A vontade dos demônios está fixada no mal? Primeira parte, questão 64, artigo 2, parte 2 de 3.
No último texto, introduzimos o debate a respeito da imutabilidade da vontade dos demônios, fixada no mal. Vimos os cinco argumentos objetores, que envolviam a possibilidade de que eles viessem a querer o bem, e portanto pudessem converter-se, mesmo após a queda, e, por fim, o argumento sed contra, no sentido de que as Escrituras atestam que eles estão mesmo presos irremediavelmente no mal, para sempre.
Na sua resposta sintetizadora, que começamos a examinar, Tomás nos recordou a doutrina equivocada de Orígenes, que ensinava, de modo errôneo, que, até o final dos tempos, todas as criaturas permanecem capazes de inclinar-se tanto para o bem quanto para o mal, exceto, é claro, Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja alma humana estaria fixada no bem. Assim, para Orígenes, os demônios poderiam converter-se, mesmo após caírem, como um santo poderia cair, mesmo após morrer. Esta opinião equivocada parte de uma falsa noção de liberdade, que a compreende como incluindo sempre a possibilidade de transitar entre o bem e o mal. Se a liberdade fosse isto, então Deus, que, por definição é o bem supremo, simples e sem mistura de mal, não seria livre. O livre arbítrio, como capacidade de fazer e perseguir o bem sob o risco de escolher o mal, não é um fim em si mesmo, mas apenas o instrumento da criatura de natureza pessoal para atingir o bem por suas próprias forças, livremente. Eis porque, uma vez que a criatura chega ao bem supremo, que é Deus, já não tem razão para escolher o mal.
E é neste sentido que vai a resposta de São Tomás.
A bem-aventurança final é um estado de perfeita felicidade, lembra São Tomás. É exatamente por isto que se chama “vida eterna”: não se trata simplesmente de uma vida semelhante à que vivemos aqui, mas com duração interminável; a vida dos réprobos também é assim. Trata-se de uma vida plena, repleta de felicidade e prazer, e portanto sem espaço para o mal, para a carência, para a imperfeição, para o desamor. E sem a possibilidade de perda desta felicidade.
Também o testemunho das Sagradas Escrituras vão no sentido de que os maus vão para o suplício eterno, enquanto os justos entram na vida eterna (Mt 25, 46).
Assim, qualquer opinião no sentido de que é possível transitar da condenação eterna para a vida eterna deve ser condenada, repudiada como falsa perante a fé verdadeira e universal. A verdade é que os santos Anjos estão eternamente no bem, na felicidade, enquanto os demônios, após a queda, têm sua vontade confirmada e fixada no mal. Não há possibilidade de mudança para esta realidade. É o que se depreende, inclusive, da passagem de Lucas 16, 26: “Além de tudo, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui para vós não o podem, nem os de lá passar para cá”.
Trata-se, pois, muito mais de um estado do ser do que de uma obstinação de vontade que pudesse ser vencida, ou mesmo de uma sanção pela gravidade da culpa que levou à queda. De fato, há uma situação em que a criatura é levada a escolher por Deus ou contra ele, e outra em que ele vê encerrada esta possibilidade, e deve encarar a consequência de sua escolha. No caso dos seres humanos, esta oportunidade ocorre até a morte: enquanto é um caminhante nesta vida, o ser humano está na história e pode escolher. Morto, sai da história e deve lidar com as consequências, agora imutáveis, das escolhas que fez. No caso dos anjos, este marco é a queda, no caso daqueles que escolhem contra Deus, ou a glorificação, no caso dos que escolhem a santidade. Nos dois casos (a morte dos seres humanos, a queda dos anjos), marcada está a imutabilidade da situação. Esta situação, portanto, não representa uma resposta à culpa, mas é da natureza das coisas. Tomás nos mostra, em seguida, a razão.
Cada ser, diz Tomás, tem um modo de apreensão e uma inclinação proporcional a ele. Os vegetais, por exemplo, são simplesmente reativos: crescem no sentido do sol, lançam suas raízes no sentido da água e assim por diante.
O apetite que se relaciona com a sensibilidade animal aponta sempre para o bem particular que o animal identifica com os órgãos dos sentidos. Ou seja, são os sentidos que fornecem ao apetite do animal que há, ali, um bem concreto para o qual ele deve inclinar-se. Ele vê a presa, sente seu cheiro, ou mesmo toca-a, e imediatamente seu apetite se inclina até ela.
Nas criaturas dotadas de inteligência, existe uma apreensão que ultrapassa os limites do sensível, do concreto, do individual. A inteligência é capaz de avaliar seu objeto sob diversos aspectos, e apresentá-lo à vontade para que se incline ou não a ele. Assim, digamos, um ser humano faminto pode ter seu olfato atraído pelo cheiro de um alimento saboroso, mas pode escolher não se alimentar por motivos, digamos, religiosos ou mesmo estéticos. Isto porque o bem, para o ser inteligente, apresenta-se sempre sob uma riqueza de aspectos, de modo universal, e não simplesmente particular.
No caso dos seres humanos, dispomos de todo o aparato sensorial dos animais, já que somos animais. E dispomos de intelecto, como os anjos. Mas nosso intelecto é uma folha em branco, uma tabula rasa, como diziam os antigos. Assim, nós somos capazes de intuir intelectualmente os primeiros princípios sem passar por um processo de aprendizagem (e até como pressuposto do processo de aprendizagem). Quando nos deparamos com o mundo, compreendemos logo que as coisas são o que são, e não podem ser e não ser ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto. Todas as outras coisas, as que dependem de um exame empírico, são aprendidas por nós sucessivamente, de modo experimental.
No caso dos anjos, não existe este processo de aprendizagem. De modo similar àquele pelo qual nosso intelecto humano chega aos primeiros princípios, o intelecto dos anjos está provido de todo o conhecimento de fato que o anjo precisa. Eles não aprendem, porque simplesmente já sabem de tudo.
Isto tem uma enorme influência no modo pelo qual os seres humanos exercem seu livre arbítrio, por um lado, e os anjos o exercem, por outro.
O seres humanos aprendem. Assim, quando escolhem, estão sempre sujeitos a descobrir algo que antes não sabiam, e mudar de ideia. A escolha do ser humano, mesmo quando informada, não decorre de uma inteligência capaz de ponderar simultaneamente todas os pressupostos e todas as consequências de uma conduta, ou seja, mesmo quando bem informado, um ser humano é sempre capaz de fazer uma ponderação diferente e mudar de opinião. A escolha, portanto, do ser humano, é sempre precária, mutável, passível de reconsideração. Isto em razão da deficiência intelectual que o caracteriza.
No caso dos anjos, uma vez que sua inteligência já dispõe, naturalmente, de todo o conhecimento que ele pode ter sobre todos os pressupostos, todas as circunstâncias e todas as consequências de suas escolhas, sem precisar de nenhum processo de aprendizagem, a escolha que ele faz é sempre completa, definitiva. Assim, antes de escolher, seu livre arbítrio pode, de fato, tender para uma coisa ou seu contrário, nas coisas contingentes; mas, uma vez que ele escolhe, não há nada que ele possa descobrir, depois, que já não soubesse antes. Portanto, exercido seu livre arbítrio, o anjo o esgota, e já não muda de opinião, não se arrepende nem reconsidera, simplesmente porque não há nada que possa a vir causar essa mudança.
Assim, quando os anjos escolhem por Deus, fazem-no definitivamente. Do mesmo modo, quando o renegam, fazem sabendo de tudo o que envolve esta escolha, e não há mais espaço para mudança. Esgotou-se a oportunidade, esgotou-se o evento. Quanto aos humanos, porém, há espaço para a mudança, para o arrependimento, até a morte; após a morte, diz Tomás, é um assunto que discutiremos num momento posterior.
No próximo texto, veremos as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.
Deixe um comentário