Os anjos não devem ser imaginados como se fossem grandes computadores incorpóreos. Eles são pessoas. Os computadores, ainda que interligados em rede mundial, não têm consciência de si mesmos. Os anjos têm. Os computadores, mesmo que funcionando como uma grande realidade incorpórea paralela, não têm um fim além de si próprios. Os anjos têm. Assim, sendo pessoas, os anjos, ao passarem a existir, mesmo tendo recebido em si o conhecimento criatural pleno, têm duas tarefas imediatas e necessárias, imediatamente quando passam a existir: tomam conhecimento de si mesmos como pessoas, em seguida tomam conhecimento de que seu fim não está em si mesmo, mas em Deus. Estes dois modos de saber não podem ser-lhes dados. São experienciais. Precisam ser vividos. Eles podem acumular informações sobre tudo o que existe, por iluminação divina na sua criação, mas a sua própria existência (e a existência de Deus como fim) só pode ser experimentada, não pode ser dada. Assim, imediatamente com sua criação, os anjos se contemplam como obra boa de Deus e, em seguida (não em sentido cronológico, mas lógico mesmo) percebem que, sendo criaturas, precisam de Deus para sua própria plenitude. Estes dois movimentos já são informados pela graça, porque, sendo criados bons, eles têm a graça junto com a sua existência mesma.
É certo que contemplar-se e perceber-se como obra boa de Deus, como criaturas perfeitíssimas, é um ato de caridade movido pela graça; este ato de caridade leva, por sua vez, ao mérito imediato para a glória, fazendo com que os anjos se voltem para Deus para o seu merecido prêmio: entrar na glória. Este prêmio, porém, precisa ser recebido e aceito, porque os anjos não são autômatos, mas pessoas. E aqui está o problema: embora tenham recebido a graça e embora tenham-se descoberto como boas criaturas de Deus, misteriosamente (pelo mistério mesmo da liberdade pessoal) alguns anjos simplesmente rejeitaram o prêmio. É sobre isto que Tomás falará agora.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás nos lembra que há uma primeira posição sobre este assunto, pela qual alguns, fundamentados em passagens como aquela de João 8, 44, afirmaram que os demônios já começaram a existir operando o mal. Não que eles tenham sido naturalmente maus; eles admitem que os demônios foram criados naturalmente bons, por Deus. Mas a sua vontade, desde que passou a existir, já elegeu o mal de modo imediato, como início de operação, sem qualquer hesitação ou intervalo.
Não se trata, aqui, ressalva logo Tomás, de uma posição semelhante àquela dos maniqueístas, que defendiam que os demônios eram maus por natureza, e sua existência era oposta mesma ao bem; eles seriam algo como o princípio do mal, enquanto Deus seria o princípio do bem. No caso da posição que estamos estudando agora, Deus é admitido como princípio do bem, os anjos são criaturas e o mal não tem princípio, é uma deficiência; mas manifesta-se, para estes, como operação primeira, contínua, como que automática, em alguns anjos. Segundo estes, a operação dos demônios, imediatamente à sua criação, é escolher o mal.
Esta posição, porém, não se harmoniza com as Escrituras, diz Tomás. No Livro de Isaías, capítulo 14, 12, falando do imperador da Babilônia (num trecho que sempre foi lido como a descrição da queda do Diabo), Isaías diz: “Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações!”. No Livro de Ezequiel, 28, 13, falando sobre o Rei de Tiro, noutra passagem cuja leitura tradicional também vê uma descrição figurada do Diabo, diz-se: “Estavas no Éden, jardim de Deus”. Parece certo, pois, que houve uma situação, antes da queda dos anjos, em que eles chegaram a operar o bem; concluir que eles já surgiram operando o mal não se coaduna com a inteligência da Revelação, diz Tomás.
Há uma segunda opinião teológica, registra Tomás, que defende que os anjos, no instante mesmo da sua criação, podiam escolher o mal; no entanto, embora o pudessem, não o fizeram; alguns anjos fizeram-no depois, caindo para a condição de demônios.
Esta posição é errônea. Mas recebeu uma crítica que Tomás considera igualmente inconsistente e insuficiente, portanto errônea também. Ou seja, aqui Tomás discorda tanto da própria posição quanto da crítica que ordinariamente é feita a esta posição para refutá-la.
O que diz esta crítica? Ela parte da noção de tempo e simultaneidade, para dizer que, quando duas operações são sucessivas, ou seja, quando uma operação pressupõe a outra, elas não podem terminar no mesmo momento. Em outras palavras, esta posição diz que quando duas operações são logicamente sucessivas, elas devem ser, também, cronologicamente sucessivas. Quer dizer, para pecar, é pressuposta a própria existência do anjo. Nada que não existe pode pecar. Ora, se é assim, dizem tais críticos, então a consumação do pecado não pode ser cronologicamente simultâneo com o início do existir, porque ele só pode iniciar quando o existir se aperfeiçoa. Logo, concluem estes, o pecado dos anjos não pode ser simultâneo ao momento mesmo em que passam a existir. Disto, eles concluem que os anjos não podem ser maus no momento mesmo em que passam a existir.
Tomás concorda que os anjos não podem ser maus de modo simultâneo ao seu próprio surgimento. Mas não por esta razão. De fato, o exercício do livre arbítrio, nos anjos, pressupõe, logicamente, sua criação. Mas a sua criação é instantânea, assim como o exercício do seu livre arbítrio, pelo simples fato de que Deus não precisa de tempo para criar, nem os anjos precisam de tempo para inteligir. O processo de causalidade, aqui, é simultâneo, não sucessivo, embora não deixe de ser, por isto mesmo, um processo de causalidade. Por isto, diz Tomás, a existência dos anjos está para sua operação como a luz está para o fogo: acendendo-se a vela, a luz segue-se como consequência, mas sem que haja sucessão temporal nisto. Por exemplo, entre a pedra que bate no vidro e o vidro que arrebenta há um só e mesmo fenômeno, um só e mesmo instante, embora um seja a causa (o impacto da pedra) e o outro, consequência (o arrebentar do vidro). Por isto, diz Tomás, esta crítica, embora chegue a uma conclusão verdadeira (a de que a primeira operação dos anjos não pode ter sido má), chega a ela por uma argumentação equivocada. Ou seja, se observássemos apenas a relação de causalidade lógica entre o existir dos anjos e seu operar, não poderíamos deduzir daí uma sucessão cronológica. Muito bacana a capacidade de Tomás de apontar o equívoco lógico que leva a conclusões verdadeiras por meios errôneos.
Os anjos não poderiam ter operado o mal, por seu livre arbítrio, no instante mesmo em que, criados, começaram imediatamente a operar. E por uma simples razão, diz Tomás: agere sequitur esse. Traduzindo: o agir segue o ser. De um molde defeituoso só pode sair um bolo defeituoso. Mas de um molde perfeito só pode sair um bolo perfeito. Mas o ser e a capacidade de operar dos anjos saem de um molde perfeito: Deus criador. Esta primeira operação, simultânea com o existir, deve, pois, ser boa, como é bom o existir, simplesmente porque é a operação daquilo que saiu bom das mãos de Deus. De uma natureza boa, a operação que surge como consequência lógica deve ser igualmente boa. Isto está de acordo com a Escritura, que registra que Deus afirmou, contemplando sua criação imediatamente posta no ser: “e Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Se houvesse decorrido, do ser colocado por Deus, como primeira operação, o mal, ele não poderia ter afirmado isto.
Se o mal fosse a operação primeira dos anjos, isto significaria que este mal é operação natural do seu existir, e, neste caso, o próprio anjo seria naturalmente mau, o que, como vimos nos debates anteriores, é falso. Deus não pode ser causa do pecado, e portanto não cria uma natureza cuja operação primeira seja o mal.
Podemos imaginar, portanto, que a primeira operação do anjo, este tomar consciência de si e da sua própria bondade e pessoalidade, tomar posse da sua própria natureza, foi necessariamente boa. Mas implicou a necessidade de voltar-se a Deus, para tomar posse da glória que lhe é oferecida como prêmio. Este segundo movimento pode ser mau, pode implicar uma rejeição a Deus – e de fato implicou, em alguns anjos.
Colocados estes princípios, Tomás passa a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção lembra que o próprio Jesus, em João 8, 44, atesta que o Diabo é “homicida desde o princípio”. Assim, o argumento conclui que ele foi mau desde o princípio de sua operação, ou seja, no instante mesmo em que foi criado.
Não se trata disso, diz Tomás. O que a passagem atesta é que o Diabo é homicida desde que pecou, ou seja, jamais se separou do seu pecado, desde que optou contra Deus.
O segundo argumento parte da visão de Santo Agostinho sobre a criação como evento não temporal, e diz que os anjos foram criados, especificados e separados (luz e trevas) desde o princípio, concluindo daí que o Diabo é mau desde o primeiro instante de sua criação.
Tomás explica que, mesmo que entendamos as expressões luz e trevas, aqui, como referindo-se ao pecado dos anjos, a passagem diz respeito à presciência que Deus tinha sobre tal pecado, não a um momento cronológico em que tal pecado aconteceu. De fato, em sua onisciência, Deus é capaz de saber quais anjos serão luz e quais serão trevas, antes mesmo que existam ou que venham a pecar. O próprio Agostinho, diz Tomás, entende que as Escrituras falam, aqui, da presciência de Deus, afirmando que “só poderia fazer tal separação desde o princípio, aquele que consegue prever a queda antes mesmo que ela aconteça”. Assim, a interpretação de Agostinho não serve para provar que o Diabo foi mau desde o princípio de sua operação, senão que Deus o sabia desde sempre.
O terceiro argumento faz uma espécie de paralelismo entre o mérito dos bons anjos e o pecado dos maus. Se os anjos santos puderam merecer desde o primeiro ato, teríamos que admitir que os maus puderam pecar desde então, também.
Mas não é assim, explica Tomás. O bem vem de Deus; por isto, a operação dos anjos pode ser boa desde o início, porque, neste caso, está em linha com a bondade de quem o criou. Mas não pode ser má desde o início, como foi visto na resposta sintetizadora.
O último argumento objetor diz que os anjos, como inteligências incorpóreas, são mais perfeitos do que qualquer criatura corpórea. Mas os seres corpóreos operam segundo sua natureza desde o primeiro instante de sua criação; desde criada, a água molha, o fogo queima, as pedras pesam e assim por diante. Portanto, os anjos operam desde o momento mesmo em que são criados. Uma vez que não há impedimento de ordem alguma para que entrem na glória, então aqueles que operam bem entram imediatamente na glória. Simplesmente operar o bem já os põe de logo na glória. Portanto, é preciso admitir, diz o argumento, que alguns anjos não operaram bem desde o mais remoto instante primeiro de sua criação, de modo que tenham sido maus desde o princípio, ou então não haveria outra explicação para a sua perdição.
Em sua resposta, Tomás lembra que o próprio Santo Agostinho ensina que Deus não separou os anjos antes que eles tivessem oportunidade de manifestar sua conversão ou aversão a Deus. A separação deu-se, portanto, apenas depois que esta aversão ou conversão tornou-se manifesta. Ora, se todos os anjos puderam operar bem no instante em que foram criados, no sentido de tomar posse de si mesmos, de sua própria pessoalidade, foi naquele segundo momento, em que se voltaram para Deus para colher os frutos do seu mérito adquirido, que houve um impedimento, na vontade de alguns anjos, no sentido de receber a glória que Deus havia preparado para eles. Agindo assim, anularam o mérito precedente e foram privados da beatitude que haviam, anteriormente, merecido.
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