Vimos, no texto anterior, que Tomás inicia sua resposta sintetizadora ensinando que há dois modos pelos quais pode-se dizer que uma criatura se envolve com o pecado: como partícipe ou como autor.

Como partícipes, eles de fato podem envolver-se em qualquer espécie de pecado. De fato o fazem, ao estimular e induzir os seres humanos a cometê-los, apreciando e comprazendo-se neles.

No entanto, como autores, ou seja, como pecados próprios e em primeira pessoa, os demônios cometem apenas os pecados estritamente espirituais. Como vimos no outro texto, não seria razoável admitir que alguma criatura, mesmo uma criatura poderosa como os anjos, pudessem tender a vícios que não são adequados à sua natureza, ou seja, que eles simplesmente não poderiam praticar pessoalmente. Ora, os vícios da arrogância (soberba ou orgulho) e da inveja são os únicos vícios afetados a uma criatura puramente espiritual.

São Tomás mostra que há, inclusive, uma sequência característica do modo angelical (ou, neste caso, poderíamos dizer, do modo demoníaco) de pecar.

De fato, os anjos inclinam-se aos bens espirituais, naturalmente. Nesta inclinação, a forma fundamental de pecar seria desatender à ordem dos bens, estabelecida por aquele a quem cabe exercer a autoridade de fazê-lo. Portanto, buscar os bens espirituais sem atender à sua hierarquia estabelecida por alguém superior a si mesmo pode ser descrito, exatamente, como orgulho, soberba ou arrogância. Este é, portanto, o pecado fundamental dos anjos. Tomemos, por exemplo, o poder que os anjos têm sobre a matéria; ele é bom, ou seja, é fundamentalmente bom controlar a matéria. Ao exercê-lo de modo a ordenar o universo ao seu fim último, que é Deus, eles fazem o bem. Por outro lado, ao exercê-lo para engrandecer a si mesmos, desprezando a glória de Deus, eles inserem uma desordem na criação que, em última instância, desrespeita a ordem dos bens, colocando o bem próprio acima do bem de Deus. Neste exemplo, pois, fica clara a maneira pela qual eles pecam por soberba.

E desta desordem surge o espaço para a inveja. Ao colocar-se como centro, como destinatário da honra e da glória que seria devida ao superior, ele passa a perceber que, cada vez que a honra e a glória são dadas a Deus ou a quem de direito, ela deixa de ir para ele. Ele passa a ver, portanto, o bem do outro, como um impedimento ou diminuição do seu próprio bem, num egoísmo que não se conforma à devida ordem. O anjo mau tem, assim, inveja da glória tributada a Deus, tem inveja da glória tributada aos outros anjos bons, tem inveja até de Deus porque, no fundo, sabe que mesmo o poder que exerce é permitido por Deus, que é capaz de tirar um bem maior até do mal que as criaturas praticam. Ao saber-se involuntariamente usado para a maior glória do próprio Deus, mesmo quando está apenas em busca do seu próprio bem, o demônio é corroído pela inveja. Como também quando vê os seres humanos glorificados por Deus, quando andam, pela graça, no caminho da santidade. Como um mau aluno inteligentíssimo, que deliberadamente se recusa a colaborar com a classe e quer provocar a reprovação dos colegas de turma, o demônio tem inveja até dos seres menos inteligentes, mas que caminham no sentido do bem.

Colocados os fundamentos para encaminhar o debate, passaremos a revisitar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento diz que todo aquele que participa, obtém deleite e se compraz com algum pecado, comete-o também. Ora, diz o argumento, Santo Agostinho lembra que os demônios se comprazem nas obscenidades e pecados sexuais. Assim, o argumento conclui que, neles, podem haver tais pecados, e não somente a soberba e a inveja.

Não se trata de apetecer pecados sexuais, ou mesmo deleitar-se neles, diz Tomás. Os anjos não podem apetecê-los ou mesmo desejá-los, simplesmente porque o sexo não é um bem para eles. O que ocorre é que eles sabem que a desordem sexual, nos seres humanos, é um pecado que atinge algo de muito importante para a nossa espécie, que é o sexo. E, portanto, do mesmo modo que a ordem sexual reta é tão gloriosa para nós, a desordem sexual é um pecado grave para os humanos, que atrapalha a caminhada humana à santidade. Ora, sendo um obstáculo que se interpõe entre os humanos e seu maior bem, que é a santidade, o deleite que os demônios encontram na desordem sexual humana fundamenta-se, em última instância, na inveja, conclui Tomás.

O segundo argumento lembra que, de modo similar à soberba e à inveja, também a preguiça, a ira e avareza poderiam ser classificados como pecados espirituais; assim, uma vez que os pecados espirituais são próprios dos seres espirituais, como os pecados carnais são próprios dos seres carnais, teríamos que admitir, conclui o argumento, que os anjos também podem cometer os pecados da ira, da avareza e da preguiça, e que não apenas os pecados de soberba e inveja lhes seriam próprios.

Não é assim, diz Tomás. E passa a fazer uma breve explanação sobre os pecados da avareza, da ira e da preguiça.

A avareza, ensina Tomás, é, no sentido estrito e próprio, um apetite descontrolado pelas coisas materiais, ou melhor, pelos bens econômicos, aqueles que podem ser avaliados monetariamente e que são necessários à vida terrena. Mas as coisas que têm valor econômico não apetecem aos anjos, como tampouco apetecem os pecados sexuais; estão para além de sua natureza, não são bens para ele, não podem despertar neles nenhuma inclinação. Assim, eles não podem cometer o pecado de avareza, propriamente dito.

Mas, se tomarmos a avareza em sentido amplo, como um certo desejo de domínio, de poder temporal, de controle sobre os rumos das coisas, da história, da economia, então ele surge como um desdobramento do pecado da soberba, ou seja, daquela inclinação arrogante e desordenada para governar e submeter tudo a si que é própria dos demônios. Assim, em sentido amplo, compreendendo a avareza como resultado da arrogância que quer poder, os demônios podem cometê-la. Neste caso, porém, trata-se, fundamentalmente, de um pecado de soberba.

No caso da ira pecaminosa, trata-se de uma paixão, isto é, de uma reação destemperada da sensibilidade a um estímulo que causa uma forte repulsa; envolve, pois, um descontrole corporal mesmo, no campo das emoções. É um pecado impossível para os anjos, simplesmente porque não há, neles, o campo da sensibilidade e das emoções relacionadas com os órgãos do corpo. É claro que os demônios são capazes de fortes reações explosivas, mas elas não envolvem o descontrole emocional, e somente metaforicamente podemos chamá-las de ira.

Por fim, Tomás trata da preguiça, ou acídia, que é, segundo ele, uma forma de tristeza que torna os atos espirituais pesados, repugnantes mesmo, à pessoa humana. A preguiça, no sentido clássico, não se limita àquela moleza para trabalhar, mas é muito mais próxima do sentimento de depressão que torna a alegria de Deus estranha ao ser humano, dificultando para ele alegrar-se no que é bom. Este tipo de pecado, diz Tomás, envolve a corporeidade, porque cria um descompasso entre a corporeidade humana, que o insere no tempo e no espaço, por um lado, e a alegria espiritual a que ele é chamado quando aceita sua condição e caminha para Deus. O tempo torna-se um transtorno, a impressão é de que ele passa muito devagar ou rápido demais e as tarefas humanas tornam-se um fardo. Há um sentimento de deslocamento espacial, uma rejeição ao bem e até uma inclinação à autodestrutividade. Tudo isto sinaliza que este tipo de pecado relaciona-se fortemente com a corporeidade, tanto que pode levar ao próprio suicídio, que é, no limite, a destruição da integridade corpo-espírito do ser humano. Não é, pois, um pecado que possa atingir os anjos, que são naturalmente espirituais e, portanto, incorpóreos. Mesmo os demônios, que rejeitam expressamente o bem divino, não sentem o peso do tempo e do espaço nem tendem à autodestruição.

Por isto, conclui Tomás, somente a soberba e a inveja podem ser adequados aos demônios; e, ainda assim, precisamos lembrar que a inveja que atinge os demônios não é como aquela que nos atinge e desregula nossos sentimentos e nossas emoções: a inveja, neles, é puramente volitiva, e se apresenta como uma inclinação a rebelar-se contra o bem do outro, sem envolver nenhum sentimento ou emoção. É uma inveja fria, cruel, intelectual.

Por fim, o terceiro argumento lembra que, pela classificação dos vícios capitais estabelecida pelo Papa São Gregório Magno, estes sete vícios dão origem a pecados derivados; assim, a soberba daria origem, por exemplo, à vanglória, e a inveja, à maledicência. Logo, a soberba e a inveja não seriam os únicos pecados próprios dos anjos, mas também os pecados deles derivados, conclui o argumento.

Sim, Tomás concorda. Não é que os pecados que decorrem da soberba e da inveja sejam pecados diversos, inteiramente alheios a estes, mas são deles decorrentes, e portanto podem ser cometidos pelos anjos. Neste sentido, a soberba e a inveja continuam sendo os únicos, mas são como que pecados complexos, que dão origem a condutas desordenadas sob várias facetas.