Até agora, tínhamos examinado os anjos em sua natureza mesma e em seu caminho para a santidade. Passamos a examinar, agora, o outro lado da moeda: o mau uso da liberdade pelos anjos, que leva ao seu pecado e ao seu afastamento de Deus. Portanto, a primeira coisa a estabelecer é se os anjos são, mesmo em tese, capazes de pecar.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que os anjos não podem agir maliciosamente, isto é, não podem escolher contra Deus, de tal modo a serem responsáveis pelo mal que provoquem deliberadamente. São quatro os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial de que os anjos não podem pecar.

O primeiro argumento diz que somente seres ainda não plenos, ou seja, que possuem potencialidades em sua natureza mesma, são capazes de pecar, porque o mal é uma privação, e o pecado é um mal. Logo, uma vez que os anjos são naturalmente completos, isto é, já são criados com sua natureza perfeita, completa, sem outras potencialidades a serem completadas, não poderia haver neles nenhuma privação. Logo, o argumento conclui que os anjos não podem proceder de modo pecaminoso.

O segundo argumento soa, para nós, bastante arcaico e desatualizado; no tempo de Tomás, acreditava-se, pela melhor ciência, que os corpos supralunares eram de outra natureza com relação aos corpos terrestres; perfeitos, incorruptíveis e imutáveis. Ora, prossegue o argumento, os anjos são ainda mais dignos do que os corpos celestes. Se nos corpos celestes, como se acreditava no tempo de Tomás, não poderia haver nenhuma privação, e portanto o mal não poderia existir, o argumento conclui que tampouco nos anjos, ainda mais elevados do que aqueles, o mal poderia apresentar-se. Logo, os anjos não poderiam pecar, diz o argumento.

O terceiro argumento afirma que aquilo que é natural num ser está sempre presente nele. A vontade do anjo, diz o argumento, inclina-se naturalmente para amar a Deus. Ora, se isto é natural neles, então não pode deixar de acontecer, forçosamente. Mas aqueles cuja vontade inclina-se naturalmente ao amor de Deus não pecam nunca, porque pecar é dirigir a vontade contra o amor de Deus. Assim, o argumento conclui que os anjos não podem pecar.

Por fim, o quarto argumento faz um raciocínio que pode parecer estranho para nós, que estamos acostumados a pensar no livre arbítrio como uma faculdade que permite escolher indiferentemente entre o bem e o mal; não é assim, para Tomás. De fato, por uma determinação estrutural, a vontade só pode se inclinar para o bem, já que o bem tem razão de fim, e o fim é aquilo que todas as coisas buscam, como diz Aristóteles no primeiro parágrafo do primeiro livro da Ética a Nicômaco. Ora, se é assim, diz o argumento, então o livre arbítrio somente pode consistir entre escolher aquilo que é um bem real, por um lado, contra aquilo que é um bem aparente, de outro. O livre arbítrio erra, ou peca, quando opta pelo bem aparente, que na verdade é um mal, contra o bem real, que é bem de verdade. Mas os anjos têm conhecimento pleno, desde a sua criação, sobre todas as coisas criadas, como estudamos nas questões anteriores. Assim, prossegue o argumento, seria impossível que eles fossem enganados pelas aparências de bem sob as quais o mal se oculta; donde o argumento conclui que eles sempre escolhem o bem verdadeiro, e portanto jamais pecam.

O argumento sed contra, mais uma vez, apela para a autoridade das Escrituras. De fato, em Jó 4, 18, registra-se que “[Deus] até mesmo em seus anjos encontrou defeito”. Ora, se é assim, o argumento pode defender, com alicerce bíblico, que os anjos podem pecar.

Sim, qualquer criatura dotada de inteligência pode pecar, diz Tomás em sua resposta sintetizadora. A liberdade do amor pessoal, que é o convite de Deus às suas criaturas, traz embutida a possibilidade de pecar. Somente somos livres para amar (e não há outra maneira de amar senão livremente) se a nossa vontade incluir a possibilidade de escolher contra o amor. Não fomos criados como robôs pré-programados a obedecer, nem somos convidados à submissão ou obediência cega, mas nós todos, criaturas inteligentes, fomos criados para conhecer a verdade e querer o bem, ou seja, para buscar e escolher o amor a partir de dentro. A possibilidade de pecar, portanto, é parte natural da própria estrutura de um universo fundado no amor, e a capacidade de nunca pecar é algo que somente a graça de Deus pode dar a uma criatura para a qual a própria natureza embute a chance de pecar.

Este é um assunto que merece um estudo mais longo. Faremos isto no próximo texto.