No texto anterior, vimos como a questão da observação dos corpos terrestres e celestes levou os antigos a constatações que eles precisavam explicar; o comportamento deles não parecia homogêneo, e tampouco parecia haver interação material entre estas duas esferas. Platão recorreu à vontade dos deuses para explicar esta diversidade, enquanto Aristóteles deu uma resposta que satisfazia aos parâmetros de explicação científica, com os dados que tinha à mão. Respondeu simplesmente que as observações dos corpos celestes não poderia levar à conclusão de que eles fossem compostos com a mesma matéria fundamental que compunha os corpos terrestres, já que não estavam sujeitos a tendências opostas no movimento (ir e vir), mas tinham um movimento uniforme e estável sempre no mesmo sentido; tampouco estavam sujeitos à destruição e à formação, pelo que Aristóteles teve que concluir que sua matéria fundamental tinha uma natureza diferente, capaz de ser conduzida à perfeição da forma de uma vez por todas e permanecer estável nela, ou seja, os corpos celestes não estavam sujeitos à degradação característica das coisas corporais terrestres. Ele estava errado, como demonstraram as observações feitas muitos séculos depois. Mas não se pode negar que sua explicação é mais adequada à natureza da filosofia e da ciência do que a de Platão. E Tomás, dispondo apenas dos dados científicos de sua era, adota a explicação de Aristóteles como a mais adequada.

Tomás passa a examinar, agora, a explicação de Avicebrão. Avicebrão defendia que todas as coisas corporais possuiriam, em sua estrutura, um primeiro nível de organização, que decorria do fato mesmo de serem corporais. Depois, um segundo nível de organização daria às coisas as características que as distinguem, tornando, por exemplo, uma pedra diferente de um gato, embora ambos pudessem ser unidos no conjunto das coisas corpóreas. Assim, a mesma matéria fundamental entraria na composição de todos os corpos, que se distinguiriam por características posteriores. Por isto, não encontraríamos na natureza, segundo este filósofo, a matéria-prima em seu estado plenamente potencial, ou seja, em estado puro. Ela receberia sempre uma primeira forma fundamental de corpo, e em seguida receberia as formas superiores das próprias coisas.

Tomás não pode aceitar esta teoria, porque assim a verdadeira forma substancial das coisas teria que ser esta forma genérica de corpo, perene e indestrutível, enquanto todas as formas que as coisas apresentam naturalmente seriam apenas acidentais. Esta posição representa, diz Tomás, um retorno à filosofia antiga, na qual os pensadores imaginavam que algum tipo de elemento atual seria o fundamento de todas as coisas que existem, divergindo apenas se era a água, o fogo, a terra ou o ar. Por outro lado, Tomás lembra que a experiência que temos do processo de degradação e geração das coisas não envolve a redução de tudo a algum tipo de corporeidade genérica, antes de que uma outra coisa material seja gerada. Se Avicebrão estivesse certo, diz Tomás, esta “corporeidade básica” seria eterna e incorruptível, e seria o verdadeiro fundamento do universo. Algo como a tal “partícula fundamental” que a física dos nossos dias vem procurando.

Mas exatamente a ausência deste aspecto, ou seja, a ausência de alguma “forma fundamental eterna e permanente” que permanecesse na matéria durante o processo de destruição de uma coisa corporal e geração de outra, impede Tomás de aceitar a explicação de Avicebrão. A experiência que Tomás tem, segundo a ciência que vigora em seu tempo, é a de que a destruição de uma coisa corpórea para a geração de outra (como a digestão de algum alimento, por exemplo) não envolve a passagem por algum estado corporal genérico, mas a total eliminação da primeira forma e a aquisição da nova forma. A coisa digerida destrói-se completamente e gera o corpo daquele que se alimenta. Assim, não há uma “forma genérica” atual, mas ser corpo é parte da estrutura das formas específicas de todas as coisas que existem. A corporeidade não é separável da própria forma substancial das coisas, portanto.

Com isto, diz Tomás, temos que admitir que a matéria-prima guarda em si a potencialidade de assumir a corporeidade de qualquer ser que seja composto por ela, mesmo quando ela está, no momento, integrada ao corpo de alguma coisa específica. Mas, se é assim, diz Tomás, é próprio da matéria fundamental das coisas destrutíveis conter em potência, em si, todas as coisas destrutíveis, mesmo quando está em ato para alguma delas. Porque é a mesma matéria fundamental que compõe todos os corpos destrutíveis, diz Tomás; logo, ela não pode ter a característica de ser incorporada num corpo imperecível e deixar de ter a potencialidade para compor outro corpo. Se isto acontecesse, ela não seria mais matéria fundamental universal, mas apenas substrato material permanente e definitivo de uma, e só uma, coisa imperecível. Logo, conclui Tomás, se o universo é formado de coisas materiais perecíveis, por um lado, e coisas materiais imperecíveis, por outro, então a matéria fundamental que compõe umas não pode ser a mesma que compõe as outras.

Para tentar entender melhor o raciocínio de Tomás, vamos visualizar um exemplo: pensemos num diamante. Ele é fundamentalmente formado de carbono. E é muito difícil de destruir, sendo, mesmo, capaz de resistir milhões de anos na natureza. Mas o carbono que forma o diamante também forma o carvão com que nós fazemos nossos churrascos. Enquanto o carbono está no diamante, ele não é carvão. Mas sempre há a possibilidade de que um ser humano venha a destruir o diamante, através de algum processo industrial, de forma a liberar aquelas moléculas de carbono na atmosfera, o que resulta na absorção delas por alguma árvore que, cortada, venha a virar carvão. A própria possibilidade de que a molécula de carbono seja diamante ou carvão em algum momento de sua existência nos leva a concluir que os diamantes não são indestrutíveis, mesmo sendo muito resistentes.

Mas imaginemos que houvesse uma molécula que só fosse capaz de ser diamante e nada mais. A sua existência mesma somente se desse como diamante, e não houvesse a possibilidade de transformá-la em qualquer outra coisa. Neste caso, esta coisa seria indestrutível e eterna, pelo simples fato de que ela jamais poderia deixar de ser o que é para ser outra coisa.

Ora, exatamente por causa disto é que Tomás não pode aceitar a ideia de Avicebrão; ele realmente tem em mãos dados empíricos que o levam a acreditar que existem coisas materiais incorruptíveis. Portano, a falha de Tomás não foi quanto ao seu raciocínio, que é logicamente impecável, mas quanto a um simples dado empírico, a corruptibilidade universal dos corpos, sejam sublunares, sejam supralunares, que a ciência do seu tempo não conseguiu obter. Mais tarde, com as observações telescópicas, esta informação chegaria e levaria à conclusão contrária, sem invalidar de modo algum o raciocínio lógico de Tomás.

Mas ele avaliará, ainda, a posição de Averrois quanto ao mesmo assunto. Averrois imagina os corpos celestes como eternos em seu ser, mas não em sua posição; assim, ele pleiteia que estes corpos são algum tipo de matéria celeste informe e eterna em si mesma, que na verdade é abarcada e empurrada por algum tipo de ser puramente espiritual, que assume esta matéria sem tornar-se um com ela, mas apenas incorporando-a para empurrá-la uniformemente pelo espaço, para sempre. O céu, o espaço sideral, seria, assim, um enorme campo de trânsito para anjos empurrando matéria.

Tudo aquilo que é material, que é perceptível pelos sentidos, ensina Tomás, é composto, em sua unidade, de matéria e forma. Assim, imaginar um ser cuja matéria subsista de modo independente à sua forma e vice-versa seria absurdo, diz Tomás. Se há um ser puramente formal que empurra uma matéria que não é seu corpo, então este ser não é corporal, seria completo como ente espiritual e não seria percebido pelos sentidos. Por outro lado, se os corpos que vemos no céu não têm, em sua estrutura existencial, nenhuma forma substancial, então eles são pura potência, e, como sabemos, a potência pura não pode existir, porque, sendo pura potência, não pode estar simultaneamente em ato. E se está de algum modo em ato, então tem alguma forma própria que não é a do ser espiritual que, teoricamente, o empurra. Esta teoria de Averrois, portanto, não se sustenta, diz Tomás, porque pleiteia duas coisas para explicar uma só, e no fim não explica nenhuma das duas.

Portanto, conclui Tomás, se existir um corpo absolutamente incorruptível, teríamos que admitir que ele é formado de alguma matéria que só tenha a capacidade de compor aquele corpo e mais nenhum, de tal modo que, formados, restassem indestrutíveis. E, uma vez que eles se movem espacialmente, diz Tomás, esta matéria teria que ter apenas o potencial para o deslocamento local, mas não para a transformação em outra coisa. Como matéria, ela tornaria as coisas celestes perceptíveis aos nossos sentidos. Como matéria celeste, ela formaria os corpos celestes de uma vez para sempre e não teria a capacidade de se transformar em mais nada.

O raciocínio de Tomás, com base em Aristóteles, era perfeito para explicar os dados empíricos que tinham. Ocorre que os dados que tinham estavam errados. O universo é todo constituído de coisas destrutíveis e que estão em relação de geração e destruição para com todas as outras coisas. Não precisamos, pois, pleitear algum tipo de matéria fundamental diversa para seres materiais indestrutíveis, não porque la não seja logicamente imaginável, mas porque tais seres não existem. O que, aliás, é muito mais compatível com a teoria aristotélica do que esta suposta matéria celeste, que seria matéria apenas num sentido analógico com relação às coisas terrestres.

No próximo texto examinaremos finalmente as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.