Colocados os termos do debate, que, como registramos, é um dos poucos em que Tomás se deixa levar por Aristóteles e aceita uma conclusão que a ciência moderna veio a desmentir, vamos estudar agora a resposta sintetizadora dele. Não sem antes registrar que, como vemos, a Suma cobre assuntos que vão da teologia, ciência bíblica, angelologia e filosofia, até a antropologia, a astronomia e a física, incluído o estudo das partículas e dos astros como vemos neste Tratado. A formação teológica de um sacerdote, na época de Tomás, era realmente prodigiosa em sua amplitude.
Voltemos à resposta sintetizadora.
Tomás resgata a posição de Platão e dos filósofos anteriores a Aristóteles de forma geral.
Para eles, diz Tomás, todos as coisas corporais do universo, quer terrenas, quer supralunares, participariam da natureza dos quatro elementos, a saber, terra, água, ar e fogo. Assim, todas as coisas corporais efetivamente existentes em nosso universo seriam formadas com a mesma matéria-prima, o que marcaria uma homogeneidade entre suas naturezas, de tal modo que a matéria fundamental que hoje forma uma estrela, amanhã pode compor um corpo de animal e assim por diante.
Mas estes filósofos e observadores da natureza tinham um problema que a física do seu tempo ainda não era capaz de resolver: os corpos celestes, ou seja, astros e estrelas, não pareciam ter a mesma natureza dos corpos terrestres. De fato, observava-se que tinham trajetórias muito estáveis, regulares, além de não parecerem sujeitos à degradação e destruição, nem à alteração e supressão de suas trajetórias. Além disso, não pareciam impulsionados por nada em seus movimentos. E não pareciam relacionar-se com as coisas terrenas, salvo por influências bem observáveis sobre o clima, as marés e as colheitas, o que lhes dava uma dimensão poderosa.
Quando interpelado por estas coisas, Platão simplesmente respondeu, na obra “Timeu”, que estes corpos eram homogêneos com os corpos terrestres, mas que a vontade do Artífice, o deus que os fizera, deu-lhes estas características. Uma resposta, portanto, nada filosófica, mas muito teológica. Segundo Platão, era como se deus tivesse dito aos corpos celestes: “vocês são destrutíveis por natureza, mas eu os faço indestrutíveis por um ato da minha vontade, que é mais poderosa do que a estrutura de vocês”.
Esta explicação pareceu muito pouco adequada a Aristóteles. De fato, explicar algo simplesmente remetendo-a a uma ordem divina não era exatamente uma explicação filosófica. Assim, Aristóteles procura uma resposta pela explicação racional dos dados que coleta com as suas observações.
Quando observamos os corpos celestes, diz Aristóteles, notamos que eles se movem de uma maneira muito diferente daquela maneira de mover-se própria dos corpos terrestres, principalmente quanto aos quatro elementos tipicamente terrestres, a saber, a terra, a água, o fogo e o ar. As coisas que são, portanto, da natureza dos elementos terrestres comportam-se de uma maneira distinta daquelas coisas que são celestes, deduz Tomás; assim, temos que concluir, diz ele, que os corpos celestes não são compostos destes elementos, porque não se comportam como os corpos que o são. Nos corpos celestes, diz Aristóteles, registram-se movimentos uniformes, regulares, sempre no mesmo sentido e sem oposição ou variação. Nos corpos terrestres, por outro lado, vemos que ora movem-se para cima, ora para baixo, ora em movimento uniforme, ora em movimento variado. Este jogo de contrários não se apresenta à observação nos corpos celestes, diz Tomás. Ora, conclui ele, ser gerado e ser destruído também é um jogo de contrários. Assim, se os corpos celestes não estão sujeitos à dinâmica dos contrários em seus movimentos, eles tampouco estão sujeitos à dinâmica do surgimento e da destruição, conclui Aristóteles. Daí, conclui ele, teríamos que deduzir que a matéria fundamental dos corpos terrestres é de tal modo que sujeita as coisas que compõe ao jogo dos contrários. Mas a matéria fundamental dos corpos celestes não os submete ao jogo dos contrários: uma vez que o corpo celeste é formado, ele permanece para sempre com aquela estrutura, alcançando sua perfeição eterna. Assim, Aristóteles defende que a matéria fundamental dos corpos terrestres não é a mesma daquela dos corpos celestes.
Não se pode negar que a resposta de Aristóteles segue uma metodologia melhor do que a resposta de Platão: não recorre a uma arbitrariedade de uma suposta onipotência divina, mas tenta dar a razão para fatos observados a partir das características dos próprios fatos. Esta explicação não poderia, pois, deixar de atrair Tomás. É certo que para nós ela parece, hoje, evidentemente falsa; mas o fato de que observações melhores, mais acuradas, feitas posteriormente, puderam falseá-la demonstra que a sua natureza é de uma tentativa de explicação com razoabilidade. Respeitabilíssima e muito mais filosófica do que as tentativas anteriores.
No próximo texto veremos, com Tomás, as tentativas de explicação trazidas pelos filósofos muçulmanos Avicebrão e Averrois, que Tomás refutará ainda com base no paradigma aristotélico.
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