Sim, há demônios que sofrem sua punição aqui mesmo, entre nós.

duas maneiras, diz Tomás, pelas quais os seres humanos chegam ao bem, nos planos da divina providência. As duas envolvem o concurso dos seres puramente espirituais.

A primeira maneira é quando Deus nos oferece e encaminha para o bem, repelindo-nos do mal. Neste caso, diz Tomás, a providência se vale dos santos anjos, pelos quais cuida de nós. Temos a experiência da proteção dos anjos da guarda, por exemplo. Bem como as diversas intervenções angélicas nos relatos neotestamentários.

Mas, por outro lado, há uma segunda maneira pela qual a providência nos encaminha para o bem; trata-se da maneira indireta, pela qual, na presença das tentações ou mesmo dos infortúnios, somos convidados a confiar em Deus e a escolher o Seu amor. Neste caso, a Providência pode valer-se dos demônios, a demonstrar que, embora tenham escolhido afastar-se de Deus em sua rebeldia, na verdade simplesmente foram reintegrados à Providência de um jeito que nunca esperariam: como provedores dos desafios que testam a nossa fé e o nosso amor firme por Deus. Assim, embora rebelados, servem, malgrado seu, aos bons propósitos de Deus.

Mas isto não significa que todos os demônios estejam aqui, compartilhando o nosso ambiente existencial e servindo involuntariamente aos propósitos da Providência. De fato, alguns estão já no inferno, cumprindo lá suas penas; é o lugar que lhes compete em razão da culpa, conforme disse Jesus na passagem de Mateus 25, 41b, já citada. Ora, embora o inferno tenha sido preparado para o Dibo e seus demônios, há aqueles seres humanos que preferiram a porta larga da perdição e escolheram ir para lá. Estes encontrarão lá os demônios encarregados de cuidar da sua nada aprazível estadia eterna. Deste modo, mesmo no inferno, que é o lugar natural e definitivo de suas penas, os demônios servem ainda, mesmo que malgrado seu, aos fins da Providência, da qual nada escapa. Isto, aliás, é parte de sua pena: mesmo na sua rebeldia, eles acabam servindo, contra sua vontade, Àquele a quem se negaram a servir voluntariamente.

Ora, diz Tomás, até o final dos tempos haverá seres humanos a caminho, militando na Terra, encaminhando-se à santidade e à perdição. Logo, até o Juízo Final haverá demônios por aqui, entre nós.

Passado o Juízo, serão então encaminhados ao lugar onde sofrerão as penas eternas, o inferno, e já não haverá esta convivência entre bons e maus. Os bons estarão na presença de Deus, onde nada impuro ou malvado chegará (Ap 21, 27).

Colocados estes fundamentos, Tomás revisita os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento diz que não se poderia estabelecer um “lugar” para as penas de seres espirituais, que, por natureza, não estão sujeitos a localização geográfica.

Quando falamos que os demônios sofrem suas penas aqui mesmo, no mesmo ambiente existencial em que vivemos nós, não queremos dizer, com isto, que suas naturezas foram alteradas para que passassem a sujeitar-se a um lugar geográfico; apenas que as suas vontades estão vinculadas ao nosso ambiente, ao nosso lugar humano de existência, retidas aqui contra seu querer, de tal modo que isto induz a uma tristeza, uma frustração, uma limitação que é parte de suas penas, como vimos no artigo anterior, por compeli-los a servir justamente àquela Providência da qual tentaram subtrair-se.

O segundo argumento lembra que o pecado dos demônios é mais grave que o pecado humano; mas os seres humanos são invariavelmente apenados no inferno, logo os demônios, com culpa maior, também deveriam ir diretamente para lá, em vez de ficar por aqui.

Ocorre que todos os seres humanos são da mesma espécie. Logo, aquilo que é justo e adequado para uns, também é para todos os outros. Eis porque é adequado que todos sejam destinados ao inferno, quando se perdem. Mas com os anjos não é assim; em primeiro lugar, sua natureza intelectual é muito superior à humana, e isto significa que aquilo que é adequado para os seres humanos não é necessariamente adequado aos anjos. Por outro lado, os anjos não são da mesma espécie entre si, eis porque não necessariamente devem ter a mesma destinação final. O argumento, portanto, não se sustenta, diz Tomás.

O terceiro argumento diz que a punição dos demônios consiste no fogo, conforme a passagem de Mt 25, 41b, citada. Ora, aqui no nosso ambiente humano não há esta permanência do fogo, de modo a constituir o lugar de punição dos demônios. Disto, o argumento conclui que eles não sofrem suas penas aqui.

Há, aqui, diversas opiniões teológicas, diz Tomás.

Há quem sustente que esta pena dolorosa, que maltrata sensivelmente, a ser aplicada a demônios e às almas dos seres humanos réprobos, fica suspensa até o juízo final, quando haverá a ressurreição dos mortos, uns para a glória, outros para a danação. Mas Tomás lembra que o estado intermédio, em que as recompensas e punições já se aplicam, é um dado bíblico bem atestado, em passagens como 2 Coríntios 5, 1: “Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna no céu.

É de se acreditar, portanto, que há uma escatologia intermédia, anterior ao juízo final, em que as criaturas já são premiadas ou punidas. E, de fato, há inclusive uma declaração recente da Congregação para a Doutrina da Fé sobre escatologia, de 1979, onde a fé reta da Igreja, neste sentido que Tomás registra, é reafirmada.

Há outros teólogos, diz Tomás, que, embora admitam uma escatologia intermédia para os seres humanos, em respeito à passagem citada de São Paulo é à fé da Igreja, negam-na para os demônios, e apenas para estes pleiteiam que os castigos se iniciarão com o juízo final. Mas não há razão para fazer esta distinção, diz Tomás, quebrando o paralelismo entre a bem-aventurança dos santos anjos, imediata, por um lado, e a punição dos demônios, que seria diferida, por outro. Há boas razões para acreditar que uma e outra iniciam-se imediatamente.

O principal argumento contra a imediatidade das respostas escatológicas aos anjos, seja a felicidade da bem-aventurança, seja a punição eterna, é o fato de que os Santos Anjos transitam entre nós, cumprindo as missões divinas que lhes incumbe. Eles saem do céu, de certa forma, e mergulham em nossa história, para fazer esta ponte entre nós e Deus. Mas neste caso o céu não sai deles, diz Tomás. Eles carregam em si a felicidade celeste, onde quer que estejam, quer aqui entre nós, quer na presença de Deus. Podemos imaginar, de modo análogo, que o Bispo não deixa de ser Bispo quando não está sentado na sua Cátedra celebrando a Eucaristia e ensinando. Assim, os Santos Anjos não deixam de ser santos quando estão em missão entre nós.

De modo similar, o fogo do inferno não sai dos demônios, mesmo quando estão aqui, em nossa circunvizinhança terrena, com suas desventuras malditas. Sabem de sua condenação, e sofrem-na, mesmo aqui. Ou, como dizia certo comentarista bíblico anônimo, em glosa citada por Tomás, eles levam o fogo do inferno para onde quer que forem.

Neste sentido, e justamente porque seu lastimável estado demoníaco independe de lugar, e porque suas eventuais alegrias perversas consistem em prejudicar os homens no caminho da salvação, é que se lê, em passagens como a do Evangelho de Lucas, 8, 31, que os demônios pediram ao Senhor que “não os enviasse ao abismo”, ou, em Marcos, 5, 10, se lê que suplicaram-no que “não os tirasse daquela região”. Cumprem sua tarefa maldita, e dela Deus é capaz de tirar um bem, para nós, maior do que o mal que eles causam e vivem.

E assim terminamos o Tratado dos Anjos na Suma. Maravilhoso e rico. Mais um daqueles vãos pouco explorados em nossa Catedral maravilhosa, cuja visitação estamos, há tanto tempo, fazendo.