No terceiro capítulo do Livro do Gênesis, logo nos primeiros versículos, a serpente faz uma proposta a Eva, caso ela venha a comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal: “sereis como deuses!”. Esta parece, pois, ser a raiz da atração que este fruto exerce sobre as criaturas: a vontade de romper os limites criaturais e passar a exercer a plenitude que é própria da divindade.

Mas como isto poderia ser possível? Como uma criatura poderia sentir-se atraída por ser aquilo que, de modo nenhum, ela pode ser? Como vimos no artigo anterior, os anjos simplesmente não podem cometer pecados relacionados à luxúria, ao sexo desordenado, nem sequer podem sentir-se inclinados ou deleitar-se na visão do ato sexual de terceiro, simplesmente porque o ato sexual não faz parte de sua natureza. Assim, se a divindade não faz parte da natureza da criatura, como poderia ela sentir-se atraída ou inclinada a querer ser como Deus? Esta inclinação seria simplesmente descabida, porque impossível.

Esta é exatamente a hipótese controvertida neste artigo. Parece que o Diabo não desejou ser como Deus, diz esta hipótese, para provocar esta interessante discussão. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento diz que a vontade só pode inclinar-se para aquilo que lhe chega através da inteligência. É preciso que algo seja conhecido, e conhecido como um bem para a criatura, para que a vontade venha a inclinar-se até este algo. Somente, pois, aquilo que é inteligível, ou seja, que pode ser conhecido como verdadeiro e possível pela inteligência da criatura, pode ser apresentado à sua vontade como um bem a ser desejado, e só neste desejo pode haver retidão ou pecado. Mas a ideia de que uma criatura possa ser igual a Deus não é razoável, porque é contraditória em si mesma: a criatura é limitada, finita, causada, derivada, enquanto Deus é originário, ilimitado, sem causa, eterno e imutável. Ora, se a criatura pudesse ser Deus, isto significaria que o limitado passaria a ser ilimitado, o derivado passaria a ser originário e assim por diante, o que, além de contraditório, seria absurdo. Assim, se a inteligência não pode aceitar que a criatura possa a vir a igualar-se a Deus, então a vontade não pode inclinar-se a um desejo assim. Logo, conclui o argumento, o Diabo não poderia desejar ser como Deus.

O segundo argumento vai por um caminho oposto; ele lembra que todas as criaturas foram criadas para ter em Deus o seu fim natural. Isto é, estamos todos destinados à glória, como fim último, num processo que a Primeira carta de São Pedro, 2, 4, chama de “participação na natureza divina”. Ora, se participar da natureza divina é o fim natural de toda criatura, desejá-lo não pode ser pecado. Deste modo, conclui o argumento, se o Diabo desejou ser como Deus, isto significa que ele não desejou ser Deus (o que seria impossível), mas apenas ser a ele semelhante, o que não é, em si mesmo, pecado.

O terceiro volta à questão da impossibilidade de ser Deus. O anjo é um ser de inteligência mais poderosa do que a dos humanos. Mas nenhum humano, salvo se débil de inteligência, aspira virar anjo, ou muito menos virar Deus, porque qualquer aspiração da criatura sempre depende da sua razoabilidade, ou, ao menos, de estar no campo do possível. Logo, tampouco um anjo pecaria desejando virar Deus, porque seria um desejo impossível, o que sua inteligência logo perceberia. Assim, o argumento conclui que o Diabo nunca poderia querer ser como Deus.

O argumento sed contra toma aquela passagem de Isaías 14, que a Tradição sempre aplicou ao Diabo, e que registra, como dele, as seguintes palavras: “Tu dizias: ‘Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. (…) 14.Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo”. E citando Santo Agostinho, o argumento conclui que a ambição fundamental do Diabo, na sua arrogância, é, e sempre foi, ser como Deus.

Colocados os termos do debate, é hora de examinarmos a resposta sintetizadora de São Tomás.

Não há dúvida, diz Tomás, que o diabo pecou por querer ser como Deus.

Como isto se deu? Veremos no próximo texto.