Sabemos que todas as coisas mutáveis, ou seja, as coisas materiais, submetem-se a quatro causas: a causa material, isto é, a matéria da qual são formados, a causa eficiente, isto é, aquilo que os confecciona, a causa final, isto é, aquilo para que eles foram criados, e a causa formal, isto é, o universal, a forma abstrata de que participam como exemplares concretos.

No artigo anterior, vimos que as coisas corporais, materiais, não poderiam existir se Deus não as tivesse retirado do nada, ou seja, de Deus, em última instância, vem sua existência, o fato de que elas são. Portanto, ninguém poderia dar-lhes a materialidade que têm, senão Deus.

Mas o problema aqui, que parece tão antiquado, continua a ser um problema para nós. Os universais das coisas corporais, ou seja, sua estrutura inteligível interna, também procede de Deus, ou, por outro lado, é uma concepção dos anjos, vale dizer, das forças espirituais que dirigem o universo? Hoje, poderíamos dizer assim: Deus pode até ter feito o Big bang; mas será que as coisas não foram se tornando aquilo que são em razão das forças evolutivas e seletivas existentes no próprio universo? Digamos, o peixe evoluiu para o réptil, e este para o mamífero, e assim por diante, em razão das estruturas básicas de organização do universo mesmo, que os antigos atribuíam aos anjos e nós, a leis universais básicas? Será que as coisas têm a estrutura, a forma interna que têm, por uma deliberação direta de Deus, ou por uma mera permissão dele para que elas fossem se formando no próprio universo?

Esta segunda opção é a hipótese controvertida, proposta para iniciar o debate. Parece que as formas dos corpos são originadas pelos anjos, não por Deus mesmo.

Três argumentos objetores posicionam-se a favor desta primeira hipótese.

O primeiro cita Boécio, que afirmou: “das formas que são sem matéria é que procedem as formas que existem na matéria”. Isto quer dizer, segundo o argumento, que Boécio defendia que as coisas materiais recebem sua estrutura, sua forma, dos seres imateriais, ou “formas que são sem matéria”, que são os anjos. Disto o argumento conclui que são os anjos que concedem forma às coisas materiais.

O segundo argumento recorda a regra daquele fenômeno que a Escolástica chamava de “participação”. A participação consiste em que alguma coisa exiba caracteres derivados, recebidos por ela de alguma coisa que tenha tais caracteres por si mesmo. Por exemplo, pensemos numa rede de lojas franqueadas, isto é, que têm a licença para usar uma marca. Elas todas participam, derivadamente, daquela marca que pertence, essencialmente, à empresa mãe, que a licencia. Ora, prossegue o argumento, as criaturas espirituais, ou seja, os anjos, são as próprias formas, ou seja, cada anjo é o único exemplar de sua espécie, e esgota o universal da sua forma. Mas as coisas materiais não são, eles mesmos, a materialização de sua forma universal, mas apenas participam da forma universal de sua espécie. Ora, os anjos são criados contendo todas as formas universais já na sua inteligência. Logo, o argumento conclui que as próprias formas das coisas materiais são participações das formas universais que estão nas inteligências angélicas.

Por fim, o terceiro argumento lembra que os anjos, ou substâncias espirituais, têm mais poder sobre a matéria do que os astros e corpos celestes. Mas os astros e corpos celestes são capazes de alterar as formas das coisas aqui na Terra. Logo, o poder causal dos anjos, sendo maior ainda, deve permitir que eles causem a própria forma das coisas materiais. Disto o argumento conclui que as coisas materiais não são causadas diretamente por Deus, em suas formas substanciais, mas pelos anjos.

O argumento sed contra recorre à autoridade de Santo Agostinho: a matéria não existe para servir à vontade dos anjos, mas para servir a Deus em seu poder criador, diz ele no De Trinitate. Ora, afirmar que a matéria existe para “servir a vontade” de Deus significa admitir que ela se submete a receber sua estrutura formal diretamente de Deus, e não para ser moldada pelos anjos. O argumento conclui, portanto, que Deus é o autor das formas das criaturas materiais.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.