Mais uma discussão interessante: de onde vem, afinal, a maldade dos demônios? Eles podem ser naturalmente maus, ou seja, ser substancialmente maus, ou tornam-se maus em razão de suas escolhas?

A hipótese controvertida, aqui, é a de que (pelo menos) alguns demônios são naturalmente maus.

São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento objetor resgata uma citação em que Santo Agostinho menciona Porfírio; Agostinho diz, nesta citação, que “há demônios naturalmente mentirosos, que simulam ser deuses e almas de defuntos”. Ora, diz o argumento, se eles são naturalmente mentirosos, e se ser mentiroso é mau, então o argumento conclui que há demônios naturalmente maus.

O segundo argumento lembra que os anjos são criaturas de Deus, como os seres humanos também são. Mas, prossegue o argumento, as Escrituras atestam que há seres humanos naturalmente maus (Sabedoria 12, 10 afirma que, em alguns seres humanos, a maldade é natural). Logo, conclui o argumento, podem existir também anjos naturalmente maus.

O terceiro argumento vai ainda mais longe; não é só o ser humano que tem maldade natural, defende. Também certas criaturas, animais irracionais, possuem certas malícias em sua natureza. A raposa, por exemplo, é naturalmente velhaca, e o lobo é naturalmente ladrão. Ambas, porém, não deixam de ser criaturas de Deus por isto, e foi com esta malícia que saíram de suas mãos. Assim, o argumento conclui que não seria contraditório afirmar que alguns anjos são naturalmente maus desde a sua criação.

Como argumento sed contra, uma citação do Pseudo-Dionísio, asseverando que os demônios não são naturalmente maus.

Postos os elementos do debate, São Tomás passa a nos dar a sua resposta sintetizadora.

Para começar a responder, ele vai nos trazer, de logo, a bela visão medieval da existência, que a modernidade, essencialmente pessimista quanto à criação, perdeu em grande escala. De fato, assevera Tomás, todas as coisas que existem, na medida que existem, e na medida que têm uma determinada natureza, tendem para algum bem. De fato, tudo aquilo que existe recebe a sua existência a partir de algo que é bom; assim, por exemplo, os filhos recebem a sua existência a partir dos pais, como as criaturas recebem sua existência a partir de Deus. Ora, diz Tomás, todo efeito tende a se converter naturalmente no seu princípio, ou seja, o efeito tende a difundir e a existir no sentido daquilo que lhe causou. É por isto que os filhos tendem a ser, por sua vez, pais, no futuro, e todas as criaturas tendem a encontrar em Deus o seu fim último. O bem que causa determina que o bem será, em seu turno, causado pelo efeito.

|Sim, mas certamente o mal existe, no mundo criatural. E isto se deve ao fato de que o bem, nas criaturas, é sempre particular e limitado. Portanto, mesmo que todas as criaturas sejam essencial e substancialmente boas, a própria limitação criatural leva a que elas possam a vir a, acidentalmente, causar o mal. É assim que, por exemplo, o leão é o rei da selva e uma belíssima criatura, mas eventualmente mata a gazela para alimentar-se.

Estamos, aqui, no campo do bem e do mal particulares, concretos; no caso do próprio Deus, porém, ele é o bem universal, absoluto. Sem limites. Não há, portanto, em Deus, nenhuma mistura de mal.

Aquelas criaturas, portanto, que se inclinam ao bem particular, inclinam-se necessariamente ao mal acidental que resulta do bem particular; é o caso do leão que, para alimentar-se, precisa matar a gazela, que citamos acima.

Portanto, os seres inanimados, os vegetais e os animais irracionais estão inclinados sempre a bens particulares. Portanto, suas inclinações naturais implicam, simultaneamente, uma inclinação ao mal acidental que se segue ao bem particular.

O ser humano está, aqui, numa situação curiosa: por sua natureza corporal e animal, está inclinado a bens particulares. Por sua natureza intelectual, ao bem universal.

Mas, no caso de uma criatura que não está inclinada a um bem particular, mas apenas e tão-somente ao bem universal, como é o caso dos anjos, que são criaturas com natureza completamente incorpórea e intelectual, não há nenhuma inclinação que implique algum mal particular e acidental. Os anjos podem, naturalmente, inteligir o bem universal e, portanto, inclinar-se para ele de modo natural. Assim, não há, nem pode haver, nenhuma inclinação natural ao mal, mesmo acidental, nos anjos. Isto quer dizer que qualquer mal que os anjos venham a possuir e praticar decorre de sua liberdade, não de sua natureza. Não há anjos que tenham sido criados já como demônios, isto é, como seres naturalmente maus.

Colocados os termos do encaminhamento do debate, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.

O primeiro argumento diz que Santo Agostinho citou porfírio, para quem haveria “anjos naturalmente mentirosos, que se passam por deuses ou almas de defuntos”. Mas Tomás vai nos dizer que a citação não significa que Santo Agostinho concordasse que os demônios podem ser naturalmente maus. Ao contrário, ele faz a citação justamente para corrigir a opinião de Porfírio, e afirmar que a maldade destes demônios não lhes vem da natureza, mas da vontade. É que Porfírio acreditava que os anjos tinham a constituição, de algum modo, de animais, com algum tipo de corpo sutil e sensitivo, capaz de reações passivas. Ora, prossegue Tomás, animais podem ter inclinações a bens particulares, nos quais o mal vem, acidentalmente, de mistura, como no exemplo dos leões que, para alimentar-se, matam a gazela. Mas os demônios, como Agostinho mesmo ensinou, nada têm de animais em sua natureza. Assim, não têm nenhum tipo de inclinação natural, nem mesmo acidental, para o mal.

O segundo argumento lembra que os seres humanos, segundo a Bíblia (Sab 12, 10), podem ser naturalmente maus. Logo, diz o argumento, os anjos, que são criaturas como os humanos, também poderiam.

Pode-se dizer que, em alguma medida, os seres humanos podem ser naturalmente maus, porque nós somos animais, e portanto dotados de uma sensibilidade voltada às coisas particulares. Assim, de modo similar àquele pelo qual os leões, pelo bem de alimentar-se, matam a gazela, os seres humanos, na busca do bem particular, podem provocar o mal acidental. Isto tanto por parte da inclinação natural (como a destruição que o ato de alimentar-se provoca, por exemplo), quanto por desordens sensíveis, em razão de afetos passionais – como aquele que, por exemplo, escolhe o adultério, por apego excessivo à paixão sexual, sem consideração pelo próprio relacionamento ou pelo relacionamento de um eventual parceiro sexual, está dominado por um vício sensível. Esta desordem natural, nos humanos, na medida que é natural, decorre sempre da sua natureza animal, sensível, particular. Pela sua natureza intelectual, que se inclina ao bem universal (e portanto não envolve nenhum tipo de mal particular acidental), não existe naturalmente algum mal envolvido, mas sempre que há um mal, ele decorre de deliberação e vontade. É o que ocorre sempre com os anjos, que não têm natureza animal e, portanto, somente conhecem o mal como resultado de deliberação e eleição voluntária.

O terceiro argumento lembra que até mesmo animais irracionais podem ter o mal em sua natureza, como o ardil das raposas e a brutalidade dos lobos. Logo, as naturezas não estão livres do mal, nem a dos anjos, conclui.

Sim, é verdade que alguns animais são dotados de certos instintos que parecem desproporcionais, injustos ou desleais, ou que os faz agir de tal modo que, se um humano agisse de maneira similar, estaria pecando. Mas isto, neles, é apenas o modo de ser que, em razão da busca de certos bens particulares (alimento, sobrevivência, por exemplo), leva-os a agir de modo sagaz, conduzindo a certos males acidentais. Mas isto, nas suas naturezas mesmas, não é um mal, senão o modo de ser que a natureza lhes deu para que pudessem sobreviver. Por isto a analogia não funciona, diz Tomás.