Este artigo é bastante interessante, e ao mesmo tempo difícil de trabalhar. Trata-se de saber se a matéria-prima que constitui todas as coisas, aqui na terra, é a mesma matéria-prima que constitui as coisas celestes. Sabemos que este ponto foi um dos pontos que causou a derrocada do pensamento aristotélico como um todo, porque provou-se errôneo: de fato, com o advento do telescópio, a teoria de que os objetos celestes eram corpos perfeitos, incorruptíveis, ruiu, primeiro pela observação de crateras e montanhas lunares, depois pela observação de fenômenos como explosões estelares e coisas similares. Assim, a ideia, desenvolvida por Aristóteles e assumida por Tomás, de que os corpos celestes eram formados de algum tipo de matéria fundamental diversa da matéria-prima que forma as coisas terrestres ruiu. Hoje, temos clareza da homogeneidade da composição fundamental de toda a criação.

O problema, pois, encontra-se superado pela observação da moderna física. Mas a superação da física aristotélica levou, em muitos casos, à superação de sua visão metafísica, política e moral. E aí temos um problema, porque, nestes campos, o pensamento de Aristóteles mantém-se como um referencial rico e, em certos aspectos, mais avançado do que os modelos contemporâneos. A redescoberta da ética das virtudes, a redescoberta dos princípios políticos aristotélicos e tomistas pela doutrina social da Igreja, tudo isto parece demonstrar que o abandono deste paradigma, sem distinguir nele o que era ultrapassado e o que é ainda relevante, trouxe-nos grande prejuízo intelectual.

Em todo caso, vemos, neste artigo, algo a que todos os estudiosos, de todos os tempos, estão arriscados a sofrer, quando tentam fazer uma síntese a partir dos dados científicos e filosóficos que dispõem: o risco de verem seus dados superados por observações futuras mais exatas. Neste ponto, Tomás continua sendo um grande mestre: é extraordinária a sua intuição para distinguir o que é definitivo do que é apenas uma interpretação limitada, e neste artigo (assim como na Suma toda, mas especialmente neste chamado “Tratado dos seis Dias”) Tomás é capaz de intuir e abrir-se para uma solução diversa da que ele propõe. Aqui devemos, também, tomá-lo como mestre, até no erro.

Enfim, no presente artigo, a hipótese controvertida é a de que o universo é uniformemente composto pelo mesmo tipo de matéria-prima, quer nas coisas terrestres, quer nos chamados “corpos supralunares”, ou seja, nos astros e corpos celestes. Esta hipótese controvertida, como sabemos hoje, veio a confirmar-se num sentido diferente daquele que Tomás adotou neste artigo, e hoje a física sabe que, de fato, a composição material básica do universo é uniforme, quer aqui, quer em qualquer ponto do universo. Mas sigamos Tomás, respeitando seu raciocínio através deste artigo. Aqui, para ele, esta é apenas uma hipótese controvertida, nada mais.

São quatro os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida.

O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que nas suas Confissões, diz, dirigindo-se a Deus: “vejo que foram de dois tipos as coisas que fizestes: aquelas formadas e aquelas informes”. Ora, quanto às coisas informes, ele se refere a elas como “a terra indiscernível e informe” que compõe todas as coisas materiais. Assim, o argumento conclui, seguindo Agostinho, que há apenas uma matéria básica que é substrato para todas as coisas materiais, sejam elas terrestres ou supralunares.

O segundo argumento cita Aristóteles, que no quinto livro da Metafísica afirma que as coisas que pertencem ao mesmo gênero são de um só tipo de matéria. Ora, todas as coisas materiais pertencem a um só gênero, diz o argumento: o gênero das coisas corporais. Portanto, conclui o argumento, elas possuem o mesmo tipo de matéria fundamental.

O terceiro argumento lembra que cada perfeição diferente, isto é, cada tipo de perfeição que as coisas ostentam, é chamada de “ato”, por ser efetiva, atual. Ora, cada ato pressupõe sua própria potência, ou seja, o mesmo ato pressupõe a mesma potência, e atos diversos pressupõem potências diversas. Por exemplo, uma semente de feijão sempre está em potência para ser um pé de feijão atual, mas sementes de milho tornar-se-ão pés de milho, e não pés de feijão. Ora, prossegue o argumento, as coisas materiais são corpos, ou seja, elas são coisas corporais atuais. E a potência para ser corporal encontra-se na matéria. Portanto, se todos as coisas corporais têm a mesma atualidade, isto é, são corpos atuais, então necessariamente terão a mesma potência, isto é, a matéria. O argumento conclui, portanto, que as coisas corporais têm todas a mesma matéria fundamental.

O quarto argumento lembra que a matéria-prima, que é a matéria fundamental dos corpos, não tem nenhuma espécie de atualidade em si, ou seja, ela é pura potência. Ora, o que distingue uma coisa de outra é a sua atualidade, não sua potência. Pensemos num depósito de blocos de mármore, vindos da mesma pedreira, por exemplo. Eles todos estão depositados ali, para serem esculpidos por alguém. Enquanto não viram estátuas, são apenas estátuas potenciais, vale dizer, podem vir a ser estátuas. Então são indistintos uns dos outros, apenas grandes pedaços de pedra. Depois que o escultor trabalha nelas, uma vira a estátua de Napoleão, outra a de Luís XIV, e assim por diante. A partir do momento em que são atualizadas, ou seja, recebem as formas das pessoas que retratam, elas passam a ser diferentes entre si. É neste sentido que o argumento diz que a matéria potencial não se distingue, apenas a forma pode distinguir a matéria. Assim, completa o raciocínio, a matéria-prima pura, sendo estritamente potencial, não tem como distinguir-se Logo, há apenas um tipo de matéria-prima, e não dois tipos (um para as coisas terrestres e outro para as celestes), é o que conclui o argumento.

Por fim, o argumento sed contra alega que os seres que são formados com a mesma matéria fundamental são capazes de transformar-se uns nos outros, influenciam-se e relacionam-se mutuamente. Mas não há, segundo Aristóteles, esta relação recíproca entre as coisas terrestres e as celestes: as coisas celestes não se degradam de modo a dar origem a coisas terrestres, e nem o contrário ocorre, segundo o Filósofo. Disto o argumento conclui que há uma matéria fundamental própria das coisas terrestres e outra para as celestes.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.