Os anjos podem pecar. A possibilidade desta opção radical contra o amor está como que embutida na própria estrutura de uma criação feita no amor, e que por isso envolve a necessidade de que a adesão ao amor seja livre. A adesão livre ao amor é a própria essência do ser pessoa: e a adesão livre ao amor pressupõe a possibilidade de que a adesão não aconteça: eis a razão de ser do pecado.

Assim, quaisquer criaturas pessoais, ou seja, aquelas criaturas dotadas de inteligência e de vontade e, portanto, capazes de conhecer o amor e deliberadamente encaminhar-se para ele, podem pecar. É assim que Tomás inicia sua resposta sintetizadora.

Nenhuma criatura pessoal é, portanto, naturalmente impecável. A natureza pessoal traz em si a possibilidade de pecado como parte da própria estrutura da pessoalidade. É claro que Deus pode conceder à criatura inteligente uma graça extraordinária que a torne impecável, como fez com Maria Nossa Senhora. A impecabilidade, portanto, é uma característica decorrente da graça, não da natureza, mesmo dos anjos.

E o que é pecar? Tomás nos dirá que pecar, em sentido amplo, é desviar-se da retidão, do padrão que um ato deve ser. Isto tanto no plano natural, quanto no plano artificial, quanto no moral. No plano natural, diz-se que uma coisa pecou quando ela não se desenvolve a contento. Lembro-me que, quando era criança, na vida rural, ouvia muito meu pai dizer, referindo-se a uma fruta que não se desenvolveu ou definhou: aquela fruta pecou. De fato, o dicionário registra um significado do verbo “pecar” como não se desenvolver, definhar, ou seja, não alcançar a retidão que se esperava naturalmente de alguma coisa. No plano artificial, usa-se a noção de pecar, por exemplo, para criticar um texto, dizendo que ele pecou por excesso, ou por verborragia, ou pelo mau uso da gramática. No plano moral, pode-se usar a palavra para descrever uma conduta que não se ajusta a um determinado padrão moral (aquele homem pecou por não se adaptar ao código de vestimenta da empresa), ou, mais propriamente, para descrever a situação daquele que se afasta do padrão próprio aos que vivem sob o amor de Deus.

Ora, diz Tomás, onde não há um padrão externo não há desvio de padrão. Se estou traçando, com um lápis, uma linha livre numa folha de papel, ninguém pode, de fora, dizer que a minha linha está desviada ou torta: a minha vontade e a habilidade dos meus dedos são o próprio padrão que a linha deve seguir, e portanto nenhum pecado é possível, neste caso. De qualquer modo que a linha saia no papel, ela estará dentro do padrão de retidão que é determinado por mim mesmo ao traçá-la.

No entanto, em sentido absoluto, só Deus pode ser o padrão completo de todos os seus atos. Nenhum ato divino ordena-se a algum fim externo ao próprio Deus, porque não há nada acima de Deus que possa estabelecer critérios aplicáveis a ele.

No caso das criaturas, porém, os seus atos, em especial os seus atos de vontade, não trazem em si mesmos os critérios para a própria retidão. A própria criatura não tem em si mesma o seu fim último; o seu fim último é Deus. Portanto, uma vez que seus atos, no fim, visam aproximar a criatura de Deus, este é o critério pelo qual se medem. Pecado, pois, é o ato que se desvia do fuim último da criatura, isto é, que a leva para longe de Deus.

Assim, diz Tomás, só Deus não peca nunca. Qualquer criatura dotada de pessoalidade pode pecar, mesmo em tese, já que pode eleger um ato que a afaste de Deus, que é seu fim último. Dando um exemplo bem rudimentar, Tomás lembra que cabe ao general definir a estratégia de guerra; portanto, sua conduta estabelece um padrão. Mas o soldado deve estar integrado ao exército e submeter-se aos planos do general. Grosseiramente falando, o general não peca, porque não tem outro plano de guerra acima de si mesmo para servir de padrão para sua conduta. O soldado sempre tem, em sua conduta, a possibilidade de pecar, ao obedecer ou desobedecer aos planos superiores. Neste sentido, e usando uma metáfora, as criaturas estão para o soldado como Deus está para o general.

Colocados os princípios para a resposta, Tomás passa a revisitar as objeções iniciais.

O primeiro argumento diz que o pecado, sendo a privação de uma perfeição, só pode existir em seres que apresentem potencialidades naturais a serem aperfeiçoadas ainda, isto é, seres cuja natureza ainda não atingiu todas as perfeições que pode atingir naturalmente. Mas os anjos já atingiram, desde criados, todas as perfeições naturais que podem atingir. Assim, não poderiam ter privações, falhas naturais, já que são naturalmente perfeitos. Assim, o argumento conclui que os anjos não podem pecar.

Não é assim. Dentre os vários sentidos da palavra “pecar”, diz Tomás, é certo que os anjos não podem ser sujeitos do pecado no sentido de “desvio da norma de perfeição natural”, como se diz que a fruta (que não se desenvolveu adequadamente) “pecou”. Mas o sentido próprio de “pecar” envolve o sentido moral, ou seja, aquela escolha deliberada da vontade que elege um bem aparente em prejuízo do bem real, que é Deus. Neste sentido, a inteligência dos anjos pode levar sua vontade a pecar.

O segundo argumento é aquele que diz que nos corpos celestes (como se acreditava na ciência do tempo de Tomás) não há mal nem defeito. Ora, diz o argumento, os anjos são superiores aos corpos celestes. Logo, conclui o argumento, neles não pode haver nenhum mal, nem o mal do pecado.

Tomás nos explica que os corpos celestes têm apenas as operações naturais, porque não são seres pessoais. E nas suas operações naturais eles apresentam a regularidade e a completude da perfeição. Mas os anjos, além das perfeições naturais, têm a dimensão pessoal, e nesta dimensão, podem apresentar o desvio do mal, e, portanto, pecar.

O terceiro argumento diz que aquilo que é natural num ser não pode deixar de existir nele. Ora, vimos em artigos anteriores que os anjos amam a Deus naturalmente; logo, não podem deixar de amá-lo, pecando. Assim, o argumento conclui que os anjos não podem pecar.

Sim, é fato que os anjos, naturalmente, amam a Deus. Fazem-no pela sua vontade. No entanto, nada impede que eles elejam outro ser, ou a si mesmos, para serem objeto deste amor que deveria estar dirigido a Deus. Uma vez que conhecer ao Deus (verdadeiro) demanda sempre um dom sobrenatural, consistente na graça da revelação, e que sempre é possível rejeitar a graça e perder a salvação, o pecado é sempre possível, para os anjos, como para nós.

O quarto argumento lembra que nenhum ser pessoal, ou seja, nenhuma criatura inteligente, pode escolher deliberadamente o mal. O bem é aquilo que é capaz de atrair a vontade, e portanto o livre arbítrio consiste em discernir entre o bem real e o bem aparente, numa realidade em que o bem absoluto, que é Deus, não está em jogo. Ora, quanto às coisas que não são Deus, diz o argumento, ou seja, na realidade criatural, no qual a vontade deve escolher entre dois bens, o engano só ocorre porque a criatura que escolhe não é capaz de conhecer perfeitamente o bem que há nas criaturas para as quais a sua vontade tende. Mas os anjos têm perfeito e completo conhecimento das realidades criadas, desde o momento em que são trazidos aos ser por Deus. Logo, não haveria a possibilidade de que se enganassem, trocando o bem real pelo bem aparente em suas escolhas. Assim, o argumento conclui que os anjos não podem pecar.

O pecado no sentido estrito de ato desordenado, no plano moral, que afasta do amor de Deus, pode ocorrer de dois modos, diz Tomás em sua resposta. São eles:

1. Quando se escolhe como bom algo que, em si mesmo, é mau. O exemplo que Tomás dá, aqui, é o do adultério. O adultério, em si, é algo mau. Mas, por deficiência de conhecimento ou por equívoco mesmo, o sujeito coloca o prazer sensível acima da verdade da doação amorosa e exclusiva no matrimônio. Ele segue suas inclinações corporais, busca o deleite sensível, quer por ignorar a seriedade do compromisso matrimonial, que por não conseguir resistir aos maus hábitos ou paixões desordenadas que não estão submetidas à sua razão. Por este modo os anjos não podem pecar, quer porque não ignoram nada do que deve ser intelectualmente conhecido pelas criaturas pessoais, quer por não serem corporais, e portanto não estarem sujeitos à desordem das paixões ou aos vícios da sensibilidade corporal, como a desordem que precedeu ao primeiro pecado dos nossos pais.

2. O outro modo não envolve ignorância ou desordem sensível viciosa, mas a desordem no livre arbítrio, que leva a desprezar a própria hierarquia dos bens e escolher o bem inferior no lugar do bem mais elevado, desprezando a reta ordenação estabelecida por Deus. Neste caso, diz Tomás, a falta de retidão no agir não decorre de erro ou ignorância na avaliação dos bens naturais, nem sequer uma desordem nas paixões ou mesmo maus hábitos quanto à sensibilidade. Trata-se, aqui, de desobediência consciente, que despreza a ordem divina em favor de outras prioridades. Este pecado, conclui Tomás, os anjos podem cometer – e alguns deles de fato o fizeram.