Vimos, no final do texto passado, a forma com que Tomás rebate um velho argumento de Orígenes, de que as coisas materiais não constavam do plano original da criação de Deus, mas foram criadas para aprisionar os anjos que caíram. Ele refuta esta posição, sob dois argumentos: se as coisas matriais são prisões, então elas não são boas. Mas a Bíblia declara que todas as coisas criadas são boas, no capítulo 1 do Livro do Gênesis. Além disso, as coisas materiais foram criadas no âmbito de um universo que faz sentido em si mesmo, que tem uma ordem intrínseca, o que não seria possível se a sua razão de ser fosse o pecado dos anjos, não a própria ordem da criação. Assim, um sistema solar teria um ou dois sóis não em razão do equilíbrio cósmico, mas porque um ou dois anjos pecaram ali e precisavam ser punidos. O que é, obviamente, racionalmente insustentável.

Assim, esta opinião deve ser afastada, diz Tomás.

Como, então, podemos entender a finalidade pela qual o universo, e cada uma das coisas que o compõem, foi criado?

O universo é um todo, diz Tomás; um conjunto articulado e harmonioso, do qual cada criatura é uma parte. Como sabemos qual o fim de uma parte?

Ora, contemplando o corpo humano, que também é um todo formado de partes, percebemos que a causa final de cada parte é, em primeiro plano, aquilo que é sua própria função. O olho é para ver, o coração, para bombear sangue e assim por diante.

Em segundo lugar, notamos que, além das próprias funções, os órgãos têm uma relação entre si, de tal modo que cada um serve ao outro, como uma verdadeira articulação hierárquica de funções. Certamente o sistema digestivo existe para que o sistema nervoso possa funcionar, sendo nutrido. As funções do sistema nervoso, sendo mais nobres e mais insubstituíveis do que aquelas do sistema digestivo, são, de certo modo, fim do sistema digestivo, de tal modo que as pessoas não pensam para se nutrir, mas nutrem-se para pensar. Assim, um segundo nível de finalidade seria o hierárquico, de tal modo que os sistemas menos essenciais sirvam aos mais essenciais.

Por fim, um terceiro nível de finalidade é aquele pelo qual as partes servem ao todo; Tomás diz que as partes são como que a matéria que constitui o todo. Assim, nós comemos, respiramos, caminhamos, etc., para viver, que é o fim biológico do ser humano; e o ser humano vive para gozar um dia de Deus, na bem-aventurança final.

Aplicando esta concepção ao universo criado, vemos que, em primeiro lugar, o fim de cada criatura é sua própria função, ou seja, seu próprio ato e operação. Depois, vemos um segundo nível de finalidade no escalonamento hierárquico do universo, pelo qual cada coisa serve àquela que está acima dela mesma, como as coisas inanimadas às vegetais, estas aos animais e estes às criaturas pessoais. Por fim, o terceiro nível de finalidade, em que o todo da criação se ordena para deus, uma vez que existe para tornar visíveis e inteligíveis a riqueza infinita das perfeições invisíveis de Deus, para que possamos conhecê-lo e a ele dar glória. Além disso, diz Tomás, as criaturas inteligentes têm em Deus seu fim último, que é conhecê-lo e amá-lo, glorificando-o eternamente. É deste modo, portanto, que o fim último das criaturas, a razão mesma, mas profunda, pela qual existem, é a bondade de Deus.

Postos estes critérios, Tomás volta aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro cita as Escrituras (Sb 1, 14) para afirmar que a razão final de todas as coisas existirem é o bem delas mesmas, e disto conclui que elas não têm a bondade de Deus como causa final.

Tomás vai dizer que a bondade da criatura evidencia a bondade de Deus, pelo simples fato de existir. Ou seja, o fato de que a criatura existe para seu próprio bem não exclui o fato de que o bem da criatura é, já neste nível, o próprio Deus, e que, a cada nível de finalidade, a bondade de Deus vai se manifestando mais claramente como fim da criatura.

O segundo argumento diz que o bem tem razão de fim; logo, aquilo que é menos bom procura aquilo que é melhor. Disto, o argumento conclui que a razão de existir das criaturas é o bem daquilo que é melhor do que elas, quer dizer, as criaturas inferiores existem por causa das superiores, não por causa da bondade de Deus.

Mais uma vez, Tomás responderá que uma coisa não exclui a outra, ou seja, o fato de que as coisas existem para seu próprio bem ou para o bem daquilo que lhes é superior não exclui o fato de que existem, no limite, pelo bem de Deus.

O terceiro é aquele que quer relacionar a desigualdade das criaturas com a justiça de Deus, concluindo que, se ele é justo, não pode ter criado as coisas diferentes entre si. Logo, se as coisas materiais são diferentes, não podem ter sido criadas diretamente por ele, porque isto seria injusto. Logo, a causa delas não pode ser a bondade de Deus, conclui.

Quando falamos de justiça, diz Tomás, estamos falando sempre de uma retribuição proporcionada. A justiça existe entre uma ação ou situação e uma resposta. Ora, se é assim, não se pode falar em justiça ou injustiça no momento da criação, porque a criação não é uma retribuição, mas uma instituição, ou seja, ela não é precedida por alguma situação que pudesse gerar uma retribuição, ou seja, a criação não envolve uma questão de justiça. No entanto, a criação tem diversas dimensões, profundidades, ela faz sentido em cada uma de suas partes e em seu todo. Assim, ela é composta de coisas diferentes, de tal modo a garantir a perfeição do todo; de modo análogo, diz Tomás, o pedreiro usa telhas para fazer o telhado e tijolos para fazer as paredes da casa, sem que isto envolva nenhum tipo de injustiça. Eis que a diversidade existe pelo bem do todo, e para expressar a infinita riqueza das perfeições de Deus.