Nossa mentalidade igualitária contemporânea não parece adequar-se à ideia de que Deus pode criar seres diferentes entre si, que serão tratados desigualmente e participarão desigualmente da sua bem-aventurança. Parece-nos injusto. Gostaríamos de imaginar que Deus fez tudo igualzinho. Mas não ocorreu assim.
É interessante, neste sentido, estudar os anjos. Cada anjo é único. Não há dois anjos da mesma espécie, como já havíamos estudado antes. Ora, se para os seres humanos, que são todos da mesma espécie, Jesus alertava que na casa do Pai há muitas moradas (João 14, 2), para os anjos, diferentes em espécie, não seria de surpreender se tivessem também um tratamento individualizado, pessoal e diferente para cada anjo, no céu.
Mas há algum fator que determina esta individualização? Como determinar quanta graça (e quanta glória) cada anjo deve receber? Se cada um deles pratica apenas um ato de caridade e já entra na glória, como diferenciar seus méritos? Se a graça é, como diz o nome, de graça, como poderia ter medidas diferentes para cada anjo? E se o céu é a presença de Deus, como poderia haver graus na glória dos anjos beatos? Será que isto se dá em razão da hierarquia dos anjos?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que o fato de haver uma hierarquia dos anjos, com alguns anjos mais elevados e outros mais simples, não determinaria nenhuma diferença nos graus da graça e da glória reservada a cada um deles.
Sã três os argumentos objetores, aqui.
O primeiro argumento lembra que a graça decorre da mera vontade de Deus, e não tem outro pressuposto. Assim, também a intensidade dessa graça conferida por Deus estaria condicionada apenas à sua vontade, ao seu arbítrio, e não a uma proporção com a natureza do anjos dentro da hierarquia angelical, conclui o argumento.
O segundo argumento lembra que a graça, quanto aos seres humanos, é relacionada muito mais ao agir do que à natureza humana ou suas perfeições. O agir prepara para a recepção de mais e melhores graças. Mas a Carta aos Romanos nos lembra que a graça não vem das obras, ou seja, não decorre, como fundamento último, do agir humano. Ora, se o agir, que se relaciona mais intimamente com a graça, não a determina, diz o argumento, como ela poderia ser determinada pelo grau de capacidades dos anjos, ou seja, pela sua natureza, que seria muito menos aproximada a ela? Assim, o argumento conclui que a graça recebida pelo anjos não é proporcionada à sua natureza.
O terceiro argumento quer fazer uma analogia linear entre a graça dada aos seres humanos e a graça dada aos anjos. Ora, prossegue o argumento, tanto os anjos como os humanos são similarmente destinados à graça e a bem-aventurança final. Mas, para os seres humanos, a graça não tem proporção com as respectivas capacidades naturais, ou seja, não importa que o ser humano seja naturalmente mais bem aquinhoado de talentos e capacidades para determinar a intensidade de graça que receberá. Assim, conclui o argumento, tampouco para os anjos o fato de ser mais elevado pode influir neste aspecto.
Por fim, o argumento sed contra procura a autoridade do próprio Pedro Lombardo, que era o autor utilizado para toda formação teológica na época. Pedro Lombardo, o Mestre das Sentenças, diz expressamente que aqueles anjos que foram criados com uma natureza mais sutil e uma sabedoria mais perspicaz também receberam uma graça mais intensa. Assim, o argumento conclui que há fundamento para defender que os anjos mais naturalmente elevados recebem uma graça mais intensa.
Sim, de fato é bem razoável admitir que os anjos tenham recebido uma graça mais intensa e sejam destinados a uma glória maior, na proporção do grau de suas capacidades naturais no interior da hierarquia angélica, diz Tomás na sua resposta sintetizadora. E veremos as razões disto no próximo texto.
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