Nesta questão, temos debatido a propósito da pena reservada aos anjos caídos, quer dizer, aos demônios. Vimos que sua vontade fixou-se irremediavelmente no mal, eternamente, e que eles perderam a contemplação de Deus, mas não o primoroso intelecto que possuem naturalmente, com o conhecimento amplo das coisas criadas. Ou seja, mesmo na queda eles são muito mais poderosos intelectualmente do que nós, humanos.
Mas, afinal, não sofrem eles por terem caído? Continuam inteligentes, inclinados ao mal, repugnaram o amor de Deus, e nada sofrem? Onde está, propriamente, a dor que deveriam sentir por sua queda?
Ora, Neste ponto chegamos onde estamos agora. Como poderiam os demônios sentir dor? De fato, são seres puramente espirituais, inteligências espirituais. Não possuem sensibilidade; não têm um corpo, não têm órgãos do sentido, não têm reações fisiológicas nem alguma química cerebral que reagisse a estímulos. Como poderiam sofrer? Seriam eles algo como psicopatas incorpóreos e inalcançáveis? Será que sua queda, afinal, compensou?
Esta é a hipótese controvertida, agora, para provocar o debate: parece que os demônios não sentem nenhuma dor. São três os argumentos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento lembra, mais uma vez, os escritos de Santo Agostinho neste assunto. O nosso majestoso santo dizia que o Diabo tem poder sobre todos os seres humanos que desprezam os ensinamentos de Deus, e ele se alegra com este poder maldito. O argumento prossegue, afirmando que a alegria e a dor não podem conviver no mesmo indivíduo ao mesmo tempo; assim, se o Diabo tem alegria por sua condição, ele não poderia, simultaneamente, sentir dor, conclui o argumento.
O segundo argumento inicia lembrando a relação entre a dor e o medo. O medo é a dor quanto ao futuro, ou seja, é a reação contrária a uma situação que, embora ainda não esteja presente, vai causar dor quando acontecer. A dor é a reação a uma situação penosa presente, e o medo, a antecipação de uma situação penosa futura. São, portanto, alega o argumento, duas faces da mesma moeda, apenas com uma diferença cronológica. Mas as Escrituras, em Jó 1, 24, num versículo que descreve Leviatã (e sempre foi lido como referindo-se ao Diabo), diz que “Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada.” Portanto, conclui o argumento, se ele não sente medo, tampouco sente dor.
Por fim, o terceiro argumento lembra que a culpa é como um verme que rói a consciência de quem faz o mal, conduzindo-o de volta ao bem. Logo, sentir dor pelo mal praticado é algo bem. Mas, como foi visto no último artigo, os demônios não podem fazer o bem. Assim, aduz o argumento, neles não pode existir algo como uma consciência de culpa, que possa lhes roer em dor pelo mal que praticam; são, neste sentido, verdadeiros psicopatas, desconhecendo o mal da culpa. Portanto, conclui, eles não sentem dor.
O argumento sed contra busca a autoridade das Escrituras; ali, em Apocalipse 18, 7, falando sobre o pecado da Babilônia, diz-se: “Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos.” isto diz respeito ao pecado humano, que traz um deleite, mas tem como consequência a dor e o tormento. Ora, prossegue o argumento, o Diabo cometeu estes pecados num grau muito mais intenso do que os humanos, glorificando-se maximamente em seu orgulho. Logo, conclui o argumento, deve sofrer esta dor e este tormento num grau ainda maior do que os humanos.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás já inicia deixando muito claro que a dor, como também o temor, a alegria e outras emoções que sentimos, não podem existir nos demônios como existem em nós. Em nós, estas emoções são passionais, vale dizer, envolvem nossa sensibilidade, nossa corporeidade, e portanto não podem estar presentes em anjos e demônios do mesmo modo que estão em nós.
Mas há uma espécie de dor que é puramente espiritual; a dor de uma vontade contrariada. Esta, diz Tomás, pode existir (e existe maximamente, como veremos) nos demônios.
A dor, associada ao ato simples da vontade, ensina Tomás, acontece quando esta vontade se depara com a resistência da realidade, que não se dobra ao seu querer. A dor surge, nos demônios, quando as coisas que eles queriam que acontecessem não acontecem, ou quando as coisas que eles não queriam que acontecessem, acontecem.
Assim, esta dor pode existir por inveja, por exemplo. Quando alguém se salva, frustrando os planos de perdição que os demônios têm para ela, isto lhes é doloroso, porque atinge a sua inveja.
Assim, como crianças malcriadas que não conseguem lidar com a frustração, é próprio da pena limitar-lhes o poder da vontade, causando-lhes intensa dor por não poderem exercer seu poder como gostariam. E é esta a natureza de sua pena: sentir a dor da frustração, da inveja, e principalmente sentir a dor espiritual da eterna privação da bem-aventurança – que eles, conscientemente, desprezaram, mas que sua natureza criatural foi criada para alcançar.
Colocados, assim, os princípios que resolvem o debate, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.
A primeira objeção lembra a alegria que, segundo Santo Agostinho, os demônios sentem ao adquirir poder sobre aqueles que vivem no pecado, e conclui que, uma vez que a alegria e a tristeza não podem conviver simultaneamente no mesmo ser, os demônios não sentiriam dor, mas alegria em sua situação.
Tomás vai responder que, de fato, a dor e a alegria excluem-se com relação ao mesmo objeto; ninguém pode simultaneamente alegrar-se e entristecer-se pelo mesmo motivo. Mas nada impede que a alegria conviva, no mesmo ser, com a tristeza causada por outro motivo. Alguém pode, perfeitamente, alegrar-se com uma coisa e entristecer-se com outra, ou mesmo alegrar-se e entristecer-se com aspectos diversos da mesma coisa, como no caso da morte de uma pessoa muito má, mas muito próxima. Neste caso, diz Tomás, a alegria e a tristeza, para os demônios, são realidades espirituais relacionadas com o sucesso ou o insucesso que eles têm em fazer prevalecer sua vontade maléfica, com relação aos atos simples que desejam ou que pretendem impedir.
O segundo argumento diz que o medo é a previsão de dor no futuro, e a dor é o sofrimento presente. Assim, quem não sente medo é porque não sente dor, e vice-versa. Mas as Escrituras dizem que os demônios não tem medo; logo, conclui o argumento, tampouco têm dor.
Tomás não concorda. De fato, o que esta passagem de Jó quer nos mostrar é que falta ao Diabo o santo temor de Deus, que consiste no receio de desagradá-lo, de perder a amizade divina por proceder mal, e que é uma virtude própria dos que se salvam. Os demônios sentem dor, pelos motivos já expostos. Também sentem medo, como atesta Tiago 2, 19, e tremem sob o poder de Deus, que eles veem como poderoso adversário capaz de subjugá-los.
Por fim, o último argumento fala da dor da culpa, de uma consciência pesada pelo mal. Ora, diz o argumento, os demônios vivem no mal e se comprazem nele, logo não devem sentir remorso. Disso, o argumento conclui que não sentem dor.
Para sentir remorso, diz Tomás em sua resposta, é preciso que haja uma oposição entre uma má conduta e uma vontade inclinada, na devida ordem, para o bem. Ora, os demônios não têm uma vontade ordenada para o bem; mas sua vontade está fixada no mal. Assim, não existe, neles a tensão entre o fazer o mal e querer o bem que caracteriza o remorso. Eles, de fato, não têm esta dor. São verdadeiros psicopatas espirituais, desconhecendo o remorso.
No entanto, o mal da pena consiste numa tensão entre um bem natural, por um lado, e uma limitação ou privação, por outro. Os demônios têm uma natureza inteligente e uma vontade correspondente; isto lhes foi dado por Deus, e, portanto, é bom. Quando eles se subtraíram da submissão à ordem divina, passaram a experimentar os limites, frustrações e invejas pelo fato de que as coisas não saem como eles querem.
É a dor do castigo, diferente da dor do remorso. O castigo fere a natureza, o remorso fere a consciência. O querer, que é um certo bem como faculdade, perverteu-se neles e obstinou-se no mal. Assim, a dor da pena é um contraste com sua natureza, não com sua consciência (pervertida). Sua vontade má e irremediável não sente culpa; mas sente a frustração. Intensamente. Graças a Deus.
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