Percebemos, então, no último debate, que o Diabo era a mais excelsa das criaturas, o mais elevado dos anjos. Pecou por orgulho. O debate, agora passa a ser sobre a influência que o Diabo fez no pecado dos outros anjos que caíram. Será que o pecado do Diabo foi, de algum modo, causa para o pecado dos anjos que estavam abaixo dele?

A hipótese controvertida sustenta, aqui, que o pecado do Diabo não foi causa do pecado dos demais anjos que caíram. Três argumentos objetores colocam-se no sentido desta hipótese.

O primeiro argumento lembra que o efeito deve sempre seguir-se à causa, isto é, a causa vem sempre antes do efeito. Mas, segundo São João Damasceno, o pecado dos anjos, de todos eles, ocorreu simultaneamente. Portanto, conclui o argumento, o pecado de um não pode ter causado o pecado dos outros.

O segundo argumento lembra que o pecado dos anjos sempre envolve a arrogância, o orgulho, a soberba. Ora, prossegue o argumento, a soberba é a busca por ser honrado, elevado, por não submeter-se. Mas, se é assim, seria muito mais humilhante submeter-se a alguém inferior do que a alguém supremo. Portanto não seria razoável admitir que os anjos teriam, em seu pecado de orgulho, escolhido submeter-se a alguém inferior, como o Diabo era com relação a Deus, do que submeter-se ao próprio Deus. Mas se o pecado do Diabo tivesse sido causa do pecado dos demais anjos, isto significariam que os outros teriam se submetido a ele, isto é, teriam escolhido, por arrogância, submeter-se ao inferior em lugar de submeter-se a Deus mesmo, o que seria ilógico. Logo, conclui o argumento, o pecado do Diabo não pode ter sido a causa do pecado dos outros anjos que caíram.

O terceiro argumento começa com um questionamento: qual o maior pecado, o daquele que 1) se rebela contra Deus e quer tomar o governo de tudo em suas próprias mãos, ou 2) o daquele que se rebela contra Deus e vai submeter-se ao governo de quem não é Deus? O próprio argumento responde que peca mais aquele que se submete a outro do que aquele que, rebelando-se, quer tomar o poder em suas mãos. Isto porque, segundo o argumento, há menos razão em submeter-se a outro do que em rebelar-se e querer fazer as coisas do seu jeito mesmo; portanto, quem quer tomar o controle em suas mãos peca com mais razão, com mais fundamento, do que quem quer simplesmente trocar o comandante supremo por algum outro comandante inferior, que tem, portanto, menos explicação para seu ato. Ora, se o pecado do Diabo foi o de ter levado os outros a submeterem-se ao seu poder, então o pecado dos que se submeteram foi mais grave, porque deixaram o poder de Deus por uma submissão injustificável a uma criatura. Mas admitir que os anjos inferiores pecaram mais do que o superior seria ir contra as Escrituras, que, no Salmo 103, 26, fala num certo “monstro que formaste”, que, segundo a Glosa, era o Diabo, “o mais excelente de todos os seres, pela essência, mas que, pela maldade, tornou-se o pior de todos”. Portanto, não poderíamos admitir, conclui o argumento, que o pecado do Diabo possa ter sido causa do pecado dos demônios, porque, neste caso, teríamos que admitir que os demônios pecaram mais gravemente do que ele, o que tiraria dele o posto de criatura mais perversa.

O argumento sed contra cita o Livro do Apocalipse, 12, 4: a cauda do Dragão levou consigo a terça parte das estrelas do céu. As Escrituras, pois, são fundamento suficiente, defende o argumento, para defender que o pecado do diabo é causa do pecado dos outros anjos que caíram.

E esta é, também, a posição de Tomás; de fato, ele já inicia sua resposta sintetizadora afirmando que, de fato, o pecado do primeiro anjo foi, realmente, causa do pecado dos outros que caíram. Não que o Diabo os tenha de algum modo coagido ou forçado, mas, com certeza, influenciou, induziu, aconselhou, exortou mesmo os outros que pecaram em seguida a ele.

Onde podemos fundamentar esta ideia? Na passagem de Mateus 25, 41, em que Nosso Senhor Jesus cristo, falando daqueles que não alcançarão a salvação, diz: “Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos”.

Com isto, fica claro que aquele que é levado a pecar por mau conselho de outro, é como que vencido por este, e fica a ele submetido, em razão de sua culpa ter derivado da influência que deixou que o outro assumisse sobre si; este é o castigo deste tipo de culpa, como está Registrado em 2 Pedro 2, 19: “pois quem é vencido é feito escravo daquele que o venceu”. Quem aceita ser levado ao mal, fica escravo do mal, portanto. Bela lição de Tomás.

Havendo estabelecido, assim, os critérios para encaminhar o debate, Tomás revisita agora as objeções iniciais.

A primeira objeção lembra que entre a causa e o efeito há uma relação de antes e depois; mas o pecado dos anjos, diz, foi simultâneo; logo, conclui que o pecado do Diabo não pode ter sido a causa do pecado dos outros anjos que caíram.

Trata-se, aqui, de uma confusão causada pelo fato de que pensamos sempre cronologicamente, responde Tomás. Os anjos não estão submetidos a cronologias, nem a comunicação entre eles depende de uma linguagem progressiva, como a nossa. Tampouco a escolha do anjo envolve algum tipo de processo, aconselhamento, discernimento ou algo similar. De fato, mesmo entre nós, humanos, ocorre de alguém comunicar alguma coisa a outrem e causar uma reação antes mesmo de acabar de falar, porque o outro já compreendeu o que o primeiro tinha a dizer; isto se dá, principalmente, quando estamos tratando dos princípios primeiros do pensamento, cuja apreensão é intuitiva por nós, humanos.

No caso da comunicação entre os anjos, não há lapso de tempo para a transmissão da informação, nem lapso de tempo para a compreensão, o discernimento e a tomada de decisão. Assim, no instante mesmo em que o primeiro anjo deliberou pelo pecado, os demais anjos estavam prontos para segui-lo; e de fato muitos o fizeram. Assim, aquilo que foi consequência lógica (o pecado dos outros anjos) não necessariamente foi cronologicamente posterior. Pensemos, aqui, por analogia, numa pedra que quebra uma vidraça: o impacto da pedra é causa da quebra da vidraça, mas não há, a rigor, cronologia entre as duas coisas.

O segundo argumento diz que, se o pecado dos anjos é a soberba, não há lógica em pretender que o pecado do primeiro causou os demais, porque, neste caso, o primeiro submeteria os demais; no entanto, o orgulho consiste exatamente na negativa de submissão; pelo que não haveria sentido em afirmar que os outros anjos deixariam a submissão ao maior para aceitar uma submissão a alguém menor. Disso o argumento conclui que o pecado do diabo não causou o pecado dos outros.

É verdade que o arrogante prefere submeter-se a maior do que ao menor, em igualdade de condições. Mas pode ser que haja alguma vantagem em submeter-se ao inferior, de tal modo que isto venha a influenciar na decisão de mudar de subordinação. É muito comum ver isto quando alguém troca de emprego, de uma empresa maior para uma menor na qual vê maiores vantagens profissionais, por exemplo. Assim, não há contradição nem irrazoabilidade em imaginar que estes anjos viram, na subordinação ao Diabo, a possibilidade de satisfazer sua vontade arrogante de ser como Deus através de suas próprias forças naturais, sem entrar na lógica do amor de Deus.

Por fim, o terceiro argumento diz que, se o Diabo quis autonomia, fugindo à submissão a Deus, e os outros demônios, por sua vez, aceitaram submeter-se a uma criatura em vez do criador, estes últimos teriam pecado mais gravemente do que aquele, o que é contra as Escrituras, que atestam que o maior pecado é o do Diabo. Logo, não foi o Diabo que causou, com seu pecado, o pecado dos outros anjos, conclui.

Não é assim, diz Tomás. Nos anjos, as decisões empenham todo o seu ser. Não existe dúvida, hesitação, reserva, limite, nada que venha a dividir a vontade e o poder do anjo, quando ele se decide. Por isto, ao escolher o pecado, o Diabo moveu-se para o mal com todo o seu poder, com toda a sua vontade e com todo o seu entendimento. Os outros anjos que caíram moveram-se, igualmente, com todo o seu poder, vontade e entendimento, que necessariamente era menor do que o do Diabo. Assim, não é a qualidade moral do pecado que determina o tamanho do mergulho no mal, no caso dos anjos, mas a própria estrutura do anjo que se converte ao mal. A elevação do ser do anjo, na hierarquia celeste, determina sua posição na hierarquia infernal. Assim, ninguém é superior ao Diabo no mal.