Num debate anterior, sobre o processo de salvação dos anjos pela graça, tivemos a impressão de que este processo é quase instantâneo: o anjo é criado, recebe a graça, faz um ato movido pela caridade e subitamente está na glória de Deus. Ou, ao revés, ele é criado e, no instante seguinte, rejeita completamente a graça e faz um gesto de rejeição a Deus e subitamente torna-se um demônio. Mas as coisas podem não ser tão simples.
Para nós, humanos, que somos temporais e processuais por natureza, é difícil entender a sequência de acontecimentos que não se dá no tempo, mas é histórica ainda assim. Trata-se do evo, que é a forma pela qual os anjos relacionam-se com a história (já que não são eternos, no sentido de que não são capazes de lidar com a simultaneidade plena da vida, como Deus), que envolve sequência de acontecimentos, mas sem a submissão ao tempo cronológico (que é, como Tomás sabia e Einstein redescobriu, um fenômeno estritamente relacionado à matéria). O evo é exatamente esta característica de acompanhar os acontecimentos na sua sequência histórica, como sucessão, mas sem submissão ao tempo. Que tipo de processualidade esta forma de relacionar-se com a história gera nos anjos? Anjos desenvolvem a virtude da prudência, adquirem experiência no discernimento dos fenômenos concretos da história; ou, ao contrário, são criados e imediatamente depois entram na glória ou na perdição após um único gesto de vontade?
Esta é a hipótese controvertida aqui. Parece que o diabo, no instante mesmo da sua criação, já escolheu deliberadamente o mal, e perdeu-se. Foi algo imediato, portanto, segundo esta hipótese.
São quatro os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento cita João 8, 44, lembrando que o próprio Jesus declarou que o Diabo é “homicida desde o princípio”. Ora, se é assim, então não houve intervalo entre a criação e a escolha que levou o Diabo à perdição, conclui o argumento.
O segundo argumento discute a posição de Santo Agostinho sobre a criação, como descrita no Gênesis, capítulo 1. Esta posição parece-nos um tanto complexa, hoje, porque é fruto de uma visão de mundo muito diferente da nossa. Ele entendia que a criação inteira dá-se num instante, que pe a origem de tudo, mas de modo não especificado; assim, o relato do capítulo 1 do Gênesis seria um trabalho de especificação, que não se estende temporalmente, mas tem um sentido de origem. Trata-se da descrição de uma especificação, não de uma duração, para Santo Agostinho. Continuando nesta linha, o argumento diz que, quando o relato menciona a criação do “céu” e da terra”, trata da criação dos anjos e da criação das coisas materiais, mas de um modo informe, não discriminado. Por isto, diz o argumento, quando o relato, depois de falar da criação do céu e da terra, menciona que Deus disse “faça-se a luz, e a luz se fez”, ele está mencionando a especificação dos anjos e sua imediata conversão ao Verbo de Deus, fazendo-os tornarem-se luz. Simultaneamente (prossegue o argumento), separou-se a luz das trevas, significando que os anjos foram apartados dos demônios. Ora, conclui o argumento, se tudo isto não é um relato de sucessões, mas de origem, então temos que afirmar que não houve sucessão entre a criação dos anjos e sua escolha contra ou a favor de Deus, e eles tornaram-se santos ou demônios no instante mesmo de sua criação.
O terceiro argumento traz uma oposição entre pecado e mérito: o pecado é o justo oposto do mérito: o pecado faz desmerecer. Ora, o mérito pode nascer desde o primeiro instante, como no caso da alma humana de Jesus ou mesmo dos anjos santos, que, desde o instante mesmo de sua criação já inclinam-se voluntariamente para o bem e, portanto, adquirem imediatamente merecimento, quando são criados. Ora, conclui o argumento, no lado oposto, teríamos que admitir que os demônios podem pecar imediatamente quando criados, adquirindo desmerecimento, de modo simétrico ao merecimento dos santos.
O quarto argumento quer fazer uma analogia entre as naturezas incorpóreas, como a dos anjos, e as naturezas corpóreas, quanto à operação. No mundo corpóreo, há operações que são instantâneas com suas consequências, como o fogo, que já surge quente e queimando. Ora, se as coisas materiais podem começar a existir já operando, assim também poderiam os anjos, que são muito mais perfeitos do que as coisas materiais. Mas a natureza dos anjos é marcada pela liberdade: assim, nada impediria que eles já abusassem da liberdade no instante mesmo do seu surgimento; caso em que, de modo simétrico àquele pelo qual os santos anjos adquirem o merecimento imediatamente após seu ato de caridade movido pela graça, os demônios também adquirissem seu demérito pelo pecado cometido no instante mesmo de sua criação, como primeira operação. Disto tudo, o argumento conclui que os demônios podem ter pecado no instante mesmo de sua criação.
O argumento sed contra resgata a autoridade das escrituras, que repetem, como um refrão, no capítulo 1 do Gênesis, que Deus contemplou as coisas que criou e viu que eram boas. Assim, conclui, os anjos não podem ter pecado para tornarem-se maus no instante mesmo de sua criação.
Veremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.
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