Este debate envolve uma pergunta muito interessante, e que é da maior importância para nós, ainda hoje: quando o anjo chega à presença de Deus, ainda mantém a sua própria personalidade, ou é absorvido por Deus e passa a conhecer o que Deus conhece e querer o que Deus quer, sem manter sua própria individualidade? Esta é uma visão muito comum ainda hoje, em muitos círculos influenciados por religiões orientais, a de que encontrar-se com Deus significa perder a própria individualidade e dissolver-se nele. Estudando a situação dos anjos, que são puros espíritos e não tê, uma individualidade marcada pela corporeidade, mas pela inteligência e vontade próprios, poderemos entender melhor a questão da salvação humana, também aqui.
Eis o debate proposto: será que o anjo conserva sua própria inteligência e sua própria vontade ao atingir a beatitude em Deus? Ou será que se dissolvem em Deus, adotando a inteligência divina e a vontade divina como suas e perdendo sua individualidade natural?
Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento cita 1 Coríntios 13, 10, o famoso “hino do amor” de São Paulo, em que ele nos diz: “quando chegar o que é perfeito, aquilo que é imperfeito desaparecerá”. Ora, prossegue o argumento, o conhecimento natural do anjo, bem como sua vontade natural, são imperfeitos frente a onisciência e o amor divinos. Logo, conclui, quando o anjo chega à presença de Deus, perde seu próprio conhecimento e sua vontade.
O segundo argumento também propõe um princípio que diz: quando uma coisa é suficiente, todas as outras são supérfluas. Ora, prossegue, ninguém discute que, para quem está na presença de Deus, o conhecimento divino e o amor divino são plenos, e portanto suficientes para plenificar a criatura. Assim, conclui, o conhecimento natural e o amor natural do anjo tornam-se supérfluos, e portanto não subsistem, porque em Deus nada do que é supérfluo pode subsistir.
O terceiro argumento, finalmente, lembra um princípio da filosofia aristotélica, que diz respeito à relação entre as potências e seus respectivos atos. Cada potência, diz o argumento, aponta para um e apenas um ato. Cada capacidade tem a sua própria operação, e a sua própria perfeição, portanto. Ora, os santos anjos, quer dizer, aqueles que chegaram à presença divina, estão sempre em ato para o conhecimento e o querer de Deus, porque conhecer e querer não são meramente capacidades habituais, mas verdadeiros atos, ou seja, operações presentes. Portanto, se a potência para conhecer e para querer, nos anjos que chegaram à glória, tornam-se atuais pelo conhecimento e pelo querer de Deus, excluem-se tanto o conhecimento quanto o querer que os anjos tinham naturalmente, porque suas potências são plenificadas por Deus. Disto o argumento conclui que o conhecimento natural e o querer criatural dos anjos não subsistem na glória eterna.
O argumento sed contra simplesmente reafirma o óbvio: se uma natureza permanece, também permanecem suas próprias operações. A glória da presença final de Deus não aniquila a natureza da criatura que a alcança, mas na verdade leva-a à perfeição, à plenitude final. Ora, é a própria criatura que é levada à sua perfeição, e não a uma “dissolução em Deus”. Assim, a beatitude final não aniquila o conhecimento e a vontade do anjo bem-aventurado, que permanece sendo ele mesmo.
E é isto o que Tomás pensa, também, e dirá em sua resposta sintetizadora. De fato, aqueles que alcançaram a bem-aventurança de estar na presença de Deus, diz Tomás, não são como que absorvidos em Deus, mas mantêm sua individualidade, ou seja, têm sua própria capacidade de conhecer e querer conservada.
De fato, diz ele, a beatitude pressupõe a natureza. A salvação é para a criatura. Não faria sentido que ela fosse “absorvida” ou “consumida” em Deus, porque neste caso ela não estaria salva, mas simplesmente eliminada, destruída. Quando algo é princípio para um fim, diz Tomás, ela funciona como um primeiro para um segundo. Para tornar mais claro, daremos um exemplo: um matrimônio pressupõe duas pessoas; torna-as um casal, mas não as elimina ou absorve. Continuam sendo duas pessoas, mas agora casadas. O esposo é como que a perfeição do homem, em sua comunhão com a mulher, e vice-versa. Mas ser esposo é segundo em relação a ser pessoa humana, e o ser primeiro, ou seja, o ser um indivíduo humano, não é absorvido quando alguém entra num matrimônio. De modo análogo, o ser anjo, ser um indivíduo angélico (ou, similarmente, ser um indivíduo humano) não é eliminado quando se alcança o estado de beatitude final em Deus.
Colocados estes princípios, Tomás revisita as objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor afirma, com base numa citação da Carta aos Romanos, que aquilo que é imperfeito é eliminado quando se chega à perfeição. E disso conclui que a individualidade criatural, sua própria inteligência e sua vontade própria, são eliminados na beatitude final em Deus.
Não é isto que a Bíblia quer dizer, aforma Tomás. Quando a perfeição vem, ela elimina aquelas imperfeições que lhe são contrárias. A aprendizagem, por exemplo, elimina a ignorância, ou o comer elimina a fome.
No entanto, diz Tomás, a natureza criatural não é oposta à perfeição da bem-aventurança final, para ser por esta eliminada; na verdade, ela é pressuposta, para a salvação. Quando Deus salva, ele salva sempre alguém. A situação é similar àquela existente entre a potência e o ato, na teoria aristotélica, diz Tomás. A potência de conhecer não é eliminada quando se aprende. O que se elimina, aí, é a ignorância, a situação de estar privado daquele conhecimento. É por isto que Tomás diz que o ato não elimina a potência, mas a privação. Assim, a nossa capacidade passiva de ser conduzido a Deus não é eliminada quando chegamos a Deus; apenas o nosso estado de distância, de privação de Deus, é eliminado.
E é certo, diz Tomás, que o conhecimento de Deus a que chegamos quando estamos na beatitude não é oposto ao conhecimento de Deus que temos pelo exame da natureza, ou mesmo ao conhecimento revelado de Deus. São vários modos de chegar ao mesmo conhecimento, como podemos saber a distância entre duas cidades por meio de um mapa ou por percorrer o caminho. Um destes modos de conhecer não elimina o outro. Assim, o conhecimento de Deus da bem-aventurança não elimina o conhecimento natural de Deus que há nos anjos, nem sua inteligência natural, embora as leve à perfeição.
É exatamente daí que parte a segunda objeção. Ela afirma que, quando uma coisa é suficiente, qualquer outra se torna supérflua. Eu não preciso de um livro que me ensine a escrever quando sou capaz de escrever perfeitamente, por exemplo. Logo, o argumento conclui que o conhecimento e a vontade naturais do anjo não são mais necessários, na bem-aventurança final.
De certo modo, diz Tomás, podemos dizer que, de fato, os atributos da bem-aventurança são plenos, perfeitos. O conhecimento, na bem-aventurança, é perfeito, e a presença de Deus preenche a vontade da criatura que chegou a vê-lo. No entanto, eles pressupõem uma inteligência criatural que receba este conhecimento, e uma vontade criatural que repouse neste amor. Somente no próprio Deus há identidade entre a inteligência, a vontade e a bem-aventurança.
Por fim, o terceiro argumento também trabalha com o binômio ato-potência. Uma potência, diz o argumento, não pode apontar para dois atos diferentes. A semente, por exemplo, dá origem a uma planta, e já não dá origem a outra planta, porque já não está em potência para germinar. Ora, prossegue o argumento, os anjos bem-aventurados, que chegaram a Deus, estão em ato para o conhecimento e para o amor total, em Deus. Suas potências de querer e conhecer, diz o argumento, esgotam-se, e já não apresentam nenhum conhecimento natural e nenhuma vontade natural, dissolvendo-se no conhecimento divino e no amor divino, conclui o argumento.
É verdade que duas operações não podem surgir simultaneamente da mesma potência, como duas plantas não podem surgir da mesma semente. A menos, diz Tomás, que uma das operações esteja ordenada à outra: é assim que, da mesma semente, podem surgir o caule, as folhas e, posteriormente, as flores e os frutos. De modo similar, o conhecimento e a vontade natural, no anjo, ordenam-se ao conhecimento de Deus e ao amor divino. É por isto que nada impede que, tendo alcançado a bem-aventurança, o anjo preserve em si o conhecimento e a vontade naturais, mesmo recebendo o conhecimento e o amor divino pela salvação final.
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