Neste artigo, começamos a discussão sobre aquilo que é a pena dos demônios, ou seja, as consequências que eles sofrem pelo fato mesmo de terem escolhido radicalmente contra Deus.
O primeiro debate diz respeito às consequências da queda quanto à inteligência, ou seja, quanto à capacidade que os demônios têm de conhecer.
Há um primeiro fator capaz de gerar confusão e ambiguidade, e assim dificultar o esclarecimento da questão debatida: é quando os termos do debate estão marcados pela imprecisão do assunto debatido. Este é o caso, aqui, diz Tomás, logo no princípio de sua resposta sintetizadora. A noção de “conhecimento da verdade” tem mais de um sentido, que importa distinguir bem, para encaminhar adequadamente o debate.
De fato, há um conhecimento natural (1), que pertence ao mundo criado e diz respeito às criaturas e suas relações.
Há um outro conhecimento que vem pela graça; é o conhecimento revelado (2). Este também se subdivide em revelação especulativa (2.1) e revelação afetiva (2.2). Chamamos de conhecimento revelado aquele especialmente concedido por Deus, com relação à sua intimidade, seus segredos, seus planos. O conhecimento especulativo (2.1) é aquele pelo qual Deus concede ao sujeito o conhecimento de algo sobre sua intimidade, seus segredos ou seus planos. Ou seja, é um conhecimento de alguma coisa sobre Deus. Por fim, o conhecimento revelado afetivo (2.2) é aquele que estabelece uma relação do sujeito com Deus, vale dizer, aqui Deus não revela alguma coisa, mas revela-se a si mesmo, ou seja, dá-se pessoalmente a conhecer e estabelece uma amizade com a criatura.
O conhecimento natural dos anjos não foi suprimido, nem sequer alterado ou reduzido, pela queda. Eles continuam dotados de um intelecto poderosíssimo, que envolve um perfeito autoconhecimento e um conhecimento completo de toda a criação, tão mais profundo quanto mais elevado for o anjo. A queda, que os fez demoníacos, não diminuiu em nada esta capacidade.
Quanto ao conhecimento revelado, o conhecimento revelado especulativo é diminuído nos demônios; de fato, ele não ocorre mais ordinariamente. Ou seja, os demônios já não têm acesso às informações sobre Deus de modo ordinário, mas extraordinariamente Deus pode revelar algo dos seus planos a eles, quando isto é conveniente aos próprios planos. De fato, não somente os demônios são capazes de contemplar as coisas de Deus ocorrendo, como quando testemunharam os milagres e a ressurreição de Jesus, como, algumas vezes, recebem a permissão divina para agir, como, por exemplo, na passagem de Atos 19, 15, quando, em resposta aos filhos de um sacerdote judeu (que tentavam exorcizar demônios em nome de Paulo, sem no entanto converter-se), o demônio lhes disse: “Conheço Jesus e sei quem é Paulo. Mas vós, quem sois?”.
As revelações informativas, ou especulativas (2.1), portanto, podem alcançar os demônios. Mas não do mesmo modo que alcançam os Santos Anjos; a estes, ocorre por afinidade, por amizade. Aos demônios, por acidente, extraordinariamente.
Por fim, o terceiro tipo de conhecimento da graça, a revelação pessoal, substancial, afetiva, de Deus (2.2), desta os demônios ficam absolutamente privados. Não podem estabelecer nenhuma relação de amizade, de convívio, com Deus, nem, consequentemente, podem viver a caridade para com as outras criaturas. Pois a caridade nada mais é do que o próprio amor de Deus derramado nos corações das criaturas que estão em amizade com ele. Ou seja, das que recebem a graça por esta última maneira, vale dizer, daqueles que estão numa relação de conhecimento existencial, sapiencial, com Deus.
E é isto em que consiste, propriamente, a sabedoria: não em deter informações sobre Deus, mas em conhecê-lo como um amigo conhece outro. E esta é a diferença entre o cristianismo, em que somos convidados à amizade com Deus, por Jesus (João 15, 15), e os gnosticismos, nos quais a salvação é prometida em razão do acúmulo de conhecimento especulativo. O cristianismo não é um gnosticismo, como nos lembra o Papa Francisco no capítulo 2 da exortação Gaudete et Exsultate, sobre a santidade.
Havendo, pois, estabelecido estes princípios, Tomás passa a reexaminar os argumentos objetores iniciais. Iremos a eles no próximo texto.
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