho segue, aqui, a influência de Platão, que considera a matéria fundamental como homogênea e limitada à estrutura dos quatro elementos fundamentais, ar, terra, água e fogo. Platão não mencionou a possibilidade de um quinto elemento relacionado com as coisas corporais indestrutíveis, mesmo porque, podemos aduzir para além do mestre Tomás, pleiteando a existência de um “mundo das formas” imaterial e perene, e do nosso mundo material como apenas um reflexo imperfeito daquele na matéria, dificilmente ele admitiria a existência de algo que fosse, a um só tempo, material e imperecível.
Por outro lado, prossegue Tomás, podemos imaginar que há a possibilidade de agrupar toda a matéria fundamental, seja a que compõe os corpos sublunares, seja a que compõe os corpos siderais, no mesmo gênero de “matéria fundamental”, embora Tomás acredite que elas sejam de diferentes espécies. Sabemos hoje que há, mesmo, homogeneidade de matéria fundamental, mas não pelas mesmas razões que Platão acreditava.
O segundo argumento objetor cita Aristóteles, quando afirma que as coisas do mesmo gênero têm, em sua composição, a mesma matéria fundamental. Ora, diz o argumento, as coisas materiais estão no gênero das coisas corporais; logo, a matéria-prima, que é a matéria no seu nível mais fundamental, é uma só para todas as coisas materiais, conclui.
Tomás vai insistir, aqui, que, de fato, todas as coisas materiais estão sob o mesmo gênero lógico, mas a circunstância de que algumas são incorruptíveis teria que determinar a existência de um tipo de matéria-prima específica para elas. Mais uma vez, o raciocínio de Tomás está corretíssimo, e ele simplesmente tenta harmonizar a ideia de que os corpos celestes são incorruptíveis, como acreditava a ciência do seu tempo. Se elas não existem, como demonstra a nossa ciência, vale a primeira parte da resposta: a matéria-prima é a mesma para tudo o que está sob o gênero de “coisas corporais”.
O terceiro argumento traz a ideia de que atos diversos supõem potências diversas (por exemplo, se vemos árvores de diferentes espécies, sabemos que elas nasceram de sementes diferentes). Mas o mesmo ato supõe a mesma potência (ou seja, se vemos uma plantação de milho, sabemos que todas as plantas nasceram igualmente de sementes de milho). Mas todas as coisas materiais têm a mesma forma básica, que aponta para o mesmo ato, que é a corporeidade. Assim, todos têm que compartilhar a mesma potência, ou seja, a mesma matéria fundamental que lhes compõe o corpo.
Tomás fará uma ressalva importante: não existe uma “forma corporal”, que fosse pressuposta pela forma substancial das coisas, como se alguma coisa primeiro fosse corporal para depois ser pedra, planta ou animal. Ao contrário, as coisas são pedras, plantas, animais e, por causa disto, são corporais. Assim, diz ele, a forma substancial que determina a própria corporeidade não é a mesma em todas as coisas corporais. Por isto, conclui Tomás, algumas formas substanciais (segundo ele conhecia pela ciência do seu tempo) determinam corporeidades indestrutíveis, e por isto não podem implicar o mesmo tipo de matéria fundamental que aquelas formas dos corpos destrutíveis. Mais uma vez, a resposta é correta do ponto de vista lógico; se as formas determinam corpos com características diversas entre si, não necessariamente pressupõem a mesma matéria fundamental. Portanto, Tomás conclui que a existência de coisas perecíveis ao lado de coisas absolutamente imperecíveis faz deduzir a existência de mais de um tipo de matéria fundamental. Mais uma vez, aqui, o dado científico mudou, e não é necessário imaginar este outro tipo de matéria, frente ao fato de que não há coisas corporais imperecíveis.
O quarto argumento objetor resgata a noção de que a matéria-prima é pura potência, sem nenhum tipo de informação, de especificação. Assim, não haveria maneira de haver dois tipos diferentes de matéria-prima, porque a distinção entre elas teria que dar-se por algum elemento formal, que, por definição, a matéria-prima não tem. Assim, o argumento conclui que a matéria fundamental é a mesma para todas as coisas materiais.
Mais uma vez, aqui, vemos Tomás responder em razão do respeito à ciência do seu tempo e à posição de Aristóteles. Ele vai argumentar que as potências não se diferenciam por algum elemento formal que lhes seja intrínseco, mas por apontarem para atos diferentes. Assim, se há uma matéria-prima que aponta para a formação de corpos perecíveis, e outra que jamais comporá corpos perecíveis, elas podem ser distintas entre si, mesmo sem possuírem, em sua composição mesma, nenhum elemento atual que as diferencie.
Mais uma vez, a ciência moderna veio demonstrar que esta diferença, embora logicamente seja perfeitamente consistente, na prática não existe. Há apenas uma matéria-prima, que é matéria fundamental de todas as criaturas corporais, terrestres e celestes, porque todas estão, igualmente, sujeitas à geração e à destruição. Se Tomás fosse vivo hoje, veria que a realidade provou-se mais afinada com a teoria hilemorfista do que a ciência do seu tempo (e do tempo de Aristóteles).
Deixe um comentário