Não há dúvida, diz Tomás, que o diabo pecou por querer ser como Deus.

Mas a expressão “ser como Deus” tem dois sentidos, e devem ser muito bem distinguidos.

O primeiro sentido de dizer que se quer “ser como Deus” significa transformar-se em Deus, tornar-se Deus mesmo, equiparar-se a Ele.

Ora, o Diabo, sendo inteligente como é, sabia, por conhecimento natural, que isto seria impossível.

No caso dos seres humanos, sempre pode haver algum tipo de deficiência intelectual, ou mesmo algum tipo de condição emocional (ou mesmo passional) que venha a obscurecer a razão e fazer com que a pessoa deseje aquilo que, sob a reta razão, é obviamente impossível. Como ocorre, por exemplo, quando alguém, acreditando que pode voar, atira-se de um lugar elevado e vem a falecer. Mas no Diabo não há deficiências patológicas no intelecto, nem emoções ou paixões que o possam obscurecer. Assim, ele não cometeria este erro.

No entanto, e ainda que fosse possível que uma criatura se transformasse em outra substancialmente diferente, ou mesmo que viesse a se transformar em Deus, isto implicaria uma transformação tão profunda que ela simplesmente deixaria de ser o que é, ou melhor, quem é, e passaria a ser outra coisa, ou outro alguém. Vale dizer, não há como admitir que um ser inteligente, plenamente inteligente quanto à estrutura das coisas naturais, fosse alimentar um desejo que implicaria, no fundo, a sua própria destruição. Para ser Deus, ele teria que deixar de ser anjo e passar a ser outra coisa. Ou seja, é um desejo que no fundo implicaria sua destruição, e o Diabo sabe disto. Não há como admitir, portanto, que ele quisesse virar Deus, ou virar-se em Deus.

É por isto que não seria razoável que algum ser natural quisesse possuir uma natureza substancial acima da que ele próprio possui. Um rato que quisesse, por exemplo, ser um cavalo, ao transformar-se em cavalo já não seria rato. Deixaria de ser o que é. No entanto, temos que reconhecer que há seres humanos que gostariam de ser alguma coisa que não são.

Isto se deve a uma característica da imaginação humana. De fato, por exemplo, nos contos de fadas, há narrativas de transformações mágicas de natureza, que se dão sem a perda da identidade do ser: pessoas que viram monstros, jovens que viram fadas, e assim por diante. Ora, é certo que podemos nos transformar em seres humanos melhores, sem que deixemos de ser quem somos: podemos adquirir conhecimentos, riquezas, poderes, graus de honra. Mas aspirar a uma natureza substancialmente superior à nossa seria aspirar, no fundo, à própria destruição. Por isto, embora a imaginação humana consiga conceber, por exemplo, que um ser humano se transforme em anjo sem perder sua identidade, isto seria, na prática, impossível.

É por isto que um anjo inferior não poderia desejar transformar-se no superior, ou mesmo em Deus. Este desejo, fruto, nos seres humanos, de uma imaginação fértil, simplesmente não surge nos anjos.

A outra maneira pela qual a expressão “ser como Deus” pode ser entendida é a de desejar assemelhar-se a ele, e neste caso não há nenhum problema de destruição de natureza, ou de impossibilidade ou contradição lógica. Uma criatura pode, de fato, vir a assemelhar-se a Deus, e isto pode acontecer de duas maneiras, uma lícita e outra ilícita:

1. Buscando viver na graça de Deus, buscando propagar o bem, obedecer à lei divina, enfim, viver de um modo tal que, por sua vida, as pessoas possam dar glória a Deus pelo bem que a criatura alcançou e difunde, e reconhece que tem em Deus a fonte. Não pode haver, aqui, nenhum pecado em buscar assemelhar-se a Deus, porque essa semelhança é, em última instância, um dom que o próprio Deus faz à criatura.

2. A criatura pode, porém, desejar assemelhar-se a Deus por usurpação; busca receber os louvores que seriam devidos a Deus somente, não reconhece que Deus é a fonte de todo bem nem é capaz de ser grato, procura ampliar a própria esfera de poder e influência de modo a induzir os outros a tê-lo como divino, prestando a ele a adoração que seria devida a Deus. Elevando-se, assim, em razão de sua própria conduta e ambições, ele procura assemelhar-se a Deus de um modo não natural, não gracioso, mas arrogante, usurpador, que inverte a ordem da glória e força uma semelhança com Deus que não é um dom deste. Neste procedimento, ou mesmo no desejo de agir assim, é que surge o pecado.

É exatamente este segundo caso o pecado do Diabo. Não é que ele desejou ser Deus, no sentido de passar a ser o cume absoluto, de estar acima da criação, de deixar de ser criatura para ser criador. Neste caso, diz Tomás, ele teria que desejar a própria destruição, porque, mesmo que alcançasse o que é impossível, e passasse a ser Deus e não mais uma criatura, ele já não seria mais o que é. Não há maneira para que uma criatura deixe de ser dependente, derivada, criatural em suma, para tornar-se absoluta, divina, independente e originária, salvo a autodestruição, que é impossível para o anjo. Esta observação de São Tomás poderia nos levar a uma bela reflexão sobre o suicídio humano resultante do orgulho de não aceitar o dom da vida, mas isto nos levaria muito longe do objetivo deste artigo. Prossigamos.

Assim, o que o diabo queria era ser deificado, participar da divindade, mas não pela conversão e pela graça, senão pela rebeldia e pela usurpação, pelas forças de sua natureza mesma. Queria receber a glória de Deus sem Deus, queria exercer o poder divino sem submeter-se a Ele, enfim, queria chegar à plenitude da sua existência por suas próprias forças, não pela adesão livre ao amor de Deus.

Ou, como dizia santo Anselmo, citado aqui por Tomás, o Diabo quis ter por usurpação aquilo que ele teria por amor. Em suma, diz Tomás, ele quis ter todas as vantagens de divinizar-se, sem entrar na lógica do amor, mas arrogantemente inaugurando a lógica do poder, da usurpação e da dominação.

Ora, esta divinização usurpada também levou o Diabo a perder a noção de que ele é uma criatura, e portanto depende de Deus. Ora, se ele passou a agir como se sua existência não dependesse de Deus, mas tivesse em si mesmo o fundamento, ele também passou a agir como se os outros, os que caem sob seu poder, dependessem dele, e não de Deus. Assim, o Diabo inaugurou, sob si mesmo, um certo reinado, ou melhor, anti-reinado demoníaco, tentando, também nisto, assemelhar-se a Deus, perversamente.

Neste ponto, Tomás não considera mais necessário revisar os argumentos objetores iniciais. Considera-os suficientemente respondidos. Lembramos que os argumentos afirmavam que o Diabo, sendo um anjo e perfeitíssimo, jamais poderia desejar ser Deus, porque saberia de logo que isto seria impossível, e o impossível não pode ser desejado por uma criatura inteligente. Por outro lado, os argumentos também alegam que participar da divindade é o fim natural de todas as criaturas, e portanto o Diabo não pecaria se o desejasse. Mas, como vimos, o desejo desordenado consiste em usurpar as prerrogativas da participação na divindade sem entrar na lógica do amor. Portanto, as objeções não procedem.