Vamos imaginar que alguém, com habilidades mínimas para cozinhar, encontra, sobre a mesa de sua cozinha, os melhores ingredientes para um prato fácil. Não precisaria ser um grande cozinheiro para preparar uma comida gostosa.
Mas imaginemos que alguém encontrasse apenas poucos ingredientes, e não tão saborosos, em sua geladeira, para preparar uma refeição. Se, ainda assim, ele conseguisse criar uma refeição muito saborosa, diríamos que se trata de um bom cozinheiro.
Talvez um grande chefe de cozinha, com talentos e habilidades especialíssimas, um profissional raríssimo no mundo, fosse capaz mesmo de preparar uma refeição maravilhosa com dois ou três ingredientes à sua disposição.
Mas que cozinheiro seria capaz de preparar tudo a partir de absolutamente nada? Uma refeição completa, sem ter à sua disposição, de antemão, nenhum ingrediente? Teria que ser Deus!
Assim, criar do nada é sempre um atributo divino.
No entanto, diz Tomás no início de sua resposta sintetizadora, há alguns que ensinaram que Deus não criou tudo diretamente; ele teria criado apenas um primeiro ser, uma criatura suprema, a quem delegou a criação das criaturas inferiores a ela, que, por sua vez criaram seres inferiores e assim sucessivamente, até a criação das coisas materiais.
Mas as coisas não podem ser assim, diz ele. Esta forma de pensar é simplesmente descabida, inadmissível mesmo. De fato, diz Tomás, as criaturas materiais vieram a existir por via de criação, e a criação implica, em primeiro lugar, fazer surgir a própria matéria de que as coisas corporais são feitas. Criar, diz Tomás, implica fazer algo vir a existir. E neste processo de fazer vir a existir, o mais básico, o mais fundamental, o mais potencial, é o que deve ser feito em primeiro lugar. Portanto, o fazer existir a partir do nada implica a criação da própria matéria, que é o que o ser corporal tem de mais fundamental em sua existência; fazer isto a partir do nada é algo que somente Deus pode fazer. Seria impossível que qualquer criatura, por mais elevada e perfeita, fosse capaz de produzir a matéria a partir do nada. E Tomás passa a demonstrar a razão disto.
Quanto mais elevada é uma causa, diz Tomás, mais coisas abrange com seu poder. Fazendo um paralelo, vamos imaginar a diferença entre um prefeito, um governador de estado e um presidente: este último tem um poder de causar mudanças que é muito mais amplo do que os outros dois.
Combinando estes dois princípios (aquele de que aquilo que é mais fundamental deve vir primeiro, e aquele outro que diz que quanto mais elevada a causa, mais seu poder se estende), passamos a procurar qual é o elemento mais fundamental entre as criaturas, aquele que é compartilhado pelo maior número delas. Se o encontrarmos, descobriremos que este elemento fundamental, o mais difundido, tem que ter sido causado pela causa mais elevada, que atinge o maior número de coisas. Este elemento fundamental, compartilhado por todas as coisas, tem que ser efeito da causa mais fundamental, cujo poder se estende sobre todas as coisas. Qualquer que seja a causa secundária, ela sempre irá pressupor um elemento feito pela causa fundamental que está acima dela.
Em todas as coisas materiais, vemos que a inteligência existe nas criaturas que estão vivas, e a vida surge nas criaturas existentes. Ser é pressuposto de viver, como viver é pressuposto de inteligir. Logo, a causa que traz as criaturas ao ser deve ser mais fundamental, mais elevada, do que a causa que as faz viver, e esta deve ser mais elevada do que aquela que as faz inteligir.
Ora, para trazer às coisas à existência, portanto, somente Deus poderia fazê-lo. Os seres vivos contam com a reprodução para difundir-se; mas a reprodução pressupõe a existência. E os seres inteligentes contam com a educação para progredir, mas esta pressupõe a vida e a existência.
Portanto, o poder de fazer existir, que não pressupõe nenhuma outra coisa, tem que ser divino. E é por isto que o Gênesis já inicia afirmando: “no princípio Deus criou o Céu e a Terra”. Para não deixar dúvida de que Deus, e Deus somente, é responsável pela existência de todas e cada uma das criaturas, inclusive daquelas (como o mármore das estátuas) que servirão de substrato para o trabalho transformador das criaturas mais elevadas. As criaturas mais elevadas são, sem dúvida, partícipes do trabalho de transformação do mundo, mas seu obrar sempre vai pressupor a existência de algo com que possam trabalhar. Somente o trabalho criador de Deus não pressupõe nada. Assim, colocar as coisas materiais na existência é obra de Deus mesmo, e não de anjos ou de outros seres criados.
Colocados os fundamentos de sua resposta, Tomás passa a reexaminar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que é próprio da sabedoria ordenar; assim, sendo Deus a própria sabedoria, seria de se esperar que ele houvesse ordenado o próprio poder de criar, delegando a criação dos seres inferiores aos superiores.
Tomás responde que Deus é a sabedoria mesma. E de fato ele imprimiu ordem à sua criação; mas esta ordem que existe na criação não implicou nenhuma delegação do poder de criar, que continua sendo essencial e exclusivamente divino. Implicou, apenas, que a criação dá-se de modo ordenado e hierárquico, com as perfeições das criaturas revelando, cada um em seu próprio grau, a infinita perfeição de Deus.
O segundo é o argumento da diversidade: se todas as coisas tivessem Deus com causa criadora, não haveria diversidade entre elas, porque a mesma causa gera sempre o mesmo efeito. Por outro lado, todas as criaturas estariam imediatamente relacionadas com Deus como seu criador, o que negaria a hierarquia dos seres, na qual os seres mais perfeitos estão mais próximos de Deus do que os seres mais simples e efêmeros. Mas como as criaturas exibem uma enorme diversidade, e sua hierarquia os coloca a distâncias diferentes de Deus, o argumento conclui que isto demonstra que elas foram originadas por criadores diversos.
Deus não é uma causa automática, como um molde ou uma linha de produção de uma fábrica. De fato, diz Tomás, Deus é essencialmente simples em seu ser; isto não significa que sua inteligência não seja capaz de conhecer e conceber a diversidade, como vimos na questão 15, artigo 2, desta primeira parte. De fato, mesmo um artesão humano, em razão da riqueza e diversidade de seu intelecto, é capaz de produzir obras de arte variadas, em proporção à multiplicidade de seu intelecto e à liberdade de sua vontade; Deus, portanto, com a inteligência suprema e a liberdade infinita de sua vontade, é causa adequada de toda a diversidade de sua criação.
Por fim, o terceiro argumento diz que as coisas corporais são limitadas no tempo e no espaço, pelas dimensões dos seus corpos e pela sua inserção no caminhar da história. Ora, prossegue o argumento, para produzir um efeito finito, como finitas são as criaturas, não é necessária uma causa infinita em poder como é Deus. Portanto, se é adequado que algum ser finito (mas com enorme poder sobre a matéria, como, por exemplo, os anjos), possa criar estes seres limitados que são as criaturas corporais, não seria lógico que Deus não lhes atribuísse este poder; Deus não nega a nenhuma criatura os poderes que lhe são convenientes, salvo por castigo de algum pecado. Logo, conclui o argumento, os anjos criaram as criaturas corporais.
O poder do agente não é medido somente pelo que ele faz, mas também pelo modo como ele faz. É o que exemplificamos, acima, com a historinha do cozinheiro e seus ingredientes: quanto melhor o cozinheiro, menos ingredientes serão necessários para que ele prepare uma comida deliciosa. Mas continua sendo um privilégio estritamente divino fazer algo do nada.
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