O debate que estamos colocando, aqui, diz respeito à natureza da liberdade naqueles que estão na glória, na presença de Deus. E vimos, na primeira parte deste texto, que a verdadeira liberdade consiste em alcançar o bem. Assim, somente Deus é livre no sentido pleno da palavra. Nós, porém, por um equívoco de nosso pensamento, achamos que “ser livre” é ser capaz de escolher indiferentemente entre o bem e o mal. Não é. Se fosse assim, Deus seria o menos livre dentre todos os seres. E é exatamente o contrário. Ser livre é ser capaz de acolher o bem como algo que não vem de nós, mas que nos é dado, e poder escolher os meios capazes de nos conduzir até ele. Por isto, ser compelido desde fora a alcançar o bem é tão contrário à liberdade quanto querer inventá-lo por nós mesmos, ou mesmo imaginar que a escolha do mal é parte integrante desta mesma liberdade. Não é.
Colocados os pressupostos da resposta, Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento lembra que a natureza não é destruída pela glória de Deus, para os anjos que estão na bem-aventurança final. Ora, se é próprio da natureza ser limitada, diz o argumento, a sua deficiência embute sempre o risco do pecado. E disto o argumento deduz que mesmo os santos anjos podem pecar.
Não é assim, diz Tomás. De fato, a natureza criada é sempre limitada, e por isto traz em si sempre o risco do pecado. Mas, na glória, a criatura é elevada à glória de Deus, e isto supre suas limitações e deficiências: havendo chegado à felicidade plena pela presença do bem absoluto, ela já não precisa pecar, porque foi libertada de todo risco de equívoco quanto ao bem.
A nossa capacidade natural de inteligir traz sempre a possibilidade de relacionar-se com termos opostos, diz o segundo argumento objetor. Conhecemos o alto e o baixo, o quente e o frio, o claro e o escuro, e assim por diante. Estamos sempre diante da necessidade de escolher um dos extremos e abandonar o outro, como vimos no poema de Cecília Meireles citado acima. Ora, prossegue o argumento, os anjos não deixam de ter suas capacidades intelectuais quando entram na glória. Logo, conclui, eles continuam a se deparar com os contrários, que têm razão de bem e de mal, e portanto o pecado continua dentro de suas possibilidades.
Este é o argumento do relativismo, portanto, levado até a presença de Deus.
Mas Tomás vai nos dar mais uma aula sobre a verdadeira natureza da criatura. Nossa inteligência pode ordenar-se a opostos, de fato; mas somente quanto àquilo a que ela não está naturalmente ordenada. Uma vez que somos, por natureza, ordenados à verdade, nossa inteligência não se ordena ao par de opostos verdade – mentira, mas somente à verdade.
Por isto, a inteligência não pode deixar de assentir à verdade conhecida, e contentar-se em dizer, por exemplo, que algo pode ser e não ser ao mesmo tempo, ou que os princípios da identidade e da não-contradição podem ser tanto verdadeiros como falsos, a depender do contexto. Eles, sendo princípios, são sempre verdadeiros, e a inteligência não pode deixar de reconhecer isto sem deixar de ser inteligência.
Assim, para aquilo que não é necessário, a vontade pode, de fato, inclinar-se para qualquer um dos dois opostos. E nisto são livres, também, os santos anjos. Se estão numa missão, podem escolher entre o caminho longo ou o curto, entre o lugar claro ou o escuro, e assim por diante. Mas, com relação ao que não é contingente, ao que diz respeito a Deus, ao seu amor e à sua verdade, os santos anjos sempre escolherão aquilo que conduz inevitavelmente a Deus, porque a liberdade consiste exatamente em conhecer o bem e dirigir-se livremente a ele.
O terceiro argumento é diretamente dirigido ao livre arbítrio. O argumento define o livre arbítrio como a capacidade de escolher indiferentemente entre o bem e o mal. Se é assim, diz o argumento, não poderíamos admitir que os santos anjos, tendo alcançado a glória, tenham menos livre arbítrio do que as criaturas que não estão ainda em Deus. Logo, a possibilidade de pecar, conclui o argumento, tem que estar presente nos santos anjos.
O livre arbítrio não é a possibilidade de escolher indiferentemente entre o bem e o mal, diz Tomás. Neste ponto, ele nos dá uma lição sobre a inteligência teórica e a inteligência prática. A inteligência teórica não escolhe seus princípios. Se eu quero construir um avião, eu não escolho a gravidade ou a resistência do ar; posso escolher o tamanho do avião e os tipos de motores que quero usar. Mas se não acolho os princípios da gravidade e da resistência aerodinâmica, que me são dados de fora, meu avião não voará. se quero construir um edifício, não escolho a resistência do concreto. Posso escolher a quantidade de andares, de janelas, de sacadas, mas se não respeito a resistência dos materiais e a força da gravidade, que me são dados, o edifício cairá. Se quero construir um raciocínio, não escolho os princípios da identidade e da não contradição. Eles me são dados. Posso escolher sobre qual assunto desejo argumentar, mas se não recebo e respeito estes princípios, meu raciocínio não chegará às conclusões que quero alcançar.
Com relação à inteligência prática, que envolve o livre arbítrio, o caminho é, de certo modo, o inverso: eu não escolho o fim a que me dirijo. O fim deve ser sempre o bem. É impossível não escolher o bem como fim da inteligência prática. Mesmo o bandido mais contumaz, ou o suicida mais autodestrutivo, não escapam a esta regra: um e outro estão buscando o bem, mas absolutizaram, como bem último, seu próprio bem-estar, sua própria centralidade, em prejuízo do bem absoluto que é Deus. Vão errar inevitavelmente no seu intento: do mesmo modo que alguém que queria ir para Nova York e embarca num avião para Buenos Aires, a sua escolha falhará miseravelmente, porque, mesmo que venham a executar os planos que conceberam, falharão miseravelmente em seus intentos, e nunca alcançarão alguma coisa, simplesmente porque o fim não se escolhe. Serão, sempre, frustrados. Não são livres, mas, ao contrário, deixar de reconhecer o fim dado é, para a liberdade, análogo a deixar de reconhecer a gravidade para um construtor de aviões.
Assim, o livre arbítrio envolve a escolha dos meios pelos quais vamos atingir o bem absoluto, que não podemos escolher. Neste sentido, quem está na glória vê e conhece pessoalmente este bem. Assim, seu livre arbítrio é muito mais pleno, muito mais efetivo, do que o nosso que ainda estamos a caminho. Podemos dizer, seguramente, que são muito mais livres do que nós.
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