No texto anterior, vimos o debate de ue os anjos seriam algo como demiurgos ou artesãos que, recebendo a matéria-prima criada por Deus, dariam forma às coisas corporais existentes na criação. Deus seria responsável, assim, por tirar a matéria do nada, e os anjos por moldá-las dando estrutura a tudo o que existe.

Em nossos tempos,a discussão aqui envolveria a ideia de que Deus tirou o universo do nada, mas foram as leis do universo, as forças naturais, que foram moldando as coisas para serem o que são. Nós temos uma tendência a imaginar que há apenas partículas fundamentais, no universo, que vão se juntando conforme as leis naturais e dando origem a tudo o que existe; todas as formas, todas as estruturas, seriam apenas frutos do acaso e da seleção. No tempo de Tomás, no entanto, o modo de ver o mundo que era concorrente à criação direta por Deus era a visão platonista, ou platonizante. E é a partir daí que se inicia a resposta sintetizadora de Tomás.

São duas, diz Tomás, as visões que envolvem imaginar que as criaturas materiais resultam de uma espécie de criação de segundo grau, não resultante diretamente da ação de Deus, mas da atuação de alguns entes intermediários, de natureza puramente espiritual, que são capazes de moldar a matéria preexistente conforme sua própria concepção. Na tradição cristã, estes entes foram equiparados aos anjos.

A primeira visão é a dos que seguem os ensinamentos de Platão.

Platão, diz Tomás, defendia que todas as coisas materiais têm suas formas, suas estruturas inteligíveis, derivadas de certas formas imateriais subsistentes, que seriam as ideias das coisas, e existiriam realmente num plano transcendente. Assim, todos os cavalos que existem no mundo nada mais seriam do que cópias materiais daquele cavalo perfeito e ideal que subsiste separadamente de qualquer matéria, neste reino ideal das formas. Cada cavalo material, concreto, que existe, participaria, assim, daquela forma ideal de cavalo, pela impressão, na matéria, daquela forma.

Neste reino imaterial transcendental das formas, haveria, pois, a ideia separada de cada coisa material com que nos deparamos aqui: uma ideia de ser humano imaterial e perfeito, uma ideia de cavalo, imaterial e perfeito, e assim por diante. Por cima destas ideias, e dando como que fundamento a elas, existiria a ideia do ser em si, da qual participariam todos os seres materiais existentes, pelo simples fato de existir.

A segunda visão, diz Tomás, é a dos seguidores de Avicena.

Eles não acreditavam nalgum reino transcendente das ideias, mas tampouco aceitavam que as formas existissem e subsistissem apenas nas próprias coisas materiais. Assim, pleiteavam que as formas eram simplesmente criadas elos próprios anjos, em suas mentes, de modo similar àquele pelo qual os arquitetos criam casas, entre os humanos. Assim, Avicena pleiteava que estas “inteligências separadas”, que nós chamamos de anjos, concebem as coisas materiais e manipulam a matéria, de modo a criá-las. Assim, o mundo material, para ele, não é uma criação divina, mas uma concepção angélica, ou talvez demoníaca. Esta concepção, diz Tomás, é muito próxima a concepções cristãs heréticas, principalmente na linha do gnosticismo, que considera a matéria como má, e todo o mundo material como concepção e produção do demônio.

A raiz destes enganos todos é a ideia de que as formas das coisas, suas concepções estruturais, são substâncias, isto é, são realidades em si mesmas. Este idealismo, que considera as concepções, as ideias, como tão reais, ou até mais reais, do que o mundo material, foi fortemente combatida pelo pensamento aristotélico.

Para Aristóteles, tudo o que existe, todas as coisas materiais, são, na verdade, compostos de matéria e forma. Nem a matéria existe independentemente da forma (a chamada matéria-prima existe apenas como um ente de razão, isto é, como algo que a inteligência concebe, percebendo como logicamente necessária, mas sabe que não se encontra no mundo real), nem a forma existe independentemente de matéria (salvo quanto aos anjos, que estudamos no tratado anterior).

No caso das coisas materiais, constata-se que elas são perecíveis, destrutíveis, corruptíveis. Mas é próprio do composto, ou seja, das coisas materiais em sua concretude, existir agora e depois não existir mais. Não são as próprias formas que desaparecem, mas os compostos mesmos. As formas não podem desaparecer por si mesmas, porque não existem por si mesmas. O que desaparece é a coisa, que é composta de matéria e forma. Assim, as coisas também são geradas, ou seja, passam a existir, como um composto de matéria e forma, e recebem sua forma de alguma outra coisa que igualmente é composta. Por isto, cavalinhos são gerados pelos cavalos, cãezinhos pelos cães e plantinhas, pelas plantas. A geração, portanto, das coisas materiais, não pode ser atribuída a um ser imaterial como os anjos.

Assim, a geração das coisas materiais acontece quando a matéria é como que levada ao ato ao receber a forma a partir de algum agente composto, diz Tomás. É fácil entender isto a partir de uma analogia: pensemos numa fábrica de bolinhas de borracha. A borracha é a matéria das bolinhas. A forma é esférica, já que se trata de uma bolinha, que nada mais é do que uma pequena esfera de borracha. A matéria, que chega na fábrica como uma espécie de pasta informe de borracha, é então injetada na máquina e, submetendo-se aos moldes, é aquecida e resfriada, tomando a forma esférica. Neste caso, a borracha, que anteriormente era apenas uma pasta, ou seja, apenas uma promessa, uma potencialidade de tornar-se uma bolinha, é atualizada, conformada no formato de bola, e vira uma bola efetiva, atual, não mais em promessa, mas como produto atual. A causa eficiente desta transformação tem que ser uma máquina com o molde adequado, e esta máquina não pode ser espiritual. Tem que ser, ela própria, uma coisa material; enquanto a fábrica é apenas um projeto de fábrica na mente dos investidores, ela não é capaz de produzir nenhuma bolinha. Somente uma fábrica devidamente materializada produz bolinhas de borracha.

É certo, diz Tomás, que os anjos são as forças que conduzem o universo. Hoje, temos a visão de que estas forças são leis impessoais, como a lei da gravidade, a inércia, as forças eletromagnéticas e assim por diante. Mas a ciência do tempo de Tomás atribuía estas forças à atuação obediente dos anjos. Assim, dizia Tomás, todas estas forças são, realmente, essenciais no processo de geração das coisas materiais que existem, porque, sem elas o universo simplesmente não subsistiria. Mas não são estas forças que concebem as próprias formas das coisas; elas, apenas, desencadeiam e sustentam os processos pelos quais as formas são recebidas na matéria para gerar os compostos. Em última instância, as formas das coisas mesmas, as forças que regem o universo e todos os processos que resultam na geração e destruição das coisas, são concebidas por Deus, que é a causa primeira da estrutura do universo. Devemos saber, no entanto, que Deus inseriu estas formas na inteligência dos anjos, vale dizer, o universo, por suas causas segundas, é capaz de realizar os processos pelos quais as coisas se formam.

O que Tomás expressa é que o universo, sua inteligibilidade, a existência das coisas, tudo isto se deve a Deus mesmo. Mas Deus já inseriu, na própria estrutura inteligível do universo, a capacidade de formar, por processos derivados dele, e subsistentes, todas as coisas que existem, existiram e virão a existir. Não por algum processo que poderíamos chamar de “design inteligente”, no qual o próprio Deus intervém para causar diretamente determinadas estruturas e seres que a natureza não dá conta de gerar sozinha. Tomás não admitiria uma concepção assim. Deus estruturou o universo de tal modo que as razões seminais, ou seja, a capacidade de funcionamento das causas segundas, é intrínseca ao universo, e ele não precisa intervir no mesmo nível das causas segundas, salvo se quiser, com isto, revelar-se a nós de algum modo.

É certo, portanto, que Deus criou o universo e todas as suas coisas, retirando-as do nada e fazendo-as subsistir (e isto está expresso nos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis, em linguagem teológica e não científica). É certo também que ele governa e mantém o universo em existência, e que é capaz de revelar-se e entrar em relação com suas criaturas, inclusive por produzir diretamente eventos nas coisas criadas. Não podemos esquecer que a criação não subsistiria sem seu motor imóvel, sem sua causa eficiente primeira, sem sua permanência na contingência, sem sua perfeição plena na mistura de ato e potência, e, finalmente, sem o fim a que todas as criaturas se dirigem, como Tomás nos mostrou na questão 2, quando tratou das cinco vias para Deus. A relação de Deus com o universo não é, pois, do relojoeiro que fabricou um mecanismo; a analogia mais apropriada seria a do músico que produz sua melodia.

Postos estes fundamentos, veremos, no próximo texto, como Tomás enfrenta as objeções iniciais.