Para nós, humanos que estamos ainda caminhando aqui na Terra, parece difícil imaginar uma vontade capaz de tomar decisões plenas, definitivas e irrevogáveis, que sejam capazes de avaliar todas as consequências e circunstâncias e que, portanto, não deem margem a arrependimentos ou necessidade de alteração. Mas a natureza dos anjos é diferente da nossa: eles não hesitam, não deliberam, e quando escolhem, fazem-no de uma vez por todas.

No caso dos demônios, mais difícil ainda de conceber: esta escolha definitiva é uma escolha contra Deus. É difícil imaginar que eles não possam, mais, sofrer nenhuma atração pelo bem que é Deus, ou que não venham a avaliar melhor e mudar de opinião. Que nunca possa arrepender-se ou pedir perdão. Aliás, é exatamente esta a hipótese controvertida, aqui: eles poderiam, sim, mudar de opinião, converter-se, mesmo depois da queda, e voltar-se para o bem. Ou seja, a queda não fixaria a vontade dos anjos no mal. São cinco os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento lembra que, no debate do artigo anterior, estabelecemos que a inteligência dos demônios permanece íntegra, mesmo após a queda. Ora, é próprio à natureza dos seres intelectuais que eles sejam providos de liberdade, quanto à capacidade de escolher; vale dizer, todos os seres naturalmente inteligentes são também naturalmente dotados de livre arbítrio, diz o argumento. E conclui que os demônios não podem ter a vontade fixada no mal, se eles retêm o livre arbítrio.

O Segundo argumento inicia lembrando que a misericórdia de Deus é infinita, e portanto não pode ser superada pela maldade dos demônios, que é limitada. Ora, diz o argumento, é pela misericórdia de Deus que alguém sai do mal, do pecado, e volta ao caminho da santidade. Mas se esta misericórdia é infinita, nem mesmo os demônios estariam excluídas dela; assim, o argumento conclui que os demônios não estão presos no mal, mas podem conhecer a conversão e voltar ao bem, pela misericórdia infinita de Deus.

O terceiro argumento lembra que o pecado fundamental dos demônios foi o orgulho. Ora, se a vontade dos demônios estiver fixada no mal, isto significa que eles estão presos em seu orgulho. Mas, com a queda, eles perderam aquilo que os destacava, que era a grandeza criatural na ordem do bem. Assim, já não têm motivo para o orgulho, e podem, portanto, mover sua vontade do mal para o bem. Portanto, eles não estão com a vontade presa no mal, conclui o argumento.

O quarto argumento cita São Gregório, que, sobre a redenção humana, dizia: a redenção do ser humano por outro (referindo-se a Jesus) é possível, já que, uma vez que a queda deu-se por outro (a influência da Serpente no Paraíso), também a redenção pode dar-se assim. Ora, prossegue o argumento, os demônios caíram seguindo o Diabo, que pecou primeiro. Logo, se os demônios foram levados a cair por outro, a eles também se aplicaria o raciocínio de que poderiam ser redimidos por outro. Logo, conclui o argumento, os demônios não estão fixados no mal, de modo a excluir-se da possibilidade da conversão ao bem.

Por fim, o quinto argumento diz que aquele que está com a vontade fixada no mal jamais pode praticar uma obra boa. Mas as Escrituras registram os demônios declarando que Jesus é o Santo de Deus (Mc 1, 24), ou ainda que os demônios creem em Deus e estremecem (Tiago 2, 19). Além disso, o próprio Pseudo-Dionísio declara que os demônios desejam o que é bom e ótimo, ou seja, ser, viver e conhecer. Assim, o argumento conclui que os demônios não têm a vontade obstinada no mal.

O argumento sed contra cita a autoridade das Escrituras, que, no Salmo 73, 23, registra, falando do ódio que os demônios têm de Deus e de Sua santidade: “Não vos esqueceis os insultos de vossos adversários, e o tumulto crescente dos que se insurgem contra vós”. Desta citação, o argumento extrai a conclusão de que os demônios estão fixados obstinada e irremediavelmente no mal.

Na sua resposta sintetizadora, Tomás vai recordar a doutrina equivocada de Orígenes, que ensinava, de modo errôneo, que, até o final dos tempos, todas as criaturas permanecem capazes de inclinar-se tanto para o bem quanto para o mal, exceto, é claro, Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja alma humana estaria fixada no bem. Assim, para Orígenes, os demônios poderiam converter-se, mesmo após caírem, como um santo poderia cair, mesmo após morrer. Mas esta opinião é falsa, diz Tomás.

Descobriremos a razão no próximo texto.