Vimos, então, no artigo anterior, que os anjos podem pecar. Nunca por ignorância ou erro sobre a natureza, mas, no caso, por desatender à devida ordem no bem, ordem esta que, em última instância, é estabelecida por Deus. Ora, o próprio exemplo que Tomás dá, na resposta ao quarto argumento objetor, mostra como se dá isto: rezar é um bem, mas rezar desordenadamente, fora da regra da fé, é certamente um pecado. Os antigos diziam: lex orandi, lex credendi, isto é, a oração deve seguir a fé. Assim, uma missa negra, que viola a ordem da fé, é um pecado, porque subverte o bem da oração, pela desordem nas prioridades: toma aquilo que há de mais elevado e dirige a um fim espúrio.

Portanto, se os anjos não pecam por ignorância ou erro, tampouco podem pecar para atender a inclinações corporais desordenadas, simplesmente porque não são corpóreos. Os anjos não poderiam, por exemplo, mutilar-se ou desfigurar o próprio corpo pecaminosamente, simplesmente porque não são providos de corpos. Próprio dos anjos seria, apenas, o pecado tipicamente espiritual. Mas que pecados são estes?

A hipótese controvertida inicial demonstra a admissão de que, com certeza, a arrogância (ou soberba) e a inveja são pecados puramente espirituais, que podem e são cometidos pelos anjos; mas não seriam os únicos pecados que eles poderiam cometer; parece, diz a hipótese, que os anjos podem cometer outros pecados além do orgulho e da inveja. São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese.

O primeiro argumento diz que todo aquele que é capaz de se deleitar num determinado pecado é capaz de cometê-lo. Ora, diz o argumento, Santo Agostinho, na obra “Cidade de Deus”, nos lembra que os demônios deleitam-se especialmente com as obscenidades e desordens sexuais. Assim, conclui o argumento, eles são capazes de cometer estes pecados.

O segundo argumento lembra que, do mesmo modo que podemos dizer que o orgulho e a inveja são pecados propriamente espirituais, também podemos afirmar que são espirituais os pecados da preguiça, da avareza e da ira, por exemplo. Ora, se os pecados carnais são próprios dos seres carnais, então os pecados espirituais são próprios dos seres espirituais. Portanto, se há outros pecados espirituais além do orgulho e da inveja, os anjos também podem cometê-los, conclui o argumento.

O terceiro argumento lembra que, na classificação dos pecados feita por São Gregório Magno, o grande Papa, os pecados capitais sempre fazem nascer uma série de pecados derivados. Do orgulho, por exemplo, pode nascer a vanglória, como da inveja pode nascer a murmuração ou a maledicência. Ora, onde se coloca uma causa, os efeitos surgirão, diz o argumento; se os anjos têm, portanto, o orgulho e a inveja, deverão ter também os seus pecados derivados, como a vanglória, a murmuração e a maledicência. Disto tudo fica claro, conclui o argumento, que os anjos podem cometer outros pecados além do orgulho e da inveja.

Por fim, o argumento sed contra torna a Santo Agostinho, que, na “Cidade de Deus”, ensina que o Diabo não é fornicador, nem beberrão, nem nada deste tipo, mas é arrogante e invejoso. Assim, apenas estes dois pecados podem ser encontrados nos anjos, conclui o argumento.

Na sua resposta sintetizadora, Tomás vai nos explicar que há duas maneiras pelas quais podemos dizer que uma criatura se envolve com o pecado: como partícipe ou como autor.

Como partícipes, os demônios estão envolvidos em toda espécie de pecados, porque estimulam e induzem os seres humanos a cometê-los e comprazem-se em todos eles.

Mas, propriamente como autores, ou seja, próprios de sua natureza, há apenas os pecados propriamente espirituais; não seria razoável admitir que alguma criatura, mesmo uma criatura poderosa como os anjos, pudessem tender a vícios que não são adequados à sua natureza. Ora, os vícios da arrogância (soberba ou orgulho) e da inveja são os únicos vícios afetados a uma criatura puramente espiritual. E mesmo dentre eles há uma sequência característica do modo angelical (ou, neste caso, poderíamos dizer, do modo demoníaco) de pecar.

Que sequência é esta, pela qual se verifica, na prática, o pecado dos anjos? É o que veremos no próximo texto.