Vimos, então, na resposta sintetizadora de São Tomás, que os demônios não perderam sua enorme capacidade intelectual, nem os grandes conhecimentos sobre a criação. São capazes de ter conhecimentos revelados sobre fatos divinos, ou mesmo de perceber e deduzir sobre a atuação de Deus na história, mas já não são mais capazes de conhecer Deus, no sentido de estabelecer com ele uma relação afetuosa (no mesmo sentido em que dizemos que um amigo conhece outro).
Após estabelecer estes princípios, é hora de revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que eles perderam até a capacidade de conhecer naturalmente, já que conhecer-se a si mesmos e aos outros anjos como substâncias separadas seria um sinal de bem-aventurança, conforme alguns teólogos e filósofos antigos; ora, prossegue o argumento, nada que tenha a ver com felicidade ou bem-aventurança pode estar presente nos demônios. Logo, conclui que eles não possuem mais sequer estes conhecimentos naturais verdadeiros.
A bem-aventurança consiste em atingir aquilo que é naturalmente superior à criatura, diz Tomás. Assim, como o conhecimento dos seres imateriais, ou seja, das substâncias separadas, é algo naturalmente superior à capacidade humana de conhecer, pode haver, aí, um indicativo de bem-aventurança (embora, a rigor, a bem-aventurança em sentido próprio decorra de vir a conhecer Deus, e não simplesmente de conhecer os anjos). Mas, para os seres angelicais, como os Santos Anjos e os demônios, o autoconhecimento e o conhecimento das outras criaturas imateriais, ou seja, das substâncias separadas, é natural, e portanto, para eles, não tem razão de bem-aventurança. Assim, o argumento não procede.
O segundo argumento afirma que nosso intelecto humano não pode vir a conhecer Deus diretamente por uma deficiência nossa, por fraqueza de uma inteligência que depende demais das coisas materiais para atingir o conhecimento. Nossa inteligência humana, pois, estaria para a inteligibilidade de Deus como os olhos da coruja estão para o sol: o seu brilho divino é excessivo para nossa faculdade limitada, e por isto não conseguimos vê-lo, como o brilho do sol é excessivo para os olhos da coruja. Mas a capacidade intelectual dos anjos não é assim: eles não dependem da mediação da matéria para conhecer; por isto, a luz da inteligibilidade de Deus não pode ser excessiva para eles. Os anjos, por sua capacidade intelectual natural, devem ver a Deus diretamente, diz o argumento. No entanto, prossegue o argumento, a queda dos anjos maus tem como consequência que eles tenham se afastado de Deus, rejeitando-o. Ora, se eles perdem a capacidade de ver a Deus, que antes tinham, então é de se concluir, diz o argumento, que houve um escurecimento do seu intelecto, e eles já não são capazes de conhecer a verdade.
Na sua resposta, Tomás dirá que, de fato, a inteligibilidade divina é total e manifesta num grau supremo. Mas não pode ser diretamente conhecida por nós, humanos, porque ultrapassa infinitamente a nossa capacidade de conhecer. Assim, não é só porque a inteligência humana depende da sensibilidade e da imaginação (fantasia, fantasmas) para funcionar, que ela não pode conhecer a Deus diretamente; isto se dá porque a inteligibilidade divina supera a capacidade de qualquer intelecto criado, seja humano, seja angelical. Para qualquer criatura, portanto, aquela analogia da coruja que não consegue ver o sol, por excesso e não por falta de luminosidade, é aplicável.
Ora, ainda assim, nós humanos temos um conhecimento indireto, derivado, deduzido, de Deus, pela contemplação das coisas criadas, como vimos na questão 2 desta primeira parte da Suma. E este conhecimento não deriva de revelação, mas é natural. Ora, uma vez que o intelecto dos anjos é mais perfeito que o nosso, mais poderoso em forças naturais, para eles é ainda mais fácil e mais amplo obter o conhecimento natural, derivado, sobre Deus e sua existência, pela contemplação da criação. Mas nem os anjos são capazes de, apenas pelas forças de sua natureza, contemplar Deus diretamente, em sua essência. Esta é uma graça que apenas os Santos Anjos obtêm, depois de glorificados.
Assim, os demônios não perdem a sua capacidade intelectual elevadíssima, mesmo quanto ao conhecimento natural de Deus, ainda que a sua queda lhes tenha tirado a pureza que permite a avaliação reta deste conhecimento. Dado, no entanto, o fato de que sua natureza permanece tal como saiu das mãos de Deus, podemos afirmar que existe, neles, uma bondade natural derivada do fato de serem criaturas de Deus apesar da queda, que lhes permite ainda manter este conhecimento natural de Deus; que, aliás, está documentado nas Escrituras, na Carta de São Tiago, 2, 19.
O terceiro argumento objetor lembra a classificação do conhecimento angélico em vespertino, ou seja, aquele que tem relação com o contato direto entre o anjo e as demais criaturas, e o matutino, que resulta da visão beatífica que os santos Anjos têm a partir do Verbo divino.
Mas, prossegue o argumento, mesmo o conhecimento vespertino envolve alguma luz, como a tarde guarda ainda alguma luz do dia. Ora, esta luz decorre de que o conhecimento natural angélico refere as coisas a Deus. Mas os demônios, após a queda, não referem nada a Deus. Logo, não podem ter nem sequer a luz do conhecimento vespertino. Disto o argumento conclui que não há conhecimento da verdade dentre os demônios.
Sim, de fato o conhecimento vespertino ainda envolve uma referência a Deus, ainda guarda em si alguma luz divina; de fato, em si mesmas, as criaturas não têm luz, são pura escuridão. Toda a sua luz decorre de referirem seu conhecimento a Deus. Por isto, não é que o conhecimento dos demônios não exista; eles o guardam, como conhecimento natural, mas distorcido, referido apenas a si mesmos, e por isto este conhecimento, após a queda, é chamado de conhecimento noturno, tenebroso, porque já não guarda nenhuma referência a Deus. Mas existe.
O quarto argumento lembra que santo Agostinho ensinava que os anjos, ao serem criados, já conheceram o mistério do Reino de Deus. Mas o argumento cita 1Cor 2, 8, que afirma que se conhecessem o Senhor da Glória, nunca chegariam a crucificá-lo. Ora, disto, o argumento conclui que os demônios foram privados destes conhecimentos, já que Jesus foi, de fato, crucificado. Logo, o argumento conclui que a queda dos anjos eliminou o conhecimento da verdade que tinham.
Não há dúvida de que os anjos conheceram, desde o princípio, o mistério do reino de Deus, a ser realizado por Cristo. Mas o conhecimento pleno deste mistério somente os Santos Anjos adquiriram, pela sua glorificação na bem-aventurança final. Mas os demônios rejeitaram esta glorificação final.
Ora, prossegue Tomás, pode-se afirmar que, por conhecimento natural, nenhum anjo, mesmo antes da queda, tinha o conhecimento perfeito e completo dos mistérios da encarnação e da redenção em Jesus Cristo. Aos santos Anjos este conhecimento deu-se na glória, e aos demônios foi revelado indiretamente, pelos seus efeitos concretos, até para que eles pudessem tremer perante Jesus. Mas eles nunca tiveram o pleno conhecimento de Jesus, sua natureza e missão, diz Tomás. Se o tivessem, certamente teriam tentado impedir seu desfecho, que foi tão salutar aos seres humanos. Certamente, se soubessem de antemão o que significava a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, tentariam realmente impedir que estes mistérios viessem a consumar-se, e não avançariam para participar da crucifixão do Rei da Glória.
Por fim, o quinto argumento lembra que, quando se conhece alguma verdade, isto se dá por intuição, que é a iluminação natural do intelecto, como no caso dos primeiros princípios (identidade, não contradição, etc), por aprendizagem (recebendo o conhecimento de um mestre, por exemplo) ou por experiência empírica, com a exploração do objeto a ser conhecido. Ora, os demônios não podem ser iluminados porque rejeitaram a luz, não podem ser ensinados porque os bons e santos Anjos, que poderiam ser seus mestres, não têm comunicação colaborativa com eles, nem podem aprender por experimentação porque não têm os órgãos dos sentidos. Disto o argumento conclui que o conhecimento da verdade está além do alcance dos demônios.
Tomás responde que os demônios conhecem a verdade por três meios: 1) pela luz natural da sua própria constituição angélica, que eles não perderam com a queda, e que já é equipada com um intelecto poderosíssimo devidamente instruído com o conhecimento natural da criação; 2) pelo intercâmbio com outros anjos, mesmo os Santos Anjos, que, mesmo em combate, transmitem informações aos demônios, ainda que para vencê-los; e 3) pela experiência, ainda que não seja uma experiência sensorial. De fato, os demônios não são capazes de prever o futuro, mas são capazes de acompanhar a história e reconhecer eventos (como a ressurreição, a glória da Santa Igreja, a santidade de tantos humanos) e mesmo estabelecer padrões e repetições, que os tornam capazes de antecipar acontecimentos e mesmo quase que prever o futuro, com a experiência das coisas passadas. Um velho conhecido costumava dizer que uma das razões pelas quais o Diabo é mais sabido do que nós é que ele é mais velho, e já viu muita coisa acontecer. Assim, não podemos subestimar a enorme inteligência dos demônios, e certamente a sua pena não afetou esta inteligência, no seu poder natural.
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