Nós, seres humanos, somos caminhantes. Construímos nossa própria perfeição na caminhada, na qual aprendemos. Este é o sentido de sermos seres materiais, corporais, inseridos na história: caminhar. É por isto que não chegamos logo na glória de Deus. Caminhamos, aprendemos, fazemos, acertamos, erramos e o nosso fracasso sempre está envolvido com a possibilidade de arrependimento e perdão, por um lado, ou o endurecimento no mal, por outro. Enquanto estamos vivos e caminhando aqui, sempre podemos perceber, errar, converter-nos, pedir perdão, cair, levantar e prosseguir. Quando morremos, saímos da história, e nossa situação estabiliza-se para sempre. É aí que vem o julgamento.
Mas os anjos não são criaturas processuais; eles não estão presos na história. Assim, toda esta realidade de aprendizagem, tentativa e erro, arrependimento e perdão, queda e conversão, nada disso se aplica aos anjos. É deste ponto que Tomás parte para iniciar sua resposta sintetizadora.
O anjo, uma vez que faz apenas um ato de amor, agindo com a graça pela caridade, não tem mais nada que o impeça de entrar na glória. O anjo não faz caminho. Não está na história, não se arrepende, não aprende nem muda de ideia. Anjos não pedem perdão, porque conhecem, em cada ato exatamente todas as circunstâncias e consequências do que estão fazendo. Sendo imateriais, não estão constrangidos pelo tempo. Ele já é naturalmente pleno, portanto.
Ora, não há razão, pois, para imaginar que este único ato de amor na graça não represente a coroação de sua natureza plena. A graça age na natureza em conformidade com aquilo que a natureza é. Numa natureza processual, como a humana, ela age processualmente. Mas numa natureza plena como a angélica, ela age imediatamente.
Esta é, pois, a sequência, para Tomás: o anjo é criado pleo, dotado simultaneamente da graça e, praticando um único ato de amor na graça, atinge a bem-aventurança imediatamente. Pela natureza, ele está ordenado à plenitude criatural. Pela graça, à glória eterna. Há uma bela simetria, aí, que respeita aquilo que os medievais costumavam lembrar, ou seja, que a graça age em conformidade com a respectiva natureza que a recebe, nunca contra ou sem ela.
Não se trata, pois, de que o anjo é diferente dos humanos por receber a glória com apenas um ato de amor. Pode ser que isto aconteça com os humanos também, como no caso do bom ladrão mencionado em Lucas 23, 42. Trata-se de que, nos anjos, o prêmio da glória não pressupõe mais nada, enquanto nos humanos ele pressupõe a morte do santo. A via, o caminho dos anjos, é, portanto, muito mais curto.
Colocados os pressupostos para a solução do debate, Tomás revisita as objeções iniciais.
A primeira objeção lembra que fazer o bem é muito mais difícil para os humanos do que para os anjos. Não haveria sentido, pois, que o ato mais fácil fosse recompensado imediatamente e o mais difícil demorasse para ser recompensado. Assim, conclui que os anjos não recebem a bem-aventurança como prêmio imediato para um único ato de amor na graça.
Não se trata de injustiça, diz Tomás. Há, aí, uma demonstração de que a graça respeita a natureza com a qual se relaciona. Com a natureza angélica, há a sucessão imediata de eventos, que a rigor não é temporal, embora seja sucessiva. E faz sentido que seja assim, porque os anjos estão submetidos à sucessão de eventos, mas não ao tempo. Os seres humanos, porém, são materiais, históricos, temporais, processuais. Assim, faz sentido que neles a graça aja de maneira mais longa, sucessiva, processual, no tempo, respeitando o próprio modo de ser humano. Naturezas diferentes, caminhos diferentes.
O segundo argumento vai mais longe, e nega que haja, aí, sequer sucessão, mas simultaneidade de eventos: os anjos seriam criados, receberiam a graça, fariam o gesto de amor e estariam salvos, tudo num único e mesmo instante, afirma o argumento.
Não é assim, diz Tomás. Ele reafirma que, de fato, os anjos não estão submetidos ao tempo (que é a medida do movimento material, e portanto não se aplica a eles). No entanto, eles são finitos, criaturas, e têm que lidar com eventos sucessivos de modo sucessivo. Somente em Deus tudo é simultaneidade. Assim, uma vez que o prêmio pressupõe o ato meritório, e o ato meritório pressupõe a graça santificante, enquanto a vida eterna pressupõe a graça perfeita, consumada, temos que admitir, aí, que há uma verdadeira sucessão de eventos: graça, ato de amor, prêmio da glória. Trata-se de uma sucessão não temporal, mas, ainda assim, uma verdadeira sucessão. É por isto que a sucessão no tempo é chamada de temporal, enquanto a sucessão de eventos recebe o nome de evo. Não há simultaneidade, pois, no processo que leva os anjos à beatitude.
O terceiro argumento também parte de uma analogia material, que mostra o quanto o pensamento humano está preso no tempo e no espaço, e o quanto é difícil, para nós, entender a natureza incorpórea dos anjos. Se no argumento anterior 9o segundo) a analogia era com o tempo, aqui a analogia é com o espaço. Entre a simples natureza angélica recém-criada, diz o argumento, e os anjos beatos, que estão na glória, há uma enorme distância. Ora, nas coisas que estão muito distantes, existem muitos pontos no espaço intermédio. Mas um simples ato de amor é pontual, e representa apenas um ponto. Se há vários pontos no espaço intermédio de uma grande distância, então devem existir igualmente muitos atos pontuais de amor entre o estado de natureza e a bem-aventurança final, nos anjos. Assim, conclui o argumento, os anjos não podem atingir a beatitude com apenas um ato de amor.
Tomás sabe que esta analogia não funciona. O que rompe a enorme distância entre a natureza e Deus não é o acúmulo de atos de amor, mas a graça que encaminha a salvação. Assim, a analogia espacial não se aplica, e, dada a natureza plena do anjo e a graça da qual ele foi dotado, um único ato de caridade é suficiente para que ele receba imediatamente a glória final.
Que bonito é contemplar a salvação dos anjos! Aplica-se aqui, e nunca para os seres humanos, a tal opção fundamental por Deus, que alguns teólogos modernos tentaram definir como o único pressuposto para a salvação humana, independentemente dos atos concretos de caridade que sejam ou não realizados pontualmente em sua história. Isto é verdade para os anjos, mas não para os seres humanos. E aqui está o porquê.
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