Como seria chamado o recinto, nas antigas catedrais, destinado à contemplação dos anjos? Nos textos mais antigos aqui do Blog, tínhamos lembrado a velha analogia que comparava a Suma a uma catedral medieval, e a comparação ainda é boa. De fato, nada parece mais medieval do que discutir a estrutura dos anjos, sua forma de ser e sua salvação. Mas isto é parte da nossa estrutura, da estrutura desta grande catedral. Ainda que os anjos não existissem (e temos excelentes razões para imaginar que eles existem, tanto por revelação como por tradições estranhas à católica, além de diversas intuições filosóficas) seria um excelente exercício conceber estes entes criaturais inteligentes e incorpóreos, com o rigor metodológico que Tomás usa, e perceber as implicações de sermos imperfeitos e corporais. A este ponto, estamos estudando o processo de salvação dos anjos, e este estudo leva a refletir muito sobre o nosso próprio caminho de salvação. É como se estivéssemos olhando para a cúpula da catedral, com suas janelas filtrando delicadamente a luz do céu.

O debate, aqui, é sobre a intensidade da graça recebida pelos anjos. Será que a graça é a mesma para todos os anjos, ou será que ela varia, ou seja, que Deus concede uma graça mais intensa a este ou aquele anjo? E se o faz, qual o fator que determina a intensidade da graça concedida?

Trata-se, pois, de um debate interessantíssimo sobre a relação entre a graça e a natureza no processo de salvação.

Sim, diz Tomás na sua resposta sintetizadora, de fato é bem razoável admitir que os anjos mais elevados tenham recebido uma graça mais intensa e sejam destinados a uma glória maior, na proporção do grau de suas capacidades naturais no interior da hierarquia angélica. E São Tomás dá duas razões para isto.

A primeira razão vem de Deus mesmo. Ele próprio, em sua sabedoria infinita, constituiu os anjos em forma hierárquica (diferentemente dos humanos, que são todos da mesma espécie). Ora, se os anjos foram idealizados e criados por Deus para alcançar a graça e a glória como bem último, e se eles foram criados em diversos graus de elevação, parece razoável concluir que eles foram ordenados a graus diversos de graça e glória, também. E Tomás dá um exemplo: se alguém está construindo uma casa de pedra, ele pode escolher as pedras conforme a sua função na construção: algumas mais fortes e grosseiras podem ficar no alicerce, enquanto outras, mais belas e sofisticadas, podem ser lixadas e polidas para enfeitar a fachada. Assim, Deus reservou uma graça mais intensa e uma posição mais elevada na glória para aqueles anjos aos quais ele deu uma natureza mais aprimorada.

A segunda razão decorre do exame do próprio anjo. Diferentemente do ser humano (que tem uma estrutura composta de vários elementos, materiais e espirituais), o anjo é estruturalmente simples, isto é, puramente espiritual. No ser humano, portanto, há conflito entre a sua inteligência e a sua sensibilidade, com a inteligência apontando às vezes para um lado e a sensibilidade apontando para outro: basta pensar, por exemplo, no medo que uma cirurgia, cuja necessidade é percebida pela inteligência, pode despertar no coração de uma pessoa humana. A reação instintiva decorre da nossa estrutura animal, e é vencida pela escolha adotada intelectualmente. Este tipo de conflito, este tipo de entrechoque entre elementos que compõem o ser humano, não existe no anjo, que é estruturalmente simples. Assim, aquilo que é percebido como um bem pelo intelecto angélico move o anjo todo, integralmente, em sua direção, sem resistência de algum conflito interno (que no anjo não existe). Por isto, enquanto mesmo um ser humano muito dotado de atributos intelectuais e de preparação espiritual pode ver sua inclinação (para o bem) resistida internamente por algum tipo de obstáculo passional, como o medo, a ira ou alguma ferida psicológica inconsciente, enquanto um outro ser humano, talvez não tão desenvolvido em atributos intelectuais, venha a chegar mais longe por apresentar uma integridade interna maior.

No caso dos anjos, isto não acontece. Eles não têm estruturas psicológicas complexas como inconsciente ou superego, nem têm paixões ou feridas psicológicas. Uma vez que o bem se apresenta à sua inteligência, eles se inclinam completamente, sem divisões internas, para lá. Assim, um anjo mais elevado inclinar-se-á necessariamente de maneira mais intensa do que um anjo menos elevado. Deste modo, é razoável afirmar que um anjo com uma natureza hierarquicamente superior receberá uma graça mais intensa, para entrar numa glória mais elevada, porque esta é a ordem adequada.

Pronto; Tomás estabeleceu os rumos para resolver o debate proposto. Passa agora a enfrentar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento lembra que a graça é de graça, ou seja, seu único pressuposto é a vontade de Deus. Assim, também a intensidade da graça, diz o argumento, depende apenas da vontade de Deus e não de alguma relação com as capacidades pessoais da criatura agraciada, conclui o argumento.

A vontade de Deus é livre de fato, diz Tomás. E a graça, de fato, é de graça. Mas Deus não é arbitrário. De fato, ele exerce sua liberdade ao criar o anjo com determinado grau de capacidades naturais, ou seja, com determinada posição na hierarquia de capacidades angelicais. E exerce sua coerência ao dotar este ser com a graça mais intensa, proporcional ao perfeito exercício de suas capacidades no plano da salvação. Portanto, com liberdade Deus designou os graus de capacidade natural de cada anjo, ordenando-os à graça e à glória. E com coerência ele os dotou da graça com intensidade necessária ao atingimento da glória.

O segundo argumento inicia-se com uma afirmação interessante: o que está mais próximo da graça? A natureza humana, tal como Deus no-la deu, ou o agir humano? É o agir humano que está mais perto da graça, diz o argumento, porque agir bem, fazer boas obras, não somente resulta da graça, mas prepara-nos para receber mais graça. Apesar dessa proximidade, as Escrituras nos asseguram que a graça não tem origem nas obras, das quais ela está mais próxima. Como ela poderia, então, decorrer da própria natureza angélica, da qual ela está mais distante? Logo, conclui o argumento, a intensidade da graça não guarda proporção com o grau das capacidades naturais dos anjos.

Tomás vai nos lembrar que são coisas diferentes: uma coisa é dizer que a graça não vem das obras, ou seja, ela não é consequência da boa vontade humana, nem da boa vontade dos anjos, mas da generosidade divina. De fato, o agir vem da criatura, e não pode condicionar a graça. Mas a natureza, suas capacidades, seu grau de elevação, tudo isso vem diretamente de Deus, é dom seu, como a própria graça. Assim, conclui Tomás, é muito mais razoável admitir que a graça seja proporcionada à natureza do que ao agir da criatura.

Por fim, o terceiro argumento lembra que tanto os anjos como os humanos são criaturas destinadas à felicidade, primeiro pela graça e, no fim, pela glória. Ms a graça não varia de intensidade em razão das diferenças de capacidades entre os humanos. Logo, conclui o argumento, não poderíamos defender que ela poderia variar em função das diferentes capacidades naturais entre os anjos.

Há uma questão relevante, aí, que deve ser observada, pondera Tomás. De fato, os anjos são diferentes entre si porque cada anjo é de uma espécie diferente, lembra ele. Os seres humanos, por outro lado, são diferentes entre si apenas em sua individualidade, já que todos pertencem a uma só e mesma espécie. Ou seja, a diferença entre os anjos decorre de que eles têm formas diferentes entre si. É portanto uma diferença na ordem formal. Os seres humanos têm todos a mesma forma específica, ou seja, a forma humana, que é a própria espécie humana. Ela se individualiza em cada ser humano através dos corpos, ou seja, cada ser humano, embora tenha a mesma forma, tem matéria diferente, e esta diferença corporal, material, é que determina que cada ser humano use de modo diferente a igual capacidade intelectual que formalmente tem. Assim, a estrutura metafísica dos anjos é diferente da estrutura metafísica humana, o que determina que a relação dessas duas criaturas com a graça de Deus não pode ser equiparada.