Mais uma vez, aqui, discute-se a relação entre a liberdade e a salvação. Discussão fundamental.
Se aqueles que estão na presença de Deus não puderem escolher o mal, não puderem fazer o mal, serão eles menos livres do que aqueles que não estão em Deus? Será que a salvação é uma eliminação da liberdade? O santo anjo não é livre para pecar? Então ele é menos livre do que aquele que não está em Deus?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que os santos anjos, mesmo estando na bem-aventurança, ou seja, na plenitude da presença de Deus, podem pecar.
São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento lembra que, no artigo anterior, ficou estabelecido que a bem-aventurança final não suprime a natureza. Ora, a natureza da criatura é sempre limitada, diz o argumento; ora, aquilo que é limitado pode falhar, prossegue o argumento. Se o pecado é uma falha, e ele de fato é, então, uma vez que a criatura mantém sua natureza limitada mesmo ao alcançar a amizade final com Deus, ela traz consigo a possibilidade de pecar. E disto o argumento conclui que os santos anjos, mesmo na beatitude final, podem pecar.
O segundo argumento afirma que as potências racionais são relativas a termos opostos; o que quer dizer isto? Quer dizer que, para os seres racionais, é natural considerar uma coisa e seu contrário, a fim de apresentar à vontade as alternativas a serem escolhidas. Cecília Meireles, a grande escritora, fez um belo poema que reflete isto, no qual ela diz: “Ou se tem chuva e não se tem sol,/ou se tem sol e não se tem chuva!/ Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, Quem fica no chão não sobe nos ares./ É uma grande pena que não se possa/ estar ao mesmo tempo em dois lugares!(…)”. Ora, prossegue o argumento, o anjo, mesmo ao alcançar a glória de Deus, não deixa de ser racional. Logo, conclui o argumento, a inteligência do anjo não cessa de considerar o bem ou o mal.
O terceiro argumento lembra que é próprio do livre arbítrio escolher indiferentemente entre o bem e o mal. Mas seria impensável que os santos anjos, na glória, tivessem menos livre arbítrio do que aquelas criaturas que não chegaram até ela. Logo, conclui o argumento, seu livre arbítrio necessariamente deve continuar a incluir a possibilidade de escolher o pecado.
O argumento sed contra vai buscar a autoridade de Santo Agostinho, que, a respeito dos anjos, diz que a natureza dos anjos, que estão já na glória, não pode pecar. Assim, diz o argumento, é de se defender que os santos anjos, de fato, não pecam mais.
Sim, é verdade, diz Tomás na sua resposta sintetizadora, importantíssima. Trata-se de uma verdadeira lição sobre a relação entre a liberdade e o bem, que é fundamento de toda a ética. Ser livre é ser capaz de atingir o fim. Ora, o nosso fim é o bem. Portanto, pecar é colocar o mal no lugar do bem, e portanto é o contrário de ser livre. Portanto, aqueles que já estão no seio dobem absoluto, que é o próprio Deus, já não pecam, porque são absolutamente livres: repousam no bem. Não há mais maneira de equivocarem-se, de elegerem o mal sob uma falsa razão de bem. Deus, sendo a essência mesma do bem, é visível para eles, e portanto eles são livres para descansar na plenitude do bem.
Para os que não veem a Deus, resta a noção de bem comum, como aquilo que inevitavelmente atrai a vontade. Ninguém diz Tomás, elege deliberadamente o mal, isto seria impossível mesmo. Bem é aquilo que atrai a vontade. Mas, para os que ainda não estão na presença de Deus, é possível equivocar-se quando à natureza do que é bom, e eleger como bom aquilo que, embora tenha aparência de bem, na verdade não é.
Portanto, uma vez que o mal não é elegível, o livre arbítrio, entre aqueles que não alcançaram ainda a bem-aventurança final, consiste em discernir, à luz do bem comum, qual o bem elegível aqui e agora. Não se trata, pois, de escolher entre o bem e o mal; escolher o mal é simplesmente impossível. O livre arbítrio consiste em escolher entre o bem verdadeiro e o bem aparente, julgando a situação concreta na qual a pessoa está inserida. Ora, na vida cotidiana, em que não se vê a Deus diretamente, o mal é capaz de apresentar-se sob a aparência de bem, atraindo a vontade e leando ao pecado. Mas é parte da condição de caminhante escolher o bem livremente, não coagido nem compelido. Assim, a própria condição de pessoa ainda a caminho leva à possibilidade do erro na escolha do bem, que é exatamente a noção do pecado. Escolher o bem próprio, o bem criatural, que se apresenta sob uma aparência sedutora, no lugar do bem divino, que não se apresenta com clareza absoluta nos que ainda não estão na glória, é um risco da liberdade, e representa seu fracasso, e não sua essência. Assim, somente os que estão na presença de Deus podem ver o bem na sua plenitude, e são capazes de escolher, sempre livremente, o bem verdadeiro, sem deixar-se enganar pela aparência. Portanto, não é que os santos anjos, na presença de Deus, não possam pecar, ou seja, não é que eles sejam menos livres nas suas escolhas. Eles já não precisam pecar, porque sua vontade está livre para sempre escolher o bem.
No próximo texto revisitaremos as objeções iniciais.
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