Estabelecidos, pois, os princípios para o bom encaminhamento do debate, Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento cita Boécio, que afirmava que “as formas que existem na matéria procedem daquelas formas que subsistem sem matéria”. Ora, prossegue o argumento, parece que ele está se referindo aos anjos (formas que subsistem sem matéria) como fonte das formas das coisas materiais, e portanto atribuindo a eles a formação das coisas corporais, conclui o argumento.

Mas não é assim, diz Tomás. Com o cuidado que Tomás tem para não desprestigiar aqueles escritores antigos que ele respeita, Tomás diz que é preciso interpretar, aqui, a frase de Boécio no sentido de que as coisas materiais são formadas pela participação na concepção que existe na mente divina, ou seja, as ideias das coisas que existem individualmente estão, em primeiro lugar, na mente de Deus, que as concebe e as cria em conformidade com as razões que concebeu. Ele não está, portanto, aludindo, aqui, aos anjos, mas ao fato de que todas as razões, todas as formas daquilo que existiu, existe e existirá no mundo material, existem primeiro na mente de Deus.

O segundo argumento inicia pela discussão da noção de participação. Aquilo que participa de alguma realidade apresenta características que remetem à realidade da qual participa, e que possui tais características como próprias, de modo essencial. Podemos imaginar, por exemplo, que o exército é militar por essência; mas o soldado, seu veículo, suas armas, seu fardamento, são militares por participação, já que estão associados ao exército como realidades próprias dele. Se, digamos, o exército vende o veículo, que servia soldado, a um civil, este veículo já não é militar, pois já não participa do exército. Mas o argumento prossegue, dizendo que os anjos são seres puramente formais, essencialmente eles são formas sem matéria, enquanto as coisas materiais apenas participam das formas. Disto, o argumento conclui que as formas das coisas materiais são derivadas dos anjos, por participação.

Tomás vai iniciar sua resposta lembrando que os filósofos platônicos defendiam que as coisas concretamente existentes, as coisas materiais, eram simples participações em formas imateriais subsistentes, existentes realmente num reino transcendente e perfeito. Mas não é isto que elas são. É certo que os anjos possuem, em seu intelecto, as formas universais de todas as coisas que existem materialmente, e que, por meio destas formas, eles governam o mundo criado, inclusive a geração das coisas materiais. Assim, de certa forma, as coisas concretamente existentes participam, de uma maneira indireta e derivada, das formas universais que estão na inteligência dos anjos; mas não podemos esquecer que estas formas universais estão, em primeiro lugar, na inteligência divina, que as concebeu e organizou a sua criação de tá modo que elas possam existir no momento certo, pelo modo certo, através das causas segundas. Deus, portanto, organizou sua criação dotando-a de toda a ordem, de todas as razões de todas as coisas criadas, existentes ou por existir. São aquilo que na doutrina tradicional chama-se de “razões seminais”, e que é o motivo pelo qual o desenvolvimento e a evolução progressiva das coisas pode ser explicada como originando-se, em última análise, da própria inteligência divina. Não é o caso, aqui, de aprofundar a noção de “razões seminais”, mas basicamente é a ideia de que Deus, na criação, já dispôs o universo criado de tal maneira que as razões de tudo o que criou, que existiu, existe ou vai existir, já estão contidas na própria criação, de modo que os desenvolvimentos e evoluções futuras não são casuais, mas apenas o desenvolvimento da concepção original.

Por fim, o terceiro argumento objetor afirma que os anjos têm mais poder, mais relação com a nossa realidade terrena do que, por exemplo, os astros e corpos supralunares. Ora, diz o argumento, se os astros podem influir na nossa realidade aqui, muito mais o podem os anjos. E disto ele conclui que os anjos infundem as formas nas coisas materiais.

Não se pode negar que os astros e corpos supralunares influem na nossa realidade terrestre, e isto era do conhecimento da ciência do tempo de Tomás, como é da nossa. Estão aí as marés, a alternância entre o dia e a noite, as estações e tantos fatos que comprovam esta relação. Mas é uma relação de influência, não de determinação. Assim, não pode servir de analogia para qualquer argumentação a respeito da atuação dos anjos na criação do mundo.