No modo platônico de ver as coisas, o bem está no topo, acima das coisas materiais. O mundo material, portanto, está bem abaixo do bem, sendo indigno deste bem absoluto. Há, assim, a necessidade de pleitear a existência de criadores de segunda ordem, que manipulam a matéria preexistente, modelando as coisas materiais.
No cristianismo, temos a noção da hierarquia dos seres, e sabemos que os seres inanimados não são mais dignos do que os animados, nem estes mais dignos que as criaturas inteligentes. Mas não podemos cair no platonismo, e imaginar que, de algum modo, Deus não é o criador de todas as coisas. Por outro lado, há uma visão moderna das coisas que leva a imaginar que o universo, tendo sido iniciado por uma grande explosão, configurou-se independentemente de Deus, atendendo às suas próprias leis internas de evolução, atração e repulsão. Ou, como dizia o grande matemático Pascal, criticando Descartes: “ele precisou de Deus apenas para dar um ‘piparote’ no universo e fazê-lo existir… depois, dispensou-o sem cerimônia”. Esta posição, que alguns chamam de “deísmo”, pleiteia justamente que Deus não se envolve diretamente com o universo material, mas delega sua gestão às forças naturais que criou, ou, como chamavam os antigos, aos anjos. Este é um grande equívoco. Veremos, nas questões 103 e seguintes desta primeira parte, que de fato os anjos existem para participar do governo do mundo, mas isto não os torna criadores ou “sub-deuses” do mundo material. No entanto, esta é justamente a hipótese controvertida adotada agora, para provocar o debate.
“Parece que não foi Deus quem criou diretamente as coisas materiais que existem, mas ele delegou aos anjos o poder de fazê-lo”, diz esta hipótese. Hoje em dia, talvez disséssemos: parece que Deus não atuou criando concreta e diretamente as coisas materiais todas, apenas deu início ao processo de criação que se auto-organiza com base em suas próprias forças naturais organizadas. Como vemos, não é uma hipótese estranha à nossa forma contemporânea de pensar, se fizermos um paralelo entre o papel dos anjos na doutrina tradicional da Igreja, por um lado, e o papel das chamadas “leis físicas naturais” da ciência contemporânea, por outro. Em todo caso, basta de digressões. São três os argumentos objetores aqui colecionados.
O primeiro argumento inicia afirmando que, de fato, do mesmo modo que todas as coisas são governadas pela sabedoria de Deus, elas também são criadas com esta sabedoria, conforme o salmo 103, 24: “Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes”. Mas, prossegue o argumento, é próprio da sabedoria colocar ordem nas coisas, como o próprio Aristóteles reconhece, na obra “Metafísica”. O universo tem ordem, portanto. Mas a ordem do universo determina que as coisas inferiores sejam regidas pelas superiores, como lembra Agostinho; as inanimadas para as animadas, estas para os racionais e estes para os seres espirituais. Assim, a ordem da criação também deve obedecer a esta mesma ordenação, conclui o argumento, de tal modo que as coisas inferiores, materiais, não foram criadas diretamente por Deus, mas pelas criaturas espirituais, que são suas superiores.
O segundo argumento traz o argumento da diversidade que existe na criação, que é sempre um desafio para os filósofos. A mesma causa, diz o argumento, produz sempre o mesmo efeito. É fácil perceber isto numa linha de produção de fábrica: a mesma fábrica vai produzir sempre os mesmos produtos, com os mesmos materiais e formatos. Assim, prossegue o argumento, se Deus fosse a causa imediata de tudo o que existe, não haveria tamanha diversidade entre as criaturas, nem se poderia dizer que umas (as espirituais e as racionais) estão mais próximas de Deus do que as outras, pois todas estariam à mesma distância dele, como autor direto delas. No entanto, aduz o argumento, o próprio Aristóteles já ressaltava que alguns seres, por serem muito efêmeros e corruptíveis, estão mais longe de Deus, que é eterno, do que outros. Logo, o argumento conclui que Deus não criou diretamente as coisas materiais em sua diversidade.
Por fim, o terceiro argumento faz uma proporção entre os efeitos e as respectivas causas; um efeito finito, diz o argumento, não requer uma causa infinita. Ora, diz ele, se a marca das coisas materiais é serem limitadas, com corpos geometricamente delimitados, peso, medida e quantidade, então eles são claramente limitados; logo, poderiam ser criados por causas limitadas, também, afirma o argumento. Sabe-se, prossegue o argumento, que, nas criaturas espirituais, aquilo que eles são reflete-se plenamente naquilo que eles podem fazer, ou seja, o seu poder espiritual é pleno em proporção com sua natureza incorpórea. Quer dizer, se tudo neles é espírito, então todo o poder espiritual está presente neles, e tudo o que é proporcional ao mundo espiritual é possível a uma criatura puramente espiritual (salvo, é claro, a eventualidade de que pequem, caso em que Deus pode lhes restringir o poder e a vontade). Então, conclui o argumento, se é conveniente a uma criatura espiritual criar algo limitado como uma coisa material, não haveria razão para que Deus lhes negasse este poder, criando-as diretamente. Assim, o argumento afirma que as coisas materiais são criadas pelos anjos, não diretamente por Deus.
O argumento contrário cita Gênesis 1, 1: “No princípio, Deus criou o Céu e a Terra”. Ora, isto sempre foi compreendido como a criação das coisas imateriais (o Céu) e de todas as realidades materiais (a Terra, conforme o modo de falar dos antigos). Assim, há razão bíblica, diz o argumento sed contra, para afirmar que Deus criou diretamente, tantos as criaturas espirituais, quanto as coisas materiais.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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