O primeiro argumento objetor lembra que o relato de criação do Gênesis (1, 2) testifica que a Terra era “informe e vazia” ao ser criada. Assim, o argumento conclui que houve um tempo, no início da criação, em que a matéria sem forma precedeu a formação específica das coisas.
Tomás, em sua resposta, tem o cuidado de recolher a pluralidade de tradições interpretativas que recebe, e que partiram de diferentes visões teológicas e filosóficas.
A primeira posição que ele registra é a de Santo Agostinho.
Para Santo Agostinho, este trecho fala, de fato, de Deus criando a matéria-prima, não cronologicamente, mas logicamente antes de imprimir as formas às coisas. Agostinho dizia que o autor do Gênesis (que eles acreditavam ter sido Moisés pessoalmente) usou um modo de falar adequado à simplicidade e à rudeza das pessoas a quem ele se dirigia então. Assim, ao tratar da criação da matéria, ele não poderia usar uma linguagem sofisticada, filosófica, que seus ouvintes de então não compreenderiam. Usou, então, as referências a “terra informe” e “água” neste versículo como descrições analógicas da matéria-prima, princípio da criação material. Usou a palavra “terra” para significar que ela é fundamento corporal de todas as coisas materiais, e a palavra “água” para significar sua capacidade de amoldar-se. Assim, a expressão “vazia e informe” significaria, para ele, que a matéria-prima, desprovida de qualquer forma, seria incognoscível, e portanto se apresentaria como algo sem sentido para a inteligência. A matéria-prima seria, para Platão, o “lugar” da existência das coisas materiais, e é neste sentido que Agostinho lê o texto citado, diz Tomás.
Mas Tomás registra que há outras leituras, de outros Padres da Igreja, às quais ele já fez referência na sua resposta sintetizadora (e nós estudamos no texto anterior a este) nas quais eles entendem que esta “terra informe e vazia” não é a matéria-prima no sentido filosófico, mas aquela forma inicial e precária, não especificada, que tende a ser substituída pelas formas definitivas no processo de criação.
O segundo argumento diz que a natureza sempre procede de modo análogo àquele pelo qual Deus age. Ora, a natureza sempre pressupõe, para agir, alguma matéria preexistente, mas ainda sem a forma atual final, sobre a qual o processo de geração possa ocorrer. Pensemos, por exemplo, no oleiro: para fazer seus potes, ele parte da argila informe. Assim, diz o argumento, Deus também teria partido, para agir, desta matéria informe criada no começo do seu processo de criação.
Mas esta analogia não existe, explica Tomás. Na verdade, qualquer operação da natureza pressupõe a existência de alguma coisa, alguma matéria, na qual possa dar-se a transformação que a natureza (ou a criatividade humana) opera. Mas Deus pode criar do nada. Assim, não há a obrigatoriedade que a existência da matéria informe preceda, no tempo, à existência das coisas devidamente formadas.
O terceiro argumento parte da diferença entre substância e acidente. A matéria, diz o argumento, é parte da estrutura da própria substância da coisa. Mas os acidentes, como o cheiro, a cor, o peso, o tamanho, não o são. Mas sabemos que Deus pode fazer os acidentes existirem sem a substância, como no caso da eucaristia: vemos os acidentes do pão, como o cheiro, a cor, o tamanho, mas a substância do pão já não está presente. Ora, diz o argumento, se Deus pode fazer os acidentes subsistirem sem a respectiva substância, nada impediria que ele fizesse a matéria subsistir sem forma. E assim o argumento conclui que nada impediria que houvesse matéria sem forma no início da criação.
É sempre ruim, diremos, argumentar com o milagre para justificar o ordinário. De fato, a transubstanciação é miraculosa, e por isto ela não poderia ser um bom parâmetro para meditar sobre a criação, que não envolve milagres. O ato de criar, bem como o seu resultado, as criaturas, não são miraculosos, mas ordinários.
Mas Tomás nem sequer precisará argumentar com este nível de profundidade. Ele simplesmente fará uma relação entre ato e potência, por um lado, e substância e acidente, por outro. Ora, a substância e o acidente encontram-se, ambos, na categoria dos atos, ou seja, daquilo que efetivamente existe, como perfeição atual. Mas a matéria-prima está na categoria das puras potências, ou seja, daquilo que pode existir mas ainda não existe efetivamente. Assim, a transubstanciação pode, efetivamente, fazer existir os acidentes (que são atuais) sem a substância, mas não seria adequado imaginar que deus viesse a entrar em contradição, fazendo existir uma pura potência sem ato, como a matéria-prima, cuja natureza é efetivamente não existir senão como ente de razão.
Tendo respondido a todos os argumentos objetores, Tomás passará a responder aos argumentos sed contra, o que é muito raro em toda a Suma; aqui, são dois argumentos sed contra, o que também não é muito comum na estrutura da Suma.
O primeiro argumento sed contra defende que a matéria informe não precedeu a criação especificada das coisas no tempo, porque a matéria informe é uma imperfeição. Ora, se Deus é um agente perfeito, ele não criaria as coisas de um modo que a imperfeição fosse o primeiro a surgir. Logo, conclui o argumento, nunca houve um tempo em que a criação estivesse incompleta, com a existência apenas de matéria informe.
Tomás não vai, mais uma vez, tomar posição direta e pessoal sobre a questão que envolve a preexistência da matéria informe, na criação, coisa que ele considera possível, mas não categoricamente comprovada. De todo modo, ele simplesmente diz que é possível que a criação tenha sido feita de tal modo que a matéria tenha passado por uma fase de incompletude, de abertura à transformação, antes de consumar-se a especificação das coisas, tal como as conhecemos hoje. Isto poderia se dar, não em razão de alguma imperfeição de Deus, mas por força da sua sabedoria infinita; ao agir assim, ele respeitaria a dinâmica do aperfeiçoamento natural da criação, por suas próprias forças. A resposta de Tomás, aqui, é, portanto, uma importante abertura para compreender um eventual processo evolutivo na criação, que é defendido hoje pelo modelo científico preponderante.
Finalmente, o segundo argumento sed contra alega que a formação das criaturas corporais, ou seja, de todas as coisas que existem hoje, tais como as conhecemos, deu-se por um processo progressivo de distinção, ou seja, pela diferenciação progressiva entre elas. O argumento assume, portanto, um contexto evolutivo para o universo. E prossegue, afirmando que a existência de um processo de diferenciação formativa implica a existência inicial de uma situação em que as coisas estavam numa situação de indiferenciação, de mistura, de informidade, portanto. Ora, se existe um processo de distinção e formação, conclui o argumento, isto tem que implicar a existência de um estado inicial de indiferenciação na criação, que os antigos chamavam de caos primordial, no qual a matéria existente era informe e indiferenciada.
De fato, diz Tomás, alguns pensadores antigos admitiam algo como um caos inicial. Uma matéria preexistente da qual todas as coisas foram retiradas, num processo de formação. Tomás lembra, inclusive que Anaxágoras, antigo filósofo pré-socrático, defendia que a única coisa distinta deste caos material era o que ele chamava de “intelecto”, algo como leis imanentes de organização que encaminhavam o caos a uma distinção progressiva.
O relato bíblico, porém, diz Tomás, não parece atestar que as coisas deram-se assim. Na verdade, não há nada prévio ao próprio ato de criação, do qual Deus tira tudo do nada. Deus não se depara com alguma matéria primordial caótica que ele trabalha para ordenar. Ele cria tudo, a própria matéria, portanto. Além disso, o seu trabalho criativo sempre traz implícita alguma ordem, alguma distinção; e Tomás vai afirmar que o relato do primeiro capítulo do Gênesis aponta para três distinções iniciais no processo criativo de Deus:
1. O relato diz que no princípio “Deus criou o céu e a terra”, indicando que o processo de criação já se inicia com a distinção entre o que é celeste e o que é terrestre. Esta seria a primeira distinção feita no relato. Ou seja, entre aquilo que é corporal e aquilo que é espiritual.
2. A segunda distinção seria a dos elementos (tais como Tomás os conhecia, ou seja, a terra, a água, o ar e o fogo). Segundo o relato, estes elementos fundamentais do mundo material são distintos desde o princípio, nas menções que este início do primeiro capítulo do Gênesis faz a respeito do céu, da terra, da luz e da escuridão, como referência a estes elementos; Tomás nos recorda, inclusive, os debates antigos sobre a afirmação de que o Espírito do senhor pairava sobre as águas: embora filósofos como Platão e leitores hebreus como rabbi Moses tendessem a equiparar “espírito” com o ar (vento), devido à palavra grega que significa tanto sopro quanto espírito (pneuma), a melhor leitura, diz Tomás, é aquela que vê, aí, um sinal trinitário do Espírito Santo fecundando a criação.
3. Por fim, o relato torna clara também uma distinção espacial, já que, desde o princípio, há o “em cima” e “embaixo”, o seco e o inundado, o claro e o escuro, a luz e as trevas, demonstrando que a criação traz, em si, a marca do geométrico, do extenso, desde seu começo.
A criação pode iniciar-se de maneira indistinta, com a progressiva diferenciação, sem dúvida. Mas Tomás não abre mão de nos ensinar que a marca da intencionalidade, da ordenação sábia de Deus, encontra-se nela desde o primeiro momento.
Deixe um comentário