Vimos, então, que o pecado do Diabo causou a criação de uma espécie de “hierarquia infernal” invertida, na qual os demônios submetem-se a ele, que é o pai da mentira, do engano e da arrogância. O debate, agora, diz respeito à quantidade de anjos que caíram nesse engano maléfico, e a quantidade de anjos que perseveraram rumo aos céus, à santidade. Há mais demônios do que santos anjos?

A hipótese controvertida. Aqui, é a de que há, de fato, mais demônios do que santos anjos. Ou seja, o número dos anjos que caíram seria maior do que o daqueles que se santificaram. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento recorre a Aristóteles (que, como sabemos, Tomás trata simplesmente como “o” Filósofo), que teria afirmado: “o mal está em muitos; o bem, em poucos”. Ora, aplicando isto aos anjos, teríamos que concluir, segundo o argumento, que mais anjos caíram do que os que se salvaram.

O segundo argumento também usa uma analogia entre humanos e anjos. De fato, diz o argumento, as noções de “pecado”, como injustiça a Deus, e “retidão” como justiça perante Deus, aplicam-se do mesmo modo a todas as criaturas de natureza pessoal, sejam humanos ou anjos. Ora, prossegue o argumento, as Escrituras atestam que há mais homens injustos do que justos, ao afirmar, em Eclesiastes 1, 15, que é incalculável o número dos insensatos. Logo, o mesmo deve ocorrer com os anjos: deve ser incalculável o número dos anjos que se perderam, comparado ao dos que se santificaram, conclui.

O terceiro argumento diz que os anjos distinguem-se uns dos outros não somente como indivíduos, mas também por ordens (serafins, querubins, arcanjos, potestades, etc.). Ora, diz o argumento, se mais anjos houvessem alcançado a santidade do que aqueles que se perderam, então teríamos que concluir que nem em todas as ordens de anjos houve queda, diz o argumento. Assim, os anjos pecadores seriam apenas de algumas ordens, não de todas. O que diminuiria a gravidade pessoal do pecado, segundo o raciocínio do argumento, já que determinaria que a pertença a uma ordem teria tanta ou mais influência no pecado dos anjos do que a vontade pessoal.

O argumento sed contra também traz uma citação da Bíblia. É a passagem de 2Reis 6, 16: “Não temas; porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles”. Disso o argumento conclui que os Santos Anjos, que nos ajudam, são mais numerosos do que os demônios, que nos colocam obstáculos.

Em sua resposta sintetizadora Tomás vai afirmar, de maneira limpa e clara, que aqueles anjos que perseveraram e alcançaram a santidade são muito mais numerosos do que aqueles que caíram. E aqui, mais uma vez, fica clara a diferença da situação pessoal dos anjos, naturezas imaculadas, por um lado, e a natureza humana marcada pelo pecado original, do outro. Cada anjo é de uma espécie, e portanto o pecado daquele anjo leva só ele à perdição. Mas nós, humanos, somos todos da mesma espécie. Logo, o pecado de Adão macula nossa natureza e nos faz nascer já com uma inclinação ao mal, desconhecida entre os anjos. Daí que jesus possa dizer que, para nós, a porta que leva à perdição é larga, mas estreita é a que leva à salvação (Mt 7, 13-14). Ora, Tomás nos lembra que toda natureza tende a alcançar seu fim, ordinariamente; e é fácil perceber isto em nossa vida cotidiana. A maioria das coisas realmente cumpre o seu ciclo natural, ou seja, surge, cresce, relaciona-se, reproduz e morre. Poucas são as que não alcançam este ciclo. Assim, se os anjos são naturalmente destinados à santidade (que, no entanto, só pela graça alcançam), é de se esperar que, tendo recebido a graça, a maioria deles complete o ciclo ordinário para o qual estão chamados, e alcancem a santidade. Mas, entre nós, humanos, uma vez que a nossa natureza é ferida, temos muito mais dificuldade em fazê-la seguir o rumo da santidade, e a regra de que a natureza ordinariamente alcança seu fim sente, em nós, o peso do pecado original. Mas já fomos muito além do que o próprio Tomás diz aqui. Vamos voltar à análise dos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento cita Aristóteles, para quem “o mal é mais frequente que o bem”, para concluir que mais anjos perderam-se do que salvaram-se.

Mas isto que Aristóteles diz não se aplica ao caso que estamos debatendo, aqui. Aristóteles fala, nesta passagem, do fato de que o ser humano tende a abandonar a razão e deixar-se guiar pelos instintos e pelos sentimentos ligados aos órgãos corporais, que interpelam o ser humano mais fortemente do que o bem racionalmente reconhecido. Mas esta não é uma limitação que atinge os anjos, já que eles não são corporais, não têm instintos nem órgãos do sentido, e portanto relacionam-se com o bem apenas de maneira intelectual. O engano das paixões, prazeres e repulsas físicas, que tantas vezes desvia os humanos, não atinge os anjos.

O segundo argumento procura fazer a mesma analogia, mas desta feita trazendo uma citação do Livro do Eclesiastes que atesta: “o número dos insensatos é incontável”. Desta citação, o argumento conclui que o número dos seres humanos que se perdem é incontável e, portanto, o número dos anjos que caíram também o seria, superando o número dos que se santificaram. Tomás não se dá ao trabalho de responder a esta objeção diretamente; considera-a já respondida pelos argumentos da resposta anterior.

O terceiro lembra que os anjos conhecem duas distinções entre si: a distinção individual, pela cal cada anjo é uma pessoa, e a distinção hierárquica, pela qual eles se agrupam em ordens dos mais diferentes níveis, em razão do seu grau de perfeição. Se o número dos que se perderam fosse menor do que dos que se santificaram, diz o argumento, haveria ordens inteiras de anjos dos quais nenhum se perdeu, o que não seria razoável. Assim, conclui que o número dos que se perderam é maior do que o dos que se santificaram.

São Tomás vai lembrar, na resposta a esta objeção, que há uma corrente teológica (com a qual ele não concorda, mas respeita) que defende que o Diabo era apenas o mais elevado dentre os anjos que serviam aqui mesmo no nosso planeta. Para estes, apenas os anjos da esfera terrestre ficaram sujeitos à queda; ou seja, apenas os da ordem mais baixa dentre todos os anjos. Estes são, como já vimos, aqueles que sofreram muita influência das correntes filosóficas platônicas.

Há uma outra orientação teológica, que Tomás conhece e acolhe, que prega que o Diabo não somente era o supremo de todos os anjos jamais criados, e que anjos de todas as ordens vieram a cair, de tal modo que os seres humanos que venham a alcançar a santidade serão alçados ao grau que os anjos caídos tinham, completando aquelas ordens que perderam os anjos que caíram. Uma antiga tradição aponta Maria Nossa Senhora como a rainha dentre todos os anjos, ou seja, em sua santidade destacada, ela teria ocupado o lugar que o próprio Lúcifer teria, se não tivesse caído.

Por fim, Tomás registra que o fato de que anjos das mais diversas ordens caíram comprova o respeito de Deus pela liberdade da criatura, que deve escolher o amor por seu próprio livre arbítrio, e não por pertencer a esta ou àquela ordem. No entanto, ele registra que há determinadas denominações de ordens angélicas que seriam logicamente incompatíveis com a queda, como no caso dos Serafins, cujo nome remete a um ser que arde de caridade divina, ou os “Tronos”, designados assim por servirem a Deus em seu trono. Por outro lado, ordens denominadas de Querubins, Potestades e Principados designam seres que se destacam pela intensidade de sua ciência ou do seu poder, pelo que não haveria incompatibilidade entre o modo pelo qual são nomeados e a eventual queda no pecado. Em todo caso, estamos aqui em plena teologia especulativa, não dogmática, embora cheia de boas e longas tradições teológicas.

Quanto à questão do número, não poderíamos deixar de registrar o Apocalipse 12, 4, em que está registrado que o Dragão arrastou consigo a terça parte das estrelas, para nos animar com a ideia de que muito mais numerosos são os santos anjos do que os demônios. Além disso, a lembrança de que o grande Dragão foi derrotado pelo arcanjo Miguel (Apocalipse 12, 7) mostra que a vitória de Deus não se expressa através daquele que é naturalmente mais poderoso (já que Lúcifer era naturalmente mais poderoso do que Miguel), mas daquele que luta sob o apoio da graça de Deus.