Os anjos são os grandes colaboradores de Deus na gestão do universo criado. De certa forma, há, aqui, uma outra diferença entre eles e nós, quanto à chegada na glória: a nossa chegada na glória, antes do juízo final, de certa forma nos retira da história, porque, depois que morremos, não somos mais seres pessoais, mas, de certa forma, apenas almas subsistentes, incompletas em sua pessoalidade, como vimos na questão 29, artigo 1, resposta à última objeção. A ausência do corpo em nós retira-nos da história. Não assim com os anjos. Eles não estão inseridos na história material desde a sua criação, mas estão inseridos nos planos de Deus. A sua glorificação ou a sua queda leva-os para dimensões alheias ao universo criado? Viverão eles, depois de glorificados ou caídos, num céu transcendente, ou num inferno abismal, e portanto sem contato conosco? Sem influência aqui?
Esta é a hipótese inicial, para provocar o debate. Parece que, depois de caírem, os demônios não permanecem em nosso ambiente existencial, mas são retirados para o inferno. Sua pena transcorreria, portanto, numa outra dimensão, sem relação com a nossa.
Abro, aqui, uma pequena digressão: esta ideia, na época de Tomás, era expressa em outra linguagem; a hipótese literalmente dizia que o nosso “ar caliginoso” (algo como “a escuridão da atmosfera daqui”) não era o lugar da pena dos demônios. Mas esta ideia pode ser melhor expressada pela ideia contemporânea de “ambiente”, no sentido “ecológico”, mesmo, ou seja, o meio em que se desenvolve a nossa história, a nossa vida, as nossas relações. Assim em vez de “ar caliginoso” ou “atmosfera tenebrosa”, falarmos de “nosso ambiente existencial”.
São três os argumentos no sentido desta hipótese inicial de que os demônios não estão recebendo suas penas aqui entre nós.
O primeiro argumento lembra que os demônios são seres puramente espirituais, de natureza angelical. Logo, não caberia falar de um “lugar” para suas penas, já que o conceito de lugar não se aplica a eles. Assim, o argumento conclui que não podemos dizer que os demônios cumprem suas penas aqui no nosso mesmo ambiente existencial.
O segundo argumento diz que o pecado dos demônios são muito mais graves do que os pecados ordinários que levam à perdição os seres humanos. Mas os seres humanos que se perdem vão todos para o inferno, lembra o argumento. Logo, com muito mais razão podemos esperar que os demônios também sejam mandados para lá; portanto, eles não estão aqui, compartilhando nosso ambiente existencial, conclui o argumento.
Por fim, o terceiro argumento lembra que, tradicionalmente, sabe-se que os demônios são punidos pelo fogo eterno em que são mergulhados, conforme Mt 25, 41b. Mas o nosso ambiente existencial, aqui no nosso universo, não é um ambiente de fogo eterno. Logo, o argumento conclui que os demônios não estão sofrendo suas penas aqui mesmo, em nosso ambiente existencial.
O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que no seu Comentário ao Gênesis ad Litteram, afirma que o nosso ambiente existencial, que ele chama de “ar caliginoso”, ou atmosfera obscura, é como que um cárcere em que os demônios aguardam as penas definitivas que receberão no juízo final.
Colocados os termos do debate, Tomás passa a apresentar sua própria resposta sintetizadora.
É da natureza das criaturas puramente espirituais, que conhecemos como “anjos” (incluídos aí os que decaíram), as funções de intermediação entre nós e Deus. É parte dos planos de Deus que, na criação, uns seres dependam dos outros, e os seres mais elevados governem e sejam providenciais para os menos elevados. Eis aí um princípio que, se nossa civilização de hoje adotasse, talvez resultasse num maior cuidado com a criação e uma proteção mais eficaz do meio ambiente. Talvez nos sentíssemos mais responsáveis pelo resto da criação.
Os santos anjos servem a Deus, nos propósitos de Sua maravilhosa Providência, com todo o seu coração e com toda a sua vontade. Os demônios não querem servi-lo. Escolheram mesmo não servir. Mas servem, contra sua vontade. Vimos, no artigo anterior, que a dor espiritual consiste, exatamente, em ter a sua vontade contrariada, sua pretensão de insubmissão negada, sua pretensão de falta de limite regulada. Isto ocorre aqui, como parte da pena dos demônios. Veremos melhor no próximo texto.
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