Vimos, então, que os anjos recebem a graça santificante assim que criados, e precisam, sob o influxo da graça, merecer a bem-aventurança final, para entrar na glória e ver Deus face a face.

No caso dos humanos, a morte marca este momento. Mas os anjos não experimentam a morte natural, como nós. São imortais. Assim, não é despropositado perguntar que atos trazem merecimento aos anjos, e quando eles entram na glória.

Para provocar o debate, a hipótese controvertida proposta é que o anjo não entra na bem-aventurança final imediatamente após praticar um único ato de caridade na graça santificante, isto é, haveria um lapso temporal qualquer entre o ato meritório do anjo e o seu prêmio final, que é a glória de Deus.

São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro compara os anjos com os seres humanos. Para os humanos, é mais difícil fazer o bem que para os anjos, que não têm que submeter-se ao mundo material, mas submetem-no. Assim, o mérito, para os humanos, deveria ter mais valor, porque é mais árduo de obter. Ora, diz o argumento, se para os humanos, cujo mérito tem mais valor, a retribuição demora, com muito mais razão deve demorar para os anjos, para quem agir bem é muito mais fácil. Assim, o argumento conclui que eles não atingem a bem-aventurança imediatamente após um único ato de caridade sob a graça.

O segundo argumento lembra que o dinamismo, a operação do anjo, não é processual como a humana. No primeiro momento de sua criação ele já tinha toda a perfeição natural que poderia atingir e já fora dotado da graça. Assim, diferente do ser humano, que precisa de um aperfeiçoamento paulatino, o anjo poderia ter feito, imediatamente após sua criação, um movimento de vontade, uma decisão, informada pela graça santificante e pela caridade, de modo a adquirir imediatamente o merecimento para a glória. Assim, segundo o argumento, não haveria nenhuma sucessão: a criação, a graça, o ato de caridade e a glória seriam simultâneos e instantâneos no anjo, conclui. E por isto o anjo teria, simultaneamente, no instante mesmo de sua criação, sido criado, dotado de graça, adquirido mérito e entrado na glória, sem sucessão de eventos, diz o argumento.

O terceiro argumento faz uma analogia entre a distância geométrica e a distância espiritual entre o anjo e Deus. O argumento lembra que entre dois pontos quaisquer, que estejam muito distantes entre si, há sempre mais de um ponto médio. Ora, diz o argumento, há uma distância espiritual enorme entre o estado de natureza dos anjos e a sua bem-aventurança final, já que, no primeiro caso, ele está ainda longe de Deus, e no segundo contempla a sua face. Ora, diz o argumento, os atos meritórios dos anjos são como que pontos médios entre o estado de natureza e a bem-aventurança final. Assim, de acordo com esta analogia, se estes dois estados são muito distantes, isto significa que deve haver muitos atos meritórios entre um e outro, para exercer a função dos muitos pontos médios. Por isto, conclui o argumento, não basta apenas um ato meritório para fazer o anjo atingir imediatamente o estado final de bem-aventurança.

O argumento sed contra faz uma comparação entre a alma separada dos seres humanos, no estado pós-morte, por um lado, e os anjos, com sua natureza puramente espiritual, por outro. Os seres humanos, após a morte, subsistem em suas almas separadas dos corpos. Aos seres humanos que viveram em qualquer grau a santidade em suas vidas, diz Tomás, Jesus prometei o mesmo gozo dos anjos bem-aventurados. O ser humano vivo, de corpo e alma, é processual, histórico e sempre capaz de aperfeiçoamento, e por isto não entra logo na glória de Deus, que é um estado de plenitude final. Mas as almas humanas separadas dos corpos, no entanto, já não são perfectíveis, ou seja, já não mudam, não podem mais conquistar méritos. Neste caso, se elas já adquiriram o mérito pela graça, ainda que por um único ato de caridade, elas não encontram impedimento em gozar imediatamente da bem-aventurança final, sem demora. Ora, conclui o argumento, os anjos estão na mesma situação destas almas: em havendo mérito, não há impedimento a que cheguem, imediatamente, à glória final, ainda que após um único ato meritório.

Postos os termos do debate, Tomás nos oferecerá sua resposta sintetizadora, que examinaremos no próximo texto.