Nos textos anteriores, colocamos a hipótese controvertida e os argumentos objetores a respeito da polêmica que envolve a possibilidade de que os demônios viessem a arrepender-se do mal e passassem a trilhar o caminho do bem. Vimos que esta possibilidade não existe, porque os anjos não têm uma inteligência volúvel como a nossa. E também porque, após a perdição final ou o atingimento da bem-aventurança final, não há mais a possibilidade, nem para humanos nem para anjos, de mudar de posição.
Estabelecidos estes princípios, São Tomás passa a reexaminar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que o livre arbítrio é intrínseco à criatura inteligente, e que a inclinação natural ao bem caracteriza o livre arbítrio. Ora, se os demônios são criaturas inteligentes, conclui o argumento, então devem poder ainda escolher o bem, e não estariam retidos eternamente no mal.
É verdade que os santos anjos ainda retêm o livre arbítrio, assim, como os demônios, mas ao modo de sua constituição, lembra Tomás; vimos na resposta sintetizadora que esta escolha por Deus ou contra Deus é definitiva, para eles, assim como todas as escolhas que fazem, depois de feitas, ou para nós, humanos, depois da morte. Isto não significa que, uma vez que continuam a relacionar-se com o universo criatural e contingente, eles não possam eleger entre coisas singulares, quando procuram atingir seus objetivos. Mas arrepender-se está além da sua natureza e da sua condição.
O segundo argumento recorre à ideia da misericórdia infinita de Deus. Ela é maior do que o pecado dos demônios. Ora, uma vez que a conversão depende sempre da misericórdia de Deus, nada impediria, conclui o argumento, que ele fosse misericordioso com os demônios e os conduzisse de volta ao bem.
Tomás responderá simplesmente que a misericórdia de deus conduz ao bem aqueles que se arrependem e penitenciam-se do seu pecado. Mas os anjos, pela natureza mesma da sua inteligência, não se arrependem, porque sabem completamente e de antemão tudo o que envolve a sua escolha. Assim, eles jamais se submeterão à misericórdia divina, não por um limite da misericórdia divina, mas por uma característica própria dos demônios.
O terceiro argumento diz que, se os demônios ficam com a vontade fixada no mal, isto se dá em razão do pecado do orgulho, pelo qual caíram. Ora, uma vez que caíram, são privados da perfeição que poderiam ter atingido se não caíssem, e a sua queda mesma tira deles a possibilidade de que possam continuar a arrogância pela sua anterior perfeição. Assim, uma vez que sumiu a causa da sua soberba, que era a sua excelência natural, depois da queda, não haveria razão para que sua vontade não pudesse experimentar uma conversão e se voltasse ao bem, conclui o argumento.
O pecado não obstina somente quando pode ser consumado ou atingido, diz Tomás, em resposta. A obstinação no pecado decorre da natureza da escolha que os demônios fizeram, e não de que o seu fim permaneça ou não atingível, ou mesmo que suas motivações permaneçam ou não presentes. Tomás faz uma analogia: alguém que odiasse profundamente outra pessoa poderia ter a vontade de matá-lo, e esta inclinação homicida poderia permanecer mesmo que o sujeito estivesse preso ou até mesmo se o desafeto viesse a morrer antes que o autor pudesse executar seu intuito. Assim, o argumento não prova que os demônios pudessem deixar de ser orgulhosos em razão do rebaixamento que sofrem pela própria queda. Consequência, aliás, que eles conheciam de antemão.
O quarto argumento cita São Gregório, que ensinava que, uma vez que o ser humano caiu por causa de outro, a redenção dos seres humanos também poderia vir por causa de outro, vale dizer, Nosso Senhor nos pode resgatar da queda que o Diabo nos causou. Ora, prossegue o argumento, os demônios, como já vimos, caíram por causa do Diabo, que os arrastou. Logo, conclui, nada impediria que fossem resgatados e se convertessem ao bem.
De fato, o ser humano caiu por causa de outro. E a redenção vem por outro, admite Tomás. Mas não é só por isto que o ser humano é redimido por outro. De fato, a redenção está relacionada com a natureza falível, processual, da inteligência humana, com a natureza sensível de suas paixões, com a mutabilidade de suas decisões, tudo isto é causa de que Jesus tenha vindo nos redimir, causa muito mais direta do que a circunstância de ter caído por outro. Assim, o argumento não pode ser aplicado aos demônios.
Por fim, o quinto argumento lembra que as Escrituras, algumas vezes, atribuem aos demônios atitudes que podem ser tidas como boas; cita Tiago 2, 19 (os demônios creem em Deus e tremem) e Marcos 1, 24 (em que um demônio declara a Jesus: “tu és o santo de Deus”). Também lembra que o Pseudo-Dionísio atribui a eles quererem o bom e o ótimo. Assim, o argumento conclui que a vontade dos demônios não está fixada no mal.
Tomás vai lembrar que a própria expressão “ato do demônio” possui uma ambiguidade.
Num sentido estrito, chamam-se atos do demônio aqueles atos deliberados que decorrem de sua vontade demoníaca. Neste caso, em sua vontade distorcida nunca pode haver o direcionamento para o bem, essencialmente falando. Mas acidentalmente a vontade dos demônios pode desejar e até fazer o bem, mas ele nunca faz o bem pelo bem. Ele pode, por exemplo, dizer a verdade para enganar ou destruir, por exemplo, incitando a um crime. Ou então fazê-lo compelido pelos fatos, ou mesmo para expor um segredo que não deveria ser revelado ainda, como na oportunidade em que anuncia que Jesus é o “santo de Deus”, compelido a retirar-se pelo poder de Jesus.
Pode-se também compreender como “atos do demônio” aqueles fatos que, embora procedam dele, não decorrem de sua vontade, mas da própria natureza das coisas, como o fato de que os demônios têm conhecimento da majestade divina e tremem sob ela, mesmo contra sua vontade, como está registrado em Filipenses 2, 10: ao nome de Jesus todo joelho se dobra, no Céu, na Terra ou abaixo da Terra. Esta atitude de submissão não decorre de alguma vontade boa dos demônios, mas da bondade da natureza divina, que é criador da natureza angélica boa que possuem pelo mero fato de existir, e a cujas consequências eles não podem furtar-se.
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