Uma vez que ficou estabelecido que os anjos chegam à beatitude final, que é a presença de Deus, após apenas um ato de caridade movido pela graça, parece, então, que a maior parte de sua existência (excetuado este primeiro momento) passa-se na condição final de beatitude.
A questão é: uma vez que, na condição de santos anjos, eles são servidores de Deus, à disposição para as santas missões, e uma vez que existe a hierarquia dos anjos (nem todos estão na mesma elevação), será que os anjos progridem após chegarem à salvação final? Eles podem ter a bem-aventurança aumentada, podem ainda conquistar um aumento de felicidade, mesmo na situação final de beatitude na presença de Deus?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que os santos anjos, mesmo gozando da felicidade plena que é a presença de Deus, podem ter um aumento de felicidade. Mesmo lá, na eternidade, na bem-aventurança, diz a hipótese, eles continuam a caminhar e a servir, e por isto podem progredir em felicidade. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento objetor resgata, dos artigos anteriores, aquela ideia de que a caridade é o fundamento do mérito pelo qual os anjos, assistidos pela graça, chegam à glória final. Mas a glória final é a presença de Deus, é servi-lo. E Deus é a caridade perfeita. Logo, os atos que os anjos fazem no serviço de Deus são atos de caridade perfeita; geram, pois, merecimento, diz o argumento. Logo, se geram merecimento, são compensados pelo aumento da felicidade, mesmo para os anjos que estão na beatitude perfeita, diz o argumento. E ele conclui que os santos anjos podem merecer o aumento da beatitude final.
O segundo argumento vai na mesma linha: os anjos são usados por Deus, diz Agostinho, para sua utilidade e para nossa vantagem. É por eles, pelo seu ministério, que nós, humanos, chegamos à salvação, como Agostinho conclui das Escrituras. Mas isto não seria justo para os anjos, diz o argumento, se eles não tivessem algum tipo de mérito, de vantagem, neste serviço. Assim, conclui o argumento, a sua recompensa é que, pelo seu serviço, passam a merecer e conquistam um aumento na felicidade eterna de que gozam.
O terceiro argumento afirma que seria uma imperfeição que aqueles seres que não estão no grau supremo não possam progredir. Mas os anjos, mesmo os santos anjos, não estão no grau supremo, que é o grau divino. Ora, diz o argumento, se os anjos não estão no grau supremo e não puderem continuar a progredir, há, aí, um impedimento injustificável, que revelaria uma imperfeição no próprio estado final de bem-aventurança; mas a beatitude final não pode ser imperfeita, prossegue o argumento, porque é a presença do próprio Deus. Logo, conclui o argumento, os anjos podem progredir em felicidade, mesmo quando estão na beatitude final.
O argumento sed contra lembra a diferença entre a situação dos que estão “a caminho” (que a teologia chama, no caso de seres humanos, de “Igreja militante”, ou seja, os que ainda estão sobre a Terra e não atingiram a glória) e os que já chegaram à visão beatífica, os “vitoriosos”, que já entraram na vida eterna (o que seria, em termos de teologia eclesial, a “igreja triunfante”). Os que estão militando, a caminho, podem adquirir merecimento. Mas os que já triunfaram já atingiram a plenitude, e portanto não cabe mais falar de mérito ou prêmio, para estes. Logo, conclui o argumento, os santos anjos não progridem mais em felicidade.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás vai começar exatamente com uma lição sobre o movimento. Todo movimento precisa apontar para um fim determinado. Um movimento sem um fim determinado seria incompreensível. Especificamente no caso de um movimento em que alguma coisa é transportada por outra, é preciso que haja um fim, uma meta para qual esta coisa esteja seno movida, porque senão não é um movimento, mas um deslocamento aleatório, ininteligível. É o fim que dá inteligibilidade ao movimento em que algo move outra coisa.
No caso da beatitude final, já sabemos que a criatura não pode chegar a Deus por suas próprias forças (há uma heresia que defende que a criatura pode salvar-se sem a ajuda de Deus; chama-se pelagianismo, e é equivocado).
Como se dá esse movimento, em que a criatura inteligente é levada à salvação por um auxílio externo, a graça, que a transporta até Deus? E como é esse fim, a que o movimento visa? É o que veremos no próximo texto.
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