Deus é a verdade. A queda dos demônios, pelo pecado, priva-os de Deus. Em que medida, então, isto prejudica o conhecimento dos anjos?
Na questão anterior, os debates versaram sobre o pecado dos anjos. O debate, agora, girará em torno das consequências deste pecado, ou seja, nos efeitos da queda. Ou, para falar mais teologicamente, quais seriam as penas dos demônios, por terem rejeitado a Deus. É preciso pensar, aqui, nas penas muito mais como consequências da rejeição a Deus do que como atitudes impositivas de Deus, como se ele de algum modo castigasse os demônios ainda mais do que a própria rejeição do amor supremo já castiga. Assim, estas penas são muito mais consequências do que punições ativas. São, no entanto, terríveis, tanto no sentido de que são pesadíssimas, quanto no sentido de que os demônios sabiam delas quando optaram contra Deus.
A hipótese, aqui trazida para provocar o debate, neste primeiro momento, é a de que uma dastas consequências (ou penas) seria a de que a queda obscureceu a inteligência dos anjos, ao tornarem-se demônios, de tal modo que eles ficaram privados do conhecimento da verdade, mesmo quanto ao conhecimento natural. Em resumo, os demônios teriam ficado desorientados em seus conhecimentos naturais, e já não teriam acesso à verdade sobre as coisas criadas.
Há cinco argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento diz que, se os demônios tivessem ainda acesso ao conhecimento natural verdadeiro, mesmo depois de sua queda, eles teriam, antes de mais nada, o autoconhecimento. Mas, segundo o argumento, o autoconhecimento implicaria que eles seriam capazes de conhecer a si mesmos como substâncias separadas da matéria, seres puramente espirituais. Ora, prossegue o argumento, muitos filósofos e pensadores consideram que conhecer as substâncias separadas é sinal de grande felicidade, a ponto de terem ensinado que esta seria a marca da bem-aventurança plena e final, vira a adquirir o conhecimento dos seres puramente espirituais. Mas ocorre que não se pode pensar que os demônios possam estar num estado qualquer de bem-aventurança, após terem rejeitado Deus. Asim, não se pode admitir que eles possam ter algum conhecimento verdadeiro deste tipo, conclui o argumento.
O segundo argumento diz que os anjos e os demônios, por sua natureza mesma, podem conhecer tudo aquilo que é inteligível, isto é, tudo aquilo que se apresenta ao conhecimento com inteligibilidade manifesta. Seu intelecto não tem limites, quanto ao objeto de conhecimento que se apresenta a eles.
Mas os seres humanos não têm a mesma capacidade de inteligência que os anjos, porque a nossa inteligência é inferior, e não consegue apreender determinadas coisas, não porque elas sejam pouco inteligíveis em si mesmas, mas porque sua inteligibilidade é tão intensa que ultrapassa a capacidade do intelecto humano, como a luz do sol ultrapassa a capacidade dos olhos do morcego. Assim, precisamos que os objetos de conhecimento que se apresentam a nós sejam sensíveis, possam ser captados por nossos sentidos, de modo a formar em nós uma imagem na imaginação (phantasmata) que nos permite extrair a sua inteligibilidade. Assim, alguns seres altamente inteligíveis, mas imateriais, ultrapassam a nossa capacidade humana de conhecimento direto, como os próprios anjos e Deus.
Sendo assim, os anjos não têm este limite para conhecer o próprio Deus; eles não dependem da captação das imagens sensíveis, em seu processo de conhecimento; logo, a inteligibilidade de Deus é manifesta para eles. Mas os demônios, ao caírem, perderam a capacidade de enxergar Deus intelectualmente. Mesmo porque, para enxergar Deus, é preciso uma pureza que o pecado lhes fez perder. Ora, isto só pode ter se dado pelo escurecimento de seu intelecto, que perdeu a capacidade de conhecer. E se isto escureceu seu intelecto para conhecer Deus, que é a verdade suprema, também escureceu para qualquer verdade, ferindo, em sua natureza mesma, a capacidade de ter conhecimentos verdadeiros, conclui o argumento.
O terceiro argumento lembra que, no intelecto dos anjos, há duas formas de conhecer, que Santo Agostinho chama de “conhecimento matutino” e “conhecimento vespertino”. Ora, prossegue o argumento, o conhecimento chamado de “matutino” envolve a capacidade de conhecer as coisas tais como elas são no próprio Verbo divino; este conhecimento, portanto, é inexistente nos demônios, porque eles rejeitaram Deus, e portanto não podem enxergar o Verbo. Mas o próprio conhecimento vespertino envolve saber que as coisas criadas o foram para a maior glória de Deus, ou seja, envolve saber que elas saíram de Deus e têm nele o seu fim, devem a ele ser conduzidas. É por isto que este conhecimento chama-se vespertino, diz o argumento; porque envolve as coisas conhecidas na luz de Deus que ainda remanesce no final do dia. É por isto, diz o argumento, que as Escrituras, no capítulo 1 do Livro do Gênesis, afirmam que há uma tarde e depois uma manhã. É que uma coisa conduz à outra, e as duas estão relacionadas. Ora, conclui o argumento, se os demônios desprezaram o conhecimento matutino, não lhes restou nenhuma luz para que mantivessem o conhecimento vespertino, e portanto eles já não têm em si nenhum conhecimento verdadeiro, nem mesmo o natural.
O quarto argumento lembra que Santo Agostinho afirma que os anjos sabem sobre os mistérios de Deus, em sua inteligência. Ora, parece claro que os demônios não tinham este conhecimento, pela forma com que reagiram ao mistério da paixão, morte e ressurreição de Nossos Senhor Jesus Cristo. Os príncipes deste mundo não ousariam sacrificar o Senhor da Glória, se o conhecessem, diz São Paulo em 1 Coríntios 2, 8. Ora, se estão privados do conhecimento dos mistérios do Senhor, isto significa que sua inteligência perdeu a capacidade de conhecer a verdade, conclui o argumento.
Por fim, o quinto argumento objetor, que também é o mais longo, começa logo enumerando as maneiras pelas quais nós chegamos à verdade. São três maneiras:
1. O conhecimento natural da verdade, como é o caso do conhecimento dos primeiros princípios. De fato, todos os seres inteligentes são capazes de saber, naturalmente, que as coisas estão submetidas à identidade e à não-contradição, mesmo que não saibam, talvez, articular de forma explícita estes princípios. Mas todo ser inteligente sabe que isto não pode ser isto e não ser, ao mesmo tempo, e se duas coisas são guais a uma terceira, também são iguais entre si. Assim, este é um conhecimento intuitivo, natural e originário de toda inteligência.
2. O conhecimento resultante da aprendizagem, que recebemos de outros, como pais ou professores.
3. O conhecimento pela experiência, que adquirimos pela relação direta com as coisas que nos interpelam, quando as examinamos e absorvemos em nós a inteligibilidade delas.
Ora, prossegue o argumento, a verdade adquirida naturalmente (1) se conhece pela luz de Deus em nós. Ora, os demônios foram separados da luz, como se vê em Gênesis 1, 4. Logo, eles não podem ter conhecimentos naturais, porque estão nas trevas, e a verdade se manifesta na luz, como atesta Efésios 5, 13.
Quanto ao conhecimento aprendido (2), eles teriam que recebê-lo dos Santos Anjos, ou seja, os Santos anjos teriam que comunicar-se com os demônios para ensinar-lhes, transmitindo, a verdade. Mas, de novo, as Escrituras atestam, em 2 Coríntios 6, 14, que não pode haver esta comunhão entre as trevas e a luz. Logo, seria inimaginável, diz o argumento, que os Santos anjos ensinassem as verdades aos demônios.
Por fim, eles não poderiam adquirir o conhecimento por meio de experimentação (3), pelo contato com as coisas a serem conhecidas, simplesmente por não terem, em si, os meios de adquirir conhecimentos empíricos, que são os órgãos corporais dos sentidos. Anjos e demônios não são corporais, logo não dispõem dos cinco sentidos para adquirir o conhecimento empiricamente.
Assim, afastadas as três maneiras de conhecer, o argumento conclui que os demônios não podem ter a verdade em seu intelecto.
O argumento sed contra resgata, aqui, uma citação do Pseudo-Dionísio, que claramente defende que os dons naturais que os demônios receberam, por serem de natureza angélica, na sua criação, de modo nenhum são perdidos pela sua queda. Sua inteligência e todo o conhecimento natural com que foram providos continuam íntegros e poderosíssimos, e, neste conhecimento, está toda a verdade que lhes foi doada na criação por Deus. Assim, os demônios têm o conhecimento da verdade natural com que foram originalmente dotados, e, portanto, o obscurecimento da queda não lhes retirou totalmente o conhecimento da verdade.
No próximo texto, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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