Vimos, no último artigo, que a primeira operação dos demônios não pode ter sido má desde o princípio, porque a operação segue o ser, e o ser dos anjos é bom; não pode ter resultado numa operação má logo no início de sua existência. Há, portanto, um primeiro movimento dos anjos para o bem, que precede a queda. A pergunta que se segue, portanto, é inevitável: quanto tempo os anjos caídos permaneceram no bem, antes de caírem?
A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que houve algum lapso temporal, ou seja, decorreu algum tempo entre este primeiro movimento para o bem e aquela opção contra Deus que causou a queda dos demônios. Também aqui há quatro argumentos objetores, no sentido desta primeira hipótese.
O primeiro argumento cita Ezequiel 28, 15: “Foste irrepreensível em teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniquidade apareceu em ti”. A partir desta citação bíblica, tradicionalmente atribuída ao Diabo, o argumento aduz que a passagem demarca um lapso, com um antes e um depois, que pressupõe, portanto, alguma passagem de tempo. Assim, conclui que houve um decurso de tempo desde a criação dos anjos até sua queda final.
O segundo argumento cita Orígenes, que afirma que há base, nas Escrituras, para afirmar que a antiga serpente “não rastejou imediatamente, desde o princípio, sobre seu peito e seu ventre”; o argumento entende que isto significa que Orígenes entende, com base em Gn 3, 14, que o pecado do Diabo não foi imediato, mas houve um decurso de tempo até que ele acontecesse.
O terceiro argumento quer fazer um paralelo entre a queda do ser humano e a queda dos anjos. Pecar é algo comum a estes dois gêneros de criaturas, ou seja, aos seres humanos e aos anjos. Ora, prossegue o argumento, houve um lapso de tempo entre a criação do homem e sua queda. Similarmente, portanto, conclui o argumento, poderíamos defender que houve um decurso de tempo entre a criação dos anjos e sua queda.
Por fim, o quarto argumento lembra que, no debate anterior, ficou estabelecido que o Diabo foi criado num instante e pecou em outro. Ora, prossegue o argumento, entre dois instantes há sempre um tempo intermediário. Disto o argumento conclui que houve algum decurso de tempo entre a criação dos anjos e sua queda.
O argumento sed contra recorre à autoridade das Escrituras. De fato, em João 8, 44, o próprio Jesus assegura que o Diabo, embora tenha sido constituído na verdade, não permaneceu nela. Segundo Santo Agostinho, citado aqui, isto significaria que, segundo as Escrituras, não seria possível existir algum intervalo de tempo em que o Diabo permaneceu na verdade, conclui o argumento.
Estabelecidos os termos do debate, São Tomás passa a dar sua resposta sintetizadora. Que, desta vez, não é conclusiva. Ele admite a possibilidade de sustentar mais de uma opinião, neste assunto.
De fato, há duas opiniões sobre o assunto, diz Tomás. São elas:
1. A opinião de que não houve algum lapso de tempo entre a criação do Diabo e seu pecado. É certo, e vimos na discussão anterior, que o pecado do Diabo e de seus demônios não se deu no mesmo evento da criação, mas no momento seguinte. De fato, ao ser criado, o Diabo, em sua natureza perfeita e boa, operou o bem; se estava na graça, como acreditamos, mereceu imediatamente a bem-aventurança final. Mas não se abriu para recebê-la, quando seria premiado por Deus. Assim, pecou, rejeitando Deus e a glória maravilhosa dos santos. Esta sucessão de eventos, porém, não pode ser medida cronologicamente, porque não envolve materialidade. Seia necessário afirmar, portanto, que não houve decurso de tempo em que o Diabo permaneceu no bem, mas apenas uma sucessão de eventos não cronológica. Estamos, aqui, no campo do evo, ou tempo não linear, não contínuo. Os que adotam esta posição, que São Tomás considera mais segura, mais conforme a Tradição da Igreja, negam que houve algum lapso temporal, no sentido cronológico, entre os eventos que são aqui descritos.
2. A opinião de que os anjos não necessariamente são criados já no estado de graça, ou que, num primeiro instante, quando tomam consciência de si mesmos, ainda não praticam atos livres e pessoais, nada impediria afirmar que os anjos existiram algum tempo antes de praticar os atos livres que, movidos pela graça, encaminharam-nos à salvação ou à perdição. Tomás acha, no entanto, que esta opinião é menos provável e, embora a admita, não compartilha pessoalmente dela.
Postos estes fundamentos, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.
A primeira objeção cita Ezequiel 28, 15, para defender que houve algum lapso de tempo em que os demônios permaneceram no bem.
Tomás defende que esta passagem das Escrituras não pode ser lida literalmente; algumas vezes, diz Tomás, as Escrituras usam imagens materiais, inclusive cronológicas, para descrever realidades espirituais. Assim, a ideia de sucessão de eventos fora do tempo, que se relaciona com o pecado dos anjos, é descrita aqui como se fosse temporal, quando na verdade não se submete ao tempo.
O segundo argumento lembra que o próprio Orígenes defendia que, uma vez que o Diabo foi condenado por Deus a rastejar em Gn 3, 14, isto significaria que houve um tempo em que ela não era má, e portanto não rastejava.
Tomás, mais uma vez, lembra que a sucessão de eventos realmente ocorreu, no sentido de que houve a criação dos anjos e sua operação para o bem, seguida de sua aversão pecaminosa a Deus e sucessiva queda. Mas esta sucessão de eventos não pode ser lida como cronológica, como se tivesse ocorrido em um decurso contínuo de tempo, porque de fato não foi.
O terceiro argumento faz um paralelo entre o pecado e queda humanos, por um lado e o pecado e queda angélicos, por outro. Se para os humanos isto envolveu um percurso temporal, diz o argumento, para os anjos também deve ter sido assim.
Tomás nos ensina, aqui, que os anjos não mudam de opinião, depois que elegem alguma coisa por seu livre arbítrio. Assim, no seu primeiro movimento de operação para o bem, ele teria sido confirmado logo na santidade, se não tivesse posto obstáculo à graça de Deus. Estamos, aqui, dentro de um mesmo contínuo que não é processual, embora tenha uma sucessão lógica. É um mesmo e único movimento, da liberdade angélica, em que cada evento representa um passo simples e definitivo numa dada direção. Mas os seres humanos não são assim: uma vez que sua inteligência não é tão poderosa quanto a dos anjos, nossa liberdade é exercida processualmente, sucessivamente, e nossas descobertas implicam mudanças de opinião que levam a alterações de posição. Por isto a relação do ser humano com a liberdade e com o bem, e mesmo com o pecado, é sempre temporal, sucessiva e processual, enquanto a do anjo é instantânea e definitiva. Não há, pois, similaridade possível, aqui, diz Tomás.
Por fim, o quarto argumento diz que já ficou estabelecido que os anjos foram criados num momento e pecaram num momento diverso; ora, entre dois momentos há sempre algum tempo intermédio, diz o argumento. Logo, conclui que houve um tempo em que os demônios estavam no bem.
Não é assim, diz Tomás.
Este argumento não considera a diferença entre o tempo físico, que é contínuo e sucessivo, e o tempo espiritual ou evo, que é uma sucessão de eventos não contínua.
No tempo físico, que envolve as coisas materiais, há sempre algum tempo intermédio entre dois eventos, mesmo que sejam dois instantes vizinhos imediatos. Assim, quando dizemos que duas coisas não aconteceram no mesmo instante de tempo, no mundo físico, mas em momentos imediatamente sucessivos, temos que admitir que decorreu algum tempo entre eles, por menor que tenha sido este intervalo de tempo intermediário. Talvez décimos ou mesmo centésimos de segundos, talvez milésimos, mas sempre um tempo contínuo e mensurável pode ser encontrado entre dois eventos sucessivos quaisquer no mundo material. Mas os anjos não estão no mundo material.
Assim, no mundo estritamente espiritual, em que não há matéria para determinar alguma continuidade no fluir temporal, há sucessão de eventos, mas não há tempo intermédio fluindo entre eles. A sucessão é determinada pela relação entre os acontecimentos e as inteligências que os vivem. Assim, inteligimos que primeiro os anjos são criados, depois operam, depois pecam, mas não há, aí, algum fluir cronológico que determine que algum contínuo temporal possa intermediar estes eventos.
Em suma, e aqui vem o que nos interessa, com o seu surgimento os anjos tomam consciência pessoal de si mesmos, ou seja, experimentam-se, adquirindo, sobre si mesmos, aquilo que Santo Agostinho chama de “conhecimento vespertino”, isto é, o conhecimento experiencial que se dá quando uma inteligência se depara efetivamente com uma realidade que a interpela. A inteligência, aqui, é a própria inteligência do anjo, e a realidade que interpela é a sua própria existência.
Num segundo momento, quando deve receber o prêmio por esta relação de descoberta e amor por si mesmo, o anjo deve entrar no que Santo Agostinho chama de “conhecimento matutino”, isto é, deve aceitar participar do conhecimento que Deus tem de si mesmo e de todas as coisas na pessoa do Verbo. Neste momento, os santos anjos, movidos pela graça, entram na glória e passam a participar da própria ordem divina, na criação. Os demônios, porém, não conseguem superar o momento de introversão, quer dizer, de autodescoberta, e permanecem presos em si mesmos, no egoísmo, desprezando o amor de Deus que lhes é oferecido. Em vez de entrarem no conhecimento matutino, isto é, na inteligência do verbo, caem na noite, na escuridão da introversão. Perdem-se na arrogância da soberba.
Portanto, todos os anjos passam pela primeira operação, a operação vespertina, no bem. Mas os santos anjos triunfam, na segunda operação, enquanto os demônios sucumbem, nela. Seria uma tolice imaginar que tudo isto decorre num espaço de fluir cronológico. Ou seja, é bobagem imaginar que pudéssemos cronometrar estes eventos. Não podemos.
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