Toda vez que alguma coisa é transportada por outra a algum destino, é preciso que este destino seja certo. Não existe viagem para um lugar incerto, como ninguém pode despachar uma carta sem que o endereço seja conhecido e especificado. É assim que inicia a resposta sintetizadora de Tomás neste artigo.

Ora, como as criaturas inteligentes não podem chegar a Deus por si mesmas, mas dependem da graça, ou seja, da atuação do próprio Deus que as encaminha ao seu destino final, que é a bem-aventurança, é preciso que este destino seja um destino certo; um movimento, em que se é movido por outro, para destino incerto, seria incompreensível, muito mais no caso do movimento para Deus.

O destino, portanto, é o próprio Deus.

Mas há uma ressalva a fazer, aqui. Os bem-aventurados, ou seja, aquelas criaturas que chegam à presença do próprio Deus na vida eterna, de fato estão na presença de Deus e podem vê-lo, por causa do favor, da graça do próprio Deus. Mas eles não podem vê-lo da própria maneira que Deus se vê. Eles o veem limitadamente, porque, mesmo estando na glória, continuam sendo apenas criaturas; não se transformam no próprio Deus. Assim, é como criaturas bem-aventuradas que eles estão na presença de Deus. Somente Deus pode ver a si mesmo plenamente, assim como ele mesmo é. As criaturas podem vê-lo sob diversos pontos de vista (na verdade, sob infinitos pontos de vista), mas cada ponto de vista criatural, na glória, é específico: Deus mesmo reserva, para cada criatura, o modo e a intensidade pela qual ela verá o próprio Deus. Ou seja, existe um modo certo, final, definitivo, pelo qual a criatura chega à felicidade de encontrar-se com Deus. Este modo é particular e limitado, e de graus diferentes para cada criatura. Embora esta limitação seja plena e suficiente para preencher inteiramente a criatura de eternidade. No entanto, esta plenitude não coincide com o modo completo pelo qual Deus vê a si mesmo. É e será sempre criatural.

Atingida, pois, esta plenitude criatural da felicidade, não há mais variação. A criatura está saciada de felicidade, e este grau, por preencher plenamente a criatura, não muda mais, pela eternidade. Assim, os santos anjos, na glória, não poderiam conhecer algum aumento de felicidade.

Colocados estes princípios, Tomás passa a reexaminar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento lembra que, se a caridade é o fundamento do mérito, que leva a merecer a vida eterna, então a própria vida eterna, que é a vida na presença de Deus, é a vida da caridade perfeita. Ou seja, ela deve levar a um mérito muito mais efetivo, e portanto a merecer o próprio aumento da felicidade final, para os santos anjos que estão na glória de Deus.

Tomás responde que não é assim. Ele nos dará uma longa resposta,, que inicia com a constatação de que “mérito” é uma noção própria daqueles que estão a caminho, dos que ainda militam no percurso para chegar à glória.

Ora, diz ele, aqueles que estão a caminho não são somente conduzidos de modo passivo, como se fossem alguma coisa sem vida, algum objeto inanimado, meramente passivo nas mãos de Deus. O caminho para a salvação é um caminho de relação, em que a atividade da criatura é parte do próprio processo salvífico. No caminho da salvação, a criatura opera, junto com a graça, no sentido do fim.

Ora, diz Tomás, quando uma criatura opera com vistas a um fim, há duas hipóteses:

1. O fim decorre da própria atuação dela, e neste caso não falamos de nenhum tipo de mérito envolvido. Assim, da própria atividade de estudar resulta a aprendizagem; do próprio ato de comer resulta a nutrição, e assim por diante.

2. O fim não está ao alcance do agente, e depende da avaliação de seu mérito por terceiro. Assim, estudar leva diretamente a aprender, mas não leva diretamente à boa nota na prova. É preciso submeter-se ao exame, ter suas respostas avaliadas pelo professor e, finalmente, apurada a qualidade das respostas (ou seja, o mérito do estudante), o professor outorga a justa nota. O aluno não pode atribuir a si mesmo a nota, neste caso. Outro exemplo é o de uma prova olímpica: não é o simples resultado de mergulhar numa piscina e nadar acima de determinada velocidade que permite ao atleta alcançar uma medalha olímpica para si mesmo. Obter a medalha não está ao seu alcance individual. É preciso que chegue o tempo próprio para haver olimpíada, e que ele atinja o desempenho preliminar suficiente para entrar na prova; depois, ele precisa apresentar-se no dia fixado pelo comitê de prova, competir com os demais e ser mais rápido que eles. O comitê, então, apurando o mérito do atleta, outorga a medalha que só o próprio comitê pode outorgar.

Isto explica todo o funcionamento do mérito como pressuposto da glória. Mas aos que estão na glória não estão sob esta lógica, porque não estão mais em busca de um prêmio que ainda não alcançaram, mas estão a usufruir de um prêmio que já é seu.

Assim, por exemplo, o professor submete-se ao exame preliminar para provar que pode ensinar naquela instituição. Mas, logrando aprovação, já é professor, e já não se submete à lógica do exame admissional. As aulas que der ali já não são pressuposto para a sua admissão, mas consequência dela.

Com a glória, e com a caridade que os santos anjos vivem ali, há algo similar. Para chegar à glória, e adquiri-la, os anjos colaboram com a graça, e portanto passam pelo processo de merecimento. Mas, na glória, eles simplesmente usufruem do que conquistaram. Neste sentido Tomás diz que a graça se move com a criatura, mas a glória move a criatura. Ora, quem se move adquire mérito, mas quem é movido, não.

Mais um exemplo seria a conduta de quem quer adquirir uma virtude. Quando ele faz atos de continência, isto é um esforço consciente que o encaminha à aquisição da virtude, porque implica uma resistência ativa contra uma inclinação desordenada da natureza. Assim, um ato de continência faz conquistar a virtude da temperança. Mas, depois que o sujeito já tem a temperança, seus atos de continência são antes o resultado da virtude do que o pressuposto dela. De modo análogo, diz Tomás, os atos de caridade dos santos anjos são, antes, resultado da glória do que pressuposto dela. São o gozo da glória plena já alcançada, e não pressuposto para algum aumento da glória.

O segundo argumento lembra que Deus usa alguns dentre nós como instrumentos para a nossa salvação e para a difusão de sua bondade; e usa os santos anjos para aqueles ministérios espirituais em favor dos que serão salvos. Ora, diz o argumento, se eles são úteis para os que se salvam, não seria razoável que seu ministério não fosse útil para eles próprios. Assim, diz o argumento, eles podem merecer o aumento da felicidade final, pelo seu ministério.

Na sua resposta, São Tomás diz que o argumento acaba misturando os dois sentidos da noção de “útil”. De fato, há dois sentidos para “útil”:

1. Algo pode ser útil quando ajuda o caminho para um fim. É neste sentido que o agir da criatura é útil, quando assistida pela graça, para que a criatura chegue ao fim.

2. Algo pode ser útil simplesmente por fazer parte de um todo, desempenhando ali alguma função. Neste sentido, dizemos que as colunas são úteis à manutenção da estrutura de um edifício. Não que elas venham a merecer algo por isto, mas porque elas têm uma função a desempenhar nesta estrutura.

É neste último sentido, diz Tomás, que dizemos que os santos anjos são úteis à salvação das demais criaturas: como fazem parte da estrutura do bem e da perfeição, eles os difundem ao cooperar com Deus no ministério da salvação. A perfeição e o bem são difusivos, como lembra Tomás. Mas isto é, no entanto, consequência da glória, e não causa de seu aumento.

O terceiro argumento lembra que progredir para aumentar o bem, quando não se está no máximo do bem, é algo que só pode ser impedido por alguma estrutura imperfeita. Ora, os anjos não estão no máximo do bem, mesmo quando estão na glória, porque o máximo do bem é a fruição que Deus tem de si mesmo. Ora, se eles fossem impedidos de tender a esse máximo, isto seria uma imperfeição na glória, o que seria impensável. Assim, conclui o argumento, se eles não pudessem progredir em felicidade a glória seria imperfeita.

Há que se explicar direitinho, aqui, em que sentido podemos falar em “máximo do bem”. Em sentido absoluto, o máximo do bem só pode ser usufruído pelo próprio Deus, exatamente porque ele é Deus, e ninguém mais o é. Mas cada criatura é como um receptáculo diferente, capaz de ser plenificado até o máximo pela glória. Ou seja, no sentido relativo, cada criatura que está na bem-aventurança final já alcançou o máximo de glória a que estava destinada, e isto é suficiente para torná-la plena como criatura.

Há, porém, um sentido em que se pode dizer que há um acréscimo acidental de felicidade naqueles casos citados em Lucas 15, 10: “haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende”. Esta alegria, diz Tomás, está relacionada à comunhão dos santos, que envolve a caminhada da própria história da salvação até o juízo final; o bem de um acresce-se ao bem dos outros, porque ninguém se salva sozinho. Neste sentido, o número dos que estão em glória cresce, até o juízo final, ampliando acidentalmente a felicidade dos que ali estão; é neste sentido que se diz que a felicidade dos santos anjos pode aumentar, nesta hipótese.

Mas, do ponto de vista essencial, absoluto, nenhum santo, nenhum beato pode merecer, porque já não está a caminho. Há apenas uma exceção: Nosso Senhor Jesus Cristo, que era pleno em santidade desde sempre e, no entanto, viveu como caminhante entre nós; portanto, reuniu em si as condições de glorioso e militante. No caso da alegria acidentalmente acrescida nos santos em razão dos penitentes, diz Tomás, seria mais próprio dizer que ela é uma alegria adquirida pelos santos, muito mais do que dizer que ela é, de algum modo, merecida.